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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Tendes a língua um pouco longa, amigo. Mas Belzebu vos fará as contas, que não eu: perderia a minha alma se tocasse o corpo de endemoninhados! 

— Por São João Batista, meu patrão, não me façais saltar esta estacada para perguntar-vos a razão por que tratais em ar de mofa a devoção dos mais. Chamai-nos rebeldes, mas hereges não. 

— E como quereis então que chame os companheiros de um frade sacrílego, maldito, que abjurou dos seus votos, e atirou o seu hábito as urtigas? 

— Um frade! Dissestes vós? 

— Sim, um frade. Não o sabíeis? 

— O quê? De que frade falais vós? 

— Do italiano, bofé! 

— Ele!... 

O homem, que não era outro senão o nosso antigo conhecido mestre Nunes, contou então, exagerando com o fervor de seus sentimentos religiosos, aquilo que sabia da história de Loredano. 

O aventureiro horrorizado, tremendo de raiva, não deixou mestre Nunes acabar a sua história e lançou-se para o alpendre, onde viu-se a ameaça que fez ao italiano. 

Quando eles se separaram, Peri saltou por cima da estacada, e dirigiu-se para o quarto que há pouco tinha deixado. 

O dia vinha então rompendo; os primeiros raios do sol iluminavam já o campo dos Aimorés, assentado sobre a várzea à margem do rio. Os selvagens irritados olhavam de longe a casa, fazendo gestos de raiva por não poderem vencer a barreira de pedra que defendia o inimigo. 

Peri olhou um momento aqueles homens de estatura gigantesca, de aspecto horrível, aqueles duzentos guerreiros de força prodigiosa, ferozes como tigres. 

O índio murmurou: 

— Hoje cairão todos como a árvore da floresta, para não se erguerem mais. 

Sentou-se no vão da janela, e encostando a cabeça sobre a curva do braço, começou a refletir. 

A obra gigantesca que empreendera, obra que parecia exceder todo o poder do homem, estava prestes a realizar-se; já tinha levado ao cabo metade dela, faltava a conclusão, a parte a mais difícil e a mais delicada. 

Antes de lançar-se, Peri queria prever tudo; fixar bem no seu espírito as menores circunstâncias; traçar a sua linha invariável a fim de marchar firme, direito, infalível ao alvo a que visava; a fim de que a menor hesitação não pusesse em risco o efeito do seu plano. Seu espírito percorreu em alguns segundos um mundo de pensamentos; guiado pelo seu instinto maravilhoso e pelo seu nobre coração, formulou num rápido instante um grande e terrível drama, do qual devia ser o herói; drama sublime de heroísmo e dedicação, que para ele era apenas o cumprimento de um dever e a satisfação de um desejo. 

As almas grandes têm esse privilégio; suas ações, que nos outros inspiram a admiração, se aniquilam em face dessa nobreza inata do coração superior, para o qual tudo é natural e possível 

Quando Peri ergueu a cabeça, estava radiante de felicidade e orgulho; felicidade por salvar sua senhora; orgulho pela consciência de que ele só bastava para fazer o que cinqüenta homens não fariam; o que o próprio pai, o amante, não conseguiriam nunca. 

Não duvidava mais do resultado: via nos acontecimentos futuros como no espaço que se estendia diante dele, e no qual nem um objeto escapava ao seu olhar límpido; tanto quanto é possível ao homem, ele tinha a certeza e a convicção de que Cecília estava salva. 

Cobriu o peito e as costas com uma pele de cobra que ligou estreitamente ao corpo; vestiu por cima o seu saiote de algodão; experimentou os músculos dos braços e das pernas; e sentindo-se forte, ágil e flexível, saiu inerme.  

XII 

DESOBEDIÊNCIA 

 

Álvaro, recostado da parte de fora a uma das janelas da casa, pensava em Isabel. 

Sua alma lutava ainda, mas já sem força, contra o amor ardente e profundo que o dominava; procurava iludir-se, mas a sua razão não o permitia. 

Conhecia que amava Isabel, e que a amava como nunca tinha amado Cecília; a afeição calma e serena de outrora fora substituída pela paixão abrasadora. 

Seu nobre coração revoltava-se contra essa verdade; mas a vontade era impotente contra o amor; não podia mais arrancá-lo do seu seio; não o desejava mesmo. 

Álvaro sofria; o que dissera na véspera a Isabel era realmente o que sentia; não se exagerara; no dia em que deixasse de amar Cecília e fosse infiel à promessa feita a D. Antônio, se condenaria como um homem sem honra e sem lealdade. 

Consolava-o a idéia de que a situação em que se achavam não podia durar muito; pouco tardava que exaustos, enfraquecidos, sucumbissem à força dos inimigos que os atacavam. 

Então nos momentos extremos, à borda do túmulo, quando a morte o tivesse já desligado da terra, poderia com o último suspiro balbuciar a primeira palavra do seu amor: poderia confessar a Isabel que a amava. 

Até então lutaria. 

Nisto Peri chegou-se e tocou-lhe no ombro: 

— Peri parte. 

— Para onde? 

— Para longe. 

— Que vais fazer? 

O índio hesitou: 

— Procurar socorro. 

Álvaro sorriu-se com incredulidade. 

— Tu duvidas? 

— De ti não, mas do socorro. 

— Escuta; se Peri não voltar, tu farás enterrar as suas armas. 

— Podes ir tranqüilo: eu te prometo. 

— Outra coisa. 

— O que é? 

O índio hesitou de novo: 

(continua...)

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