Por Aluísio Azevedo (1884)
— Amélia não tinha nada quer ver com isso!...A sua questão resumia-se no seguinte: “Dera-se a um homem, porque o amava e porque se supunha amada por ele; esse homem a possuiu como bem quis, gozou-a como muito bem entendeu, e, um belo dia, talvez por já estar farto, resolvia meter-lhe os pés e pôr-se ao fresco!...” Boas! Não havia de ser com ela! Amâncio que não caísse em semelhante asneira, porque então veria o bom e o bonito! Quem o afiançava era “a Amelinha dos camarões”!
— Mas, filha, que queres tu que eu faça?...Bem vês que esta viagem ao Norte é inevitável!
— Pois então vamos juntos...Casa-te primeiro comigo!
A idéia foi tão intempestiva que o estudante respondeu com uma gargalhada. Mas o demônio da rapariga, tornando às boas de repente, saltou-lhe ao pescoço e disse-lhe, entre beijos:
— E por que não?...Por que não te casa logo comigo, meu amor?...
— Porque era impossível!...explicava ele. “Casar não é casaca” Era muito cedo para cuidar nisso!...Primeiro tinha de formar-se, praticar algum tempo em Paris, e depois então...sim senhor, não dizia o contrário e havia de ser o mais empenhado em que a coisa se realizasse! Mas por ora...”Deus nos acuda!” era até loucura pensar em semelhante história!...
Amélia fez-se logo de mau humor; vieram os remoques e o s reviretes do costume, houve palavras duras de parte a parte e, afinal, como estabelecido imposto de reconciliação, ficou assentado que Amâncio arranjaria mobília nova para o chalezinho das Laranjeiras.
E o rapaz lá foi comprar os trastes.
Dois dias depois, realizava-se a terceira mudança. O Dr. Tavares, o último hóspede da famigerada Mme. Brizard, pagou a sua última conta e recebeu da francesa um abraço de despedida.
— Ah! suspirou elas. — Até que enfim se podia descansar um pouco! Já não era sem tempo!
O chalezinho de Amélia ficou muito catita; parecia um ninho de noivos. Estava a pedir lua-de-mel!
A cachorra da pequena tinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos, cortinas de chita indiana para a sala de jantar, cortinas de renda para a salas de visitas; quis moldura dourada nos quadros, estatuetas pelas paredes; não dispensou nos aparadores e nos consolos jarras de porcelana das mais à moda; jardineiras aqui e ali, vasos caprichosos com begônias e tinhorões sobre a mesa de jantar; cestinhas artísticas, com para sitas, para dependurar nas janelas; e ainda fez substituir na cozinha, nos arranjos da comida e no arranjo dos quartos, tudo aquilo que lhe parecia em condições de reformas.
E só com essas coisas e só com a satisfação de tanta exigência é que Amâncio conseguia paliar as revoltas da amante. O desgraçado já não tinha ânimo de contrariá-la, porque bem conhecia o preço das rezingas e, sem achar meio de reagir, via claramente que as reconciliações se tornavam mais caras de dia para dia.
* * *
Entretanto, depois da mudança, o amor dos dois tomou um caráter mais digno e decente. Já não era necessário que a rapariga andasse à noite em ponta de pés pela casa, tateando a escuridão para ir ter com o seu homem. agora dormiam à vontade, com as portas bem fechadas por dentro.
E só se despregavam do lado um do outro, quando tinham que abandonar o quarto. Então, cada um se servia da porta competente: Amélia tomava a da varanda e Amâncio a da sala de visitas!
Não podiam desejar melhor!
Melhor, bem certo para o descanso do corpo e repouso do espírito; não, porém, para garantia do amor, essa estranha função psicológica que só alimenta asa suas raízes nos sobressaltos e no perigo. Tamanha segurança e tamanha liberdade de ação deviam fatalmente levantar a pontas do tédio, cujo novelo existe, mais ou menos escondido, no fundo de todas as coisas.
Não vinha longe a saciedade; Amâncio já lhe ouvia o bocejar. Iam-se-lhe pouco a pouco amornecendo os primitivos arrebatamentos do desejo; os dois tinham-se já frouxamente, sem lumes de entusiasmo, sem os esforçadores auxílios da imaginação. Assuntos práticos, positivos, agora se lhes intercalavam nas carícias, puxando-os grosseiramente à calma realidade da vida.
Amelinha já lhe não surgia no quarto com aquele trêfego ruçar-se de pomba assustada, o que lhe enchia as feições e os movimentos de uma graça tão maliciosa e provocadora; agora se apresentava com um ar muito tranqüilo, de casada, a arrastar os chinelos, o roupão desabotoado e solto, num farto abandono de alcova.
Despia-se defronte de Amâncio, coçando negligentemente as partes do corpo que estiveram comprimidas durante o dia, como a cinta, o lugar das ligas e dos canos das botinas. Despenteava-se ali mesmo, alado da cama do rapaz, sacudindo o cabelo com ambas as mãos, num movimento de braços erguidos que lhe mostrava a grenha das axilas; ele, também, parecia não dar por isso, eras todo do livro que lia à luz de uma vela pousada no criado-mudo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.