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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Compreendeis, meus caros e bons companheiros de passeio, que uma igreja, ainda mesmo pequena como é a de S. Pedro, não se pode levantar em um dia. Enquanto, pois, o arquiteto dirige a obra que planejou, os pedreiros levantam as paredes, os entalhadores preparam os ornamentos com que a sua arte deve enriquecer e embelezar os altares, procuremos nós tomarmos conhecimento com essa nova e muito veneranda personagem que acabei de apresentar-vos como fervente protetor da irmandade dos clérigos de S. Pedro.

É um bispo, é frei Antônio de Guadalupe.

Deveras que seria imperdoável não saudarmos com respeito e gratidão este bispo venerando e prestimoso.

Fá-lo-emos, pois, recordando alguns dos seus grandes serviços. Deixai-me, porém, descansar alguns momentos.

II

A 27 de setembro de 1672, nasceu na vila de Amarante, no reino de Portugal, aquele que devia ser, cinqüenta e três anos depois, o quinto bispo do Rio de Janeiro.

D. frei Antônio de Guadalupe, filho do desembargador Jerônimo de Sá da Cunha e de D. Maria Cerqueira, ambos de nobre estirpe, foi destinado a seguir a brilhante carreira de seu pai; e depois de tomar o grau de bacharel em ciências canônicas na Universidade de Coimbra, e de passar em seguida pelas necessárias provas no desembargo do paço em Lisboa, foi escolhido para exercer o cargo de juiz de fora do cível na vila Trancoso.

O jovem magistrado reconheceu em breve ou que não entendia bem as leis dos homens, ou que certos homens as não queriam entender como ele. Acreditou que a justiça devia ser igual para todos e que os privilégios da nobreza não deviam ter tanta força que entortassem as leis em seu benefício; e teve, em conseqüência, de sofrer viva oposição dos privilegiados de Trancoso, até que, aborrecido de pesar direitos na balança de Astréia, convenceu-se de que somente podia ter fé na balança de S. Miguel.

O direito torto dos grandes da terra espantou o jovem magistrado, que se resolveu a ir caridoso rezar por esses opressores e por todos os descendentes de Adão e Eva, e transformou-se de juiz em frade, recolhendo-se à clausura da observância de S. Francisco, em Lisboa.

E foi um frade exemplar, como tinha sido um magistrado imparcial e reto.

Frei Antônio de Guadalupe era já muito vantajosamente conhecido como orador sagrado eloqüente e consciencioso, quando el-rei D. João V o nomeou para a mitra fluminense aos 25 de novembro de 1723, sendo esta nomeação confirmada pelo papa Benedito XIII, em 20 de fevereiro de 1725, e a 13 de maio seguinte sagrado o novo bispo, que tomou posse, por seu procurador, em 2 de agosto do mesmo ano.

De novembro de 1723 ao ano de 1725 não perdeu D. frei Antônio de Guadalupe o seu tempo. Procurou antes aproveitá-lo esmeradamente. E quereis saber como?

Admirai a pobreza de espírito deste ilustrado religioso.

D. frei Antônio de Guadalupe, formado em ciências canônicas, considerado como um clérigo sábio, célebre pelos seus triunfos no púlpito, notável pelos profundos conhecimentos que tinha bebido nos livros em vinte e dois anos de estudo e de meditação no plácido retiro do claustro, D. frei Antônio de Guadalupe, que era velho e mestre, apenas teve conhecimento da sua nomeação para chefe da igreja fluminense, partiu para Braga, onde foi ouvir e aprender os ditames do pastoral ofício com o arcebispo primaz das Espanhas, D. Rodrigo de Moura Teles, exemplar dos prelados.

Ou esse ato de D. frei Antônio de Guadalupe foi uma pasmosa puerilidade, ou os tempos estão muito mudados.

Por que não se improvisavam então, como hoje se improvisam, sábios e beneméritos? Que se observa hoje? Vejamos.

Sai um mocetão da academia de S. Paulo ou de Pernambuco, formado em Direito, e, se é nhonhô, isto é, se é filho, sobrinho ou parente chegado de algum senhor velho, de algum membro daquela classe de privilegiados que atiraram D. frei Antônio de Guadalupe da magistratura para o convento – se é nhonhô, disse, encarta-se logo na presidência de alguma província. Da presidência da província, salta para a câmara temporária, da câmara temporária pula para o ministério. Uma questão de três pulos dados em alguns meses; e em duas palhetadas e meia, o nhonhô, que não foi ouvir as lições de nenhum mestre, que não teve noviciado, nem tempo para ler mais do que os prólogos de alguns livros, é declarado estadista de fama e salvador da pátria!

Como diabo se arranja esta magicatura?

Eu só lhe acho uma explicação.

Vivemos no século do vapor, e atualmente tudo se faz a vapor, até mesmo os estadistas e os salvadores da pátria.

E é também por isso que o Brasil vai a vapor. Para onde? Não sei. Só Deus o sabe.

Em D. frei Antônio de Guadalupe teve o bispado do Rio de Janeiro um dos seus mais zelosos e beneméritos pastores.

(continua...)

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