Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Ao lado esquerdo, e dominando o caramanchão, estava uma pequena janela do sótão do “Purgatório-trigueiro”.
Celina era uma dessas jovens de imaginação viva e ardente, que a natureza cria como para serem estrelas do céu dos poetas. Essa viveza, esse ardor de imaginação transpirava em tudo...
Aquele sonho do botão de rosa... aquele coração que se escondia em um envoltório tão inocente e tão puro... aquele amor começado por uma oração; aqueles laços que se tinham apertado aos olhos de Deus e à face de um túmulo; aquela história que ela mesma escrevera em uma hora de feliz melancolia, tudo enfim demonstrava que na alma dessa moça havia o quer que seja de poesia, de amor do belo, de modo de ver de artista.
Mas se essa viveza, se esse ardor de imaginação era ainda um encanto de mais na “Bela Órfã”, encanto que a tornava dobradamente encantadora, era ao mesmo tempo uma lente mágica que agigantava seus infortúnios e seus pesares.
A imaginação faz do poeta o mais feliz e ao mesmo tempo o mais desgraçado dos homens; porque na fruição de prazeres e no sofrimento dos desgostos o poeta goza mais do que há, e sofre o dobro do que em realidade existe.
Celina achava-se neste caso.
E ela nessa tarde, como em todas as dos últimos dias, estava sentada no banco de relva do caramanchão meditando tristemente, quando a passos vagarosos e com semblante prazenteiro se aproximou do lugar onde se achava a moça o velho guarda-portão.
Celina olhou para ele com doçura, e quase com esperança. Aquele homem de ordinário acertava de lhe falar sobre o jovem do “Purgatório-trigueiro”.
– Sempre triste!... disse o velho.
– Pois então... murmurou a moça, devo acaso estar alegre?..
– Digo que não há razão... para tão longas melancolias.
– Quando talvez julgam mal de mim... disse corando a “Bela Órfã”.
– Ele já conhece toda a verdade.
– Quem lha expôs?...
– Não fui eu.
– Mas quem foi?...
– Senhora, abusaram de um segredo... roubaram-lhe uns papéis... uma história de amor...
– Meu Deus!...
– Nessa história do seu amor a sua justificação estava completa...
– E então...
– Aquele que lha roubou levou-a ao “Purgatório-trigueiro”, e entregou-a ao sr. Cândido...
– Oh!...
– Ele portanto não pode mais julgá-la ingrata e má: a sua história contou-lhe tudo.
A “Bela Órfã” levantou a cabeça, e com o rosto todo rubor de vergonha, exclamou ajuntando as mãos:
– Porém de hoje em diante julgar-me-á leviana... sem nobreza de sentimentos... sem modéstia... talvez mesmo sem este pudor que agora me está queimando o rosto!
– Não, não, respondeu o velho; o sr. Cândido também sabe que se pode furtar papéis.
– Como?...
– Depois que ele acabou de ler a sua história escreveu quase toda a noite, e adormeceu sobre a mesa onde escrevia. A tempestade desta manhã o despertou, e quando o pobre moço foi pôr em ordem os seus papéis, achou de menos um...
– Qual?
– O que ele tinha escrito depois de ler a sua história.
– E quem o furtou?...
– A velha Irias, senhora.
– Oh! mas com que fim?...
– Para pagar-me o trabalho de lhe haver furtado a sua história.
– Ah! Sr. Rodrigues...
– Nada de repreensões! disse o velho interrompendo Celina; a senhora e aquele mancebo são meus filhos... eu amo a ambos, e quero que ambos se amem.
A voz do velho Rodrigues teve naquele momento um não sei quê de tão doce e tão solene, que a “Bela Órfã” abaixou a cabeça e ficou em silêncio por algum tempo.
Finalmente, não se achando com ânimo de repreender o guarda-portão, Celina contentou-se com dizer em voz muito baixa:
– Mas agora... a minha história... eu a quero.
– Eis o que pude obter... disse o velho tirando uma folha de papel do bolso, e entregando-a a Celina.
A moça recebeu automaticamente o que lhe dava Rodrigues, e viu que logo depois o bom velho se retirava como chegara, com passos vagarosos, mas com semblante sossegado e prazenteiro.
– Os meus papéis!... a minha história!... exclamou Celina logo que se viu só.
E abrindo o que lhe deixara o velho Rodrigues, de repente soltou um pequeno e abafado grito de admiração.
Ficou muito tempo hesitando. Corou e empalideceu, e hesitou de novo muito tempo; mas, finalmente, leu.
A imaginação ardente de Cândido tinha produzido um canto arrebatado e cheio de fogo. A história do amor da “Bela Órfã” havia arrancado o coração do mancebo do abismo de profunda tristeza onde arquejava, e feito raiar em sua alma o belo sol da esperança com esses raios puros e brilhantes, mercê dos quais a vida do homem parece nadar em mar de luz, de magia, e de supremos gozos.
Os entes privilegiados em quem a natureza acendeu essa chama sagrada, a que se dá o nome de poesia, amam, cultivam o objeto de seus amores, aborrecem, e demonstram o seu aborrecimento de um modo especial, de um modo que é só deles e de seus irmãos no engenho. Os artistas e os poetas amam e vingam-se como nenhuns outros no mundo. Amam e vingam-se com a pena, com o pincel, no papel e no mármore... imortalizam seu amor e sua vingança.
Às vezes uma hora de fogo para esses homens é mais profícua do que um século para os outros.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.