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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Há uma hora que falamos em vão, disse Otávio sossegando; é necessário acabar com isto: decide-te.

— Estou decidido, respondeu Félix, não!

— Bem, amanhã haverá de mais dois desgraçados no mundo: de manhã tu serás vergonhosamente expulso da casa de Hugo de Mendonça como um vil ladrão; de tarde mostrarás a minha carta ao povo que me cuspirá no rosto.

E dizendo isto Otávio deu dois passos para a porta.

— Pára, Otávio! exclamou Félix.

— Queres dar-me as letras?...

— E onde está a prova de minha miséria?...

— Trouxe-a comigo.

— Juras-me que, se te casares com Honorina, conseguirás o meu perdão e sepultarás o meu segredo?...

— Juro... pela alma de meu pai.

— Que se não obtiveres a mão dessa infeliz moça, não sacrificarás a fortuna de seu pai?... Otávio pensou um momento.

— E então?

— Não juro, Félix; porque eu precisarei vingar-me! porque eu quererei abaixá-la muito para depois levantá-la.

— Desse modo... repito que não!

— Pois até amanhã, Félix...

Otávio encaminhou-se de novo para a porta.

— Piedade! piedade!... compaixão, Otávio!...

— Queres dar-me as letras?... perguntou o moço voltando o rosto.

— Oh!... tu és muito traidor para ser amigo!...

— Queres dar-me as letras?...

— Otávio!... Otávio!... isto é horrível!...

— Em conclusão?...

— Em conclusão, tu és o demônio!...

Félix saiu do quarto e, dirigindo-se ao escritório, de lá voltou logo com algumas letras em branco; fechou-se de novo por dentro com Otávio, e depois de temerosamente correr os olhos em derredor de si, encheu as letras, as quais foram assinadas por ele como aceitante, na qualidade de administrador da casa e procurador bastante de Hugo de Mendonça. Todas elas deveriam vencerse pouco tempo depois; quando as letras estiveram prontas, Félix as entregou a Otávio, que, somando-as, disse:

— Bem, são quarenta e seis contos de réis.

— E agora, disse Félix abaixando os olhos, o que me pertence?

Otávio, tendo guardado as letras com todo cuidado, tirou do bolso um pequeno embrulho, que deu ao guarda-livros.

Félix arrancou o papel que envolvia aquele objeto, e achou uma pequena boceta forrada de veludo preto.

Abriu a boceta e achou uma cruz cravada de brilhantes.

— É isto mesmo, disse tremendo.

XXVIII

Pai e negociante

Hugo de Mendonça, deixando a bela casinha de Niterói, tinha vindo a instâncias de Lucrécia, morar vizinho dela, nesse bairro alegre e aristocrático chamado da Glória, onde a diplomacia e a riqueza têm, no Rio de Janeiro, assentado o trono de seus prazeres.

A elegante casa ocupada pelo pai de Honorina ergue-se do meio de um jardim, que, desdobrando-se, primeiro faz frente para essa soberba rua sempre trêmula pelo rodar das carruagens, sempre ruidosa pela multidão que por ela vai a caminho; e depois se continua por outra, que, em compensação, sossegada, solitária e melancólica, se termina breve defronte do mar.

Ante a rua orgulhosa e nobre se ostenta magnífico portão de grades de ferro, que se abre em par preso a duas elevadas colunas de pedra, ao mesmo tempo que pela outra, solitária e melancólica, se franqueia o jardim por um pequeno pórtico engraçado e modesto, a cujos lados se levantam dois terraços, cada um dos quais tem no fundo duas portas, que dão entrada a uma saleta de recreio.

Como acima fica dito, no meio desse jardim levanta-se a vistosa casa em que mora o pai de Honorina.

Era um domingo às nove horas da manhã.

Apesar de ser feriado, como era esse dia, o que tinha seguido à horrível noite, em que sobre a vergonha passada de um homem levantava outro homem também sua vergonha, Félix foi cedo procurar a seu amo para dar-lhe a fatal notícia da triste posição de sua casa, da ruína que o esperava: ruína iminente... talvez inevitável.

Ema e Honorina praticavam na sala, enquanto em um gabinete contíguo a esta, Hugo se ocupava em examinar vários papéis e livros comerciais, quando anunciaram Félix.

O negociante escutou, estremecendo o anúncio daquela inesperada visita; e, com o pressentimento de um infortúnio, ordenou que fizessem entrar o mancebo para o gabinete.

Hugo conhecia que seus negócios não se achavam no melhor pé possível: ele tinha herdado de seus pais uma casa forte pelo crédito que merecia, manca, porém, em si mesma pelas grandes dívidas que sobre ela pesavam, e que não podiam ser de pronto satisfeitas; pois que não era lícito ao honrado negociante dispor, para pagá-las, dos bens que cabiam por herança à sua mãe e a Honorina.

O irmão de Hugo, falecido quase ao mesmo tempo que seu pai, havia deixado bens consideráveis; morrendo, porém, sem testamento e tendo um filho único, embora ausente, esses bens não deviam ser empregados em favor dos interesses particulares de Hugo, que, sempre consciencioso e nobre, zelava a herança de Lauro com um respeito religioso.

(continua...)

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