Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Cândido tinha tido uma dessas horas felizes: derramara enchentes de poesia no cântico da esperança, e convertera em hinos de amor seu coração agradecido.
Celina havia começado a ler receosa e trêmula; pouco depois o fogo que animara o poeta foi ardendo também na alma da virgem, que finalmente cedendo aos impulsos da natureza, acabou por ler com paixão e entusiasmo os juramentos de amor daquele que ela amava tanto.
Quando a “Bela Órfã” chegou ao fim da última página, era já a hora do crepúsculo, hora voluptuosa e fantástica, em que não é dia nem noite, hora de sonhos e de quimeras certamente; sonhos e quimeras porém, que todas as realidades desta vida não podem pagar nunca.
Celina docemente recostada no banco de relva do caramanchão ficou meditando muito tempo. Não via mais os arbustos cobertos de flores, que tinha diante de si; não ouvia mais o ruído que fazia o favônio brincando com as flores. Estava vivendo no mundo encantado da imaginação; estava vendo a figura graciosa de Cândido, vibrando as cordas de sua harpa, e ouvindo sua voz harmoniosa e terna entoar o canto do poeta amoroso, como na noite de seus anos:
“Iguais são no fado que têm a cumprir,
“Iguais num mistério a bela e a flor;
“Se a flor tem perfume, que o prado embalsama,
“É délio perfume da bela o amor.”
Os olhos da bela moça ora se fitavam sobre um objeto, que ela então nem via, ora vagavam indiferentes e incertos... até que uma vez...
Celina fez um movimento e lançou os olhos sobre a janela do “Purgatóriotrigueiro”... a janela estava aberta, e junto dela um jovem belo e gracioso embebia suas vistas na encantadora figura da moça... era ele... era Cândido.
O filho adotivo de Irias havia chegado à fresta da janela, vira a “Bela Órfã” lendo, conhecera os seus papéis, e arrebatado de prazer e de entusiasmo abrira a janela, e tinha ficado em terno êxtase, devorando com olhares ardentes os encantos daquela que adorava.
Celina ergueu-se um pouco... não mostrou nem pejo nem espanto. Cândido lhe aparecia em um momento de fogo imenso de imaginação. Nem ela nem ele estavam em si: o poeta e a bela acima do mundo... acima dos homens, viviam nessa hora no espaço encantador que as almas habitam em completa independência da matéria.
Com os olhos fitos um no outro, como dois magnetizados, com os lábios dilatados por doce e terno sorriso, eles ficaram olhando-se muito tempo... muito tempo... vivendo, amando-se pelos olhos!
Nem uma palavra de seus lábios... nem um movimento de seus braços... para quê?... o que poderiam dizer e significar eles?...
As almas de ambos patenteavam-se, conversavam, juravam de mil modos um amor puro e celeste naquele olhar fixo e ardente com que os dois amantes se estavam devorando.
O magnetismo de amor os dominava.
À face do céu e à luz do crepúsculo celebrava-se ali um himeneu encantado.
O templo era o jardim; amor era o sacerdote, as testemunhas eram os favônios e as flores.
Os noivos eram aqueles dois corações; desde esse momento Cândido e Celina ficavam sendo esposos na alma: não se haviam dado as mãos; mas tinham-se enlaçado pelos olhos.
CAPÍTULO XXXIII
O ANIVERSÁRIO
ÀQUELE dia tão cheio de acontecimentos de imensa importância para os amores de Mariana e Celina, tinha de seguir uma noite não menos fértil.
Eram oito horas.
A voz da velha Irias acabava de chamar a Cândido para cear.
O mancebo, alegre como nunca o estivera em toda sua vida, desceu as escadas do velho sótão, e entrando na saleta do “Purgatório-trigueiro”, encontrou sua mãe adotiva risonha e prazenteira, como em nenhuma outra noite se mostrara a seus olhos.
Era talvez uma noite de festa aquela que se estava passando na pobre casa; sobre a mesa havia dois pratos a mais; contra todos os antigos hábitos uma garrafa de vinho e dois copos se apresentavam aos olhos de Cândido; e para que nada faltasse, um vaso de flores naturais à mesa.
– O que é isto, minha mãe?... perguntou Cândido sorrindo.
– É uma noite de prazer, meu filho, respondeu a velha; e graças a Deus que o teu rosto se está parecendo com o meu coração; sorriem ambos. Estás alegre hoje?... – Oh! muito! muito!... tanto que tenho medo do meu prazer.
– Por quê?...
– Porque receio sentir-me dobradamente infeliz ao depois.
– E qual é o motivo de tua inesperada alegria hoje?...
– Minha mãe, eu vos peço perdão; mas é um segredo do meu coração. – Pois bem... eu o respeito.
– E será igualmente um segredo do vosso, o prazer que vos transpira no rosto e que em tudo mais se demonstra em nossa velha casa?...
– Segredo ou não... eu to direi.
– Quando?...
– Mais tarde.
– Bem... esperarei; mas dir-me-eis hoje?
– Sim; depois de cearmos.
– Pois ceemos.
A velha e o moço sentaram-se, e começaram a comer com a melhor vontade.
– Minha mãe, disse Cândido, nunca me senti tão feliz!...
– Nem eu tão alegre, meu filho; bendito seja Deus!...
– Qual de nós terá razão?
– Nós ambos.
Acabado o primeiro prato, a velha encheu os copos, e disse:
– Cândido, bebamos este copo de vinho pela causa do meu prazer e pela tua ventura.
– Oh! sim! minha mãe!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.