Por José de Alencar (1875)
D. Genoveva, a-pesar-de habituada a estas sortidas, afligira-se com aquela partida tão precipitada. A ausência do Campelo naquela ocasião a assustava: nem ela sabia por qual motivo. Entretanto não se animando a opor-se diretamente à resolução do marido, incumbiu a D. Flor dessa difícil missão.
A donzela exercia no ânimo do pai decidida influência, e isso provinha do dom que ela tinha de identificar-se com a sua vontade, de modo que cedendo-lhe, pensava o capitão-mór que cedia a si mesmo.
D. Flor não usou de nenhuma das razões em que a mãe insistira; não empregou argumento de família. Abundou no sentimento do pai; mas confessou-lhe que admirava-se de sua partida.
— Por quê?
— É dar muita importância a um vilão. Basta que mande buscá-lo por uma escolta. Que não dirão quando souberem que o capitão-mór Campelo abalou-se de sua fazenda para prender um bandoleiro?
— Pois mandarei o Agrela.
— Isto sim.
Nesta conformidade, deu o capitão-mór suas ordens; e o ajudante preparou-se para sair naquela mesma hora com uma escolta de cincoente homens.
Arnaldo chegava nesse momento, e a primeira vez que viu Águeda, experimentou uma sensação estranha, que se poderia chamar de acerba admiração. A esplêndida beleza dessa mulher, que o arrebatava a seu pesar, fazia-lhe mal, como se o fulgor que dela irradiava lhe queimasse a alma.
Quando o sertanejo soube da próxima partida do Agrela, ficou preocupado. Podia o ajudante demorar-se na expedição, e nesse tempo voltar o Fragoso de Inhamuns.
Antes demeio-dia partiu a escolta. Já iaa na várzea, quando saíu-lhe ao encontro Arnaldo que aproximou do cavalo de Agrela o seu.
— Preciso falar-lhe, sr. ajudante.
— Da parte do sr. capitão-mór? perguntou Agrela secamente.
— Da minha.
— Que negócio pode haver entre nós? tornou o ajudante surpreso.
— O serviço dos donos da Oiticica, respondeu Arnaldo com o tom firme.
Agrela inclinou a cabeça com um sinal adesivo e demorou o cavalo, acenando à escolta que passasse adiante. Quando se acharam sós, voltou-se para o sertanejo.
— O que há?
— O sr. Agrela não me gosta; não sei a razão, nem a pergunto. Eu por mim não lhe quero mal, e espero que ainda havemos de ser amigos.
O ajudante comoveu-se com essa linguagem singela e nobre:
— Estimarei que assim aconteça.
— Mas não se trata de nós agora. A Oiticica vai ser atacada.
— Por quem? perguntou o ajudante surpreso.
— Pelo Marcos Fragoso.
— Como sabe?
— Sei; é quanto basta.
— Já avisou ao sr. capitão-mór?
— Não; e enm o avisarei.
— Por quê?
— Talvez me engane. Demais êsse Fragoiso é meu inimigo, e não posso denunciá-lo.
Agrela era homem para compreender semelhante suscetibilidade.
— Que devo eu fazer então? perguntou ao sertanejo.
— Voltar quanto antes.
— Conte comigo.
Os dois mancebos despediram-se. Eram duas almas nobres que sentiam-se atraídas pela estima recíproca; mas os acontecimentos as tinham separado, lançado entre elas um gérme de desconfiança.
Apartando-se do ajudante, Arnaldo esteve algum tempo a refletir, e encaminhou-se para a gruta.
— Um de nós deve partir.
— Para onde? perguntou Jó.
— Para a taba dos Jucás.
— Dá-me a seta.
XIV – A trama
Três dias tinham decorrido depois da partida de Agrela para a Barbalha.
Águeda insinuara-se por tal modo na afeição de D. Flor, que esta não a deixava, nem fartava-se de sua conversação agradável e sedutora. Alina tinha ciúmes dessa preferência e afastavase queixosa e arrufada. Assim passavam as duas a maior parte do dia a sós.
De seu lado também Arnaldo observava com inquietação e desgôsto essa intimidade de D. Flor com a viúva.
A beleza de Águeda continuava a produzir no mancebo a mesma acre sensação: êle não podia perdoar a esta mulher o encanto e sedução com que à primeira vista ofuscava a lindeza de D. Flor.
Quando as contemplava juntas, êle reconhecia que a formosura da donzela era uma flor do céu, pura e imaculada, respirando a fragância de sua alma angélica. O brilho dos grandes olhos pardos tinha a limpidez do rútilo das estrêlas; o sorriso dos lábios de nácar abria-se como um doce arrebol da manhã; e as faces assetinavam-se como as nuvens brancas ao de leve rosadas pelo crepúsculo da tarde.
Mas no semblante, e no talhe da viúva, ressumbrava um fulgor vivo e intenso, que deslumbrava. Essa mulher não tinha a suprema correção e delizadeza de traços que distinguia o perfil de D. Flor; não possuia a elegância casta, graciosa e senhoril que vestia a donzela de uma gentileza de rainha; porém sua beleza exercia sôbre os sentidos uma poderosa fascinação.
Essa influência, que êle sofria a seu pesar, o irritava contra aquela mulher; e às vezes admirando-a, vinham-lhe ímpetos de aniquilar os encantos, que, se não a tornavam mais formosa do que D. Flor, davam-lhe provocações que esta não tinha.
Não era esta, porém, a preocupação única de Arnaldo acêrca de Águeda.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.