Por Inglês de Sousa (1891)
— Sabe o que isto é, D. Cirila? O Natividade já sabe tudo! Tem ordem para processar-me, e por isso trata-me dessa maneira. E quem é a culpada, D. Cirila? Meta a mão na consciência, senhora, e diga quem é a culpada desta desgraça?
D. Cirila chorava. Nada tinha que opor à evidência daquele presságio funesto. As crioulas, vendo-a chorar, choravam também, ruidosamente. Ouvia-se o voejar sinistro das moscas. Da sala vinha uma luz pálida, do dia que descambava, encoberto de nuvens. As paredes brancas, caiadas de fresco, tomavam de repente colorações sombrias. Pela casa silenciosa perpassava um vento de desgraça. Fonseca estava perdido! Ouviram-se no corredor passos leves de gente descalça.
A porta abriu-se. A rapariga que fora à casa do vereador João Carlos apareceu. Os olhares voltaram-se ansiosos para ela.
— Que disseram? perguntou D. Cirila.
— Que todos estão bons, muito obrigado. Estimam que senhor e senhora estejam bons, e ficam muito agradecidos pela visita. Que seu João Carlos foi para o enterro e levou o chapéu-de-sol do senhor.
— Bonito! uivara o capitão Fonseca, compreendendo a importância daquele novo presságio Pois havia de ir ao enterro sem chapéu-de-sol?
E deixara cair a cabeça, num desânimo.
Mas D. Cirila, assoando-se rapidamente, providenciou, resoluta:
— Negrinha, vai à casa do seu Bernardino Santana. Dize ao seu João Carlos que teu senhor está à espera do chapéu-de-sol para ir ao enterro.
E aí estava a razão por que o grave capitão Mendes da Fonseca caminhava azafamado e esbaforido.
O enterro do Totônio Bernardino estava marcado para as quatro horas.
Era a primeira vez, depois que regressara da missão à Mundurucânia, que o sacristão Macário tinha ocasião de praticar um ato de ofício, pois que até ali, as suas ocupações se haviam resumido em tratar da igreja que o bêbado do José do Lago deixara ficar numa miséria.
O enterro se faria sem padre, mas o sacristão levaria a cruz alçada e a caldeirinha, e a irmandade do Santíssimo Sacramento, a que pertencia o Bernardino Santana, o acompanharia de balandrau e tocha. Macário procurava suprir, como lhe era possível, a falta do senhor vigário.
Tendo dado todas as providências necessárias, Macário aguardava a hora marcada para o saimento. E, bem penteado, de paletó de alpaca, de botas de rangedeiras, camisa engomada, nodoada de anil, passeava sobre os modestos tijolos da igreja a impaciência de entrar em funções, unida ao intenso contentamento de ver-se restituído à sua querida vidinha de sacristão repousado e decente, agora glorificado pela parte que tomara na heróica, embora infeliz, empresa de padre Antônio de Morais.
Não fora sem susto que Macário chegara àquele resultado admirável, excedente de toda a expectativa na sua pobre mas muito acidentada existência. Tivera muito que padecer, sofrera o que não contara sofrer, comera o pão que o diabo amassara. Mas agora satisfeito e risonho, fazendo horas, sentia prazer em recordar as peripécias daquela viagem extraordinária, em que se vira tantas vezes no meio dos maiores perigos, próximo da morte, sem que jamais tivesse desesperado do auxílio de Nossa Senhora do Carmo, nem perdido a confiança no maquiavelismo com que o dotara a pródiga natureza.
O dia estava claro, a vila tranqüila. O José do Lago já tocara no sino grande os primeiros dobres de finados, melancólicos e graves.
Era aquela mesma a sua Silves querida, aquela a casa do vigário, asseada e branca. Lá nos fundos ficava o quintal onde a Luísa Madeirense cantarolava a Maria Cachucha. Não havia dúvida alguma. Macário escapara aos mundurucus, e ali estava são e salvo, certo de que não cairia noutra. Entretanto, por mais de uma vez vira o caldo entornado, principalmente quando, sentado à margem do rio sobre um tronco verde, avistara os dois índios de terçado em punho, avançando para os brancos descuidados, com grande barulho de mato derribado! Oh! nunca pensara o sacristão de Silves ter tão boas pernas para correr! Se lho tivessem dito antes, não se acreditaria capaz de galgar em tão pouco tempo o espaço que o separava do porto, de cortar com tanta segurança a corda que prendia a montaria à terra, de saltar para dentro dela com tamanha agilidade, impelindo-a para o largo com tão extraordinária força. O terror dera-lhe força, agilidade e talento, um talento excepcional, que lhe aguçara o maquiavelismo naquelas apertadas conjunturas. Ah! fora só depois de atravessar o rio Mamiá, ajudado pela corrente favorável do Canumã, que Macário se julgara livre dos malditos índios, e começara a alimentar a doce convicção de que se poderia salvar escorreito e são daquela insensata empresa de padre Antônio, de quem se lembrou então com algum remorso de o ter abandonado sozinho, sem recursos para fugir ou defender-se da sanha dos tapuias. Mas ainda agora, que já o medo lhe não podia obscurecer o juízo, o sacristão reconhecia que aquele remorso não tinha razão de ser. Fizera o mesmo que outro qualquer faria. A sua filosofia prática resumia-se na frase que repetia complacentemente:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.