Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Podes, podes muito: eu exijo, e já disse uma vez, eu imponho! Tu ficaste, há perto de um ano, administrando, com plenos poderes, a casa de Hugo de Mendonça; eu sei que o velho e falecido Raul de Mendonça havia entrado em empresas arriscadas... tinha parte muito notável no contrabando de africanos; não podias tu, depois da morte deste, e na ausência de Hugo, entreter ainda as mesmas negociações?... para entretê-las não te era preciso contrair empréstimos?... e não seria, enfim, muito possível ser infeliz e perder tudo?... Félix, eu sei ainda que a casa de Hugo teve prejuízos e estremeceu...tenho a certeza de que estremece ainda... pois bem! passa-me letras...
Otávio, como para ver-se livre de um peso enorme, continuou, dizendo depressa: — Passa-me letras de grande valor... na importância de quarenta a cinqüenta contos de réis... escreve-as com datas atrasadas, que seu vencimento tenha lugar agora... e Hugo de Mendonça estará perdido para sempre, ou dar-me-á sua filha em casamento.
— E hei de assim, Otávio, pagar a meu benfeitor a dívida imensa em que lhe estou?... — Oh! não... não haverá nada: assustá-lo-ei apenas; se me der sua filha, no dia das núpcias declararei o nosso crime e obterei o seu perdão.
— Ele sacrificará primeiro todos os seus bens para pagar-te...
— O Sr. Hugo de Mendonça é muito honrado para querer pagar-me com a herança de seu sobrinho, de sua mãe e de sua filha.
— Mas tem a sua.
— Insuficiente.
— Lançar-me-á a pontapés para longe de sua casa...
— E eu te receberei na minha.
— Desonrado!...
— Tu te saberás defender: o contrabando, em que se achava empenhada a casa de Hugo, enriquece e empobrece com a rapidez do raio.
— O Sr. Hugo de Mendonça, quando deixou-me administrando sua casa, ordenou-me que pusesse termo a todas as negociações da Costa d’África, Otávio.
— Sim; mas poderiam haver antigos comprometimentos... e em tal caso...
— E como?... como explicar essa perda enorme?
— Félix, tudo nos auxilia; o velho Raul de Mendonça e meu pai eram sócios em semelhantes empresas; mortos ambos quase ao mesmo tempo, não é inverossímil que ficassem ajustes, obrigações que prendessem ambas as casas; sabes que a fortuna me tem sido terrivelmente contrária nestes dois últimos meses; pois, bem... explica as tuas perdas pelas minhas... éramos sócios... ninguém virá dizer que não, porque eu tenho negociado só por minha conta; e, portanto, éramos sócios... e tu não fizeste mais do que cumprir antigas e inevitáveis obrigações... que, enfim, nós podemos documentar agora em dez minutos.
— Não! não!
— Félix, eu te escrevi uma carta, que poderás atirar-me ao rosto, se eu faltar ao que prometo!
— É uma infâmia...
— Que se lavará depressa.
— Sim, porque tu te desculparás com a paixão que te cega.
— E tu com o direito que eu tinha de te impor condições...
— Será dizer ao mundo que eu tenho sido infame toda a minha vida...
— Não; eu alcançarei o teu perdão e sepultarei o teu segredo.
— Mas não me livrarás de corar sempre diante de uma família inteira!
— É um sacrifício, Félix, eu o sei; porém, tu mo deves...
— Este não... é enorme!...
— É que tu ainda não pensaste que me não podes negar nada!...
— Otávio!...
— Que um homem, que tendo sido como eu, honrado em toda a sua vida, que não teve nela ainda uma só mancha, e chega a ponto de vir envergonhar-se a teus olhos, não hesitará um só instante em lançar mão dos últimos meios!
— Otávio!...
— Que um homem que ama, como eu amo, não conhece barreiras, não respeita nada... não se pode lembrar nem dos outros, nem de si!...
— Otávio!
— É que tu ainda não pensaste que eu estou dando o derradeiro passo! e que me agarro à última tábua! que acredito que tu podes ser o instrumento de minha ventura; e que se a isso te negares, eu posso, e hei de vingar-me!
— Mas é que tu não pensaste também, Otávio, que a minha queda trará após si a tua; porque tu me escreveste uma carta que te desonra!
— Embora! embora! eu pensei em tudo isso, e em mais ainda; porém, já te disse mil vezes, Félix: quem ama não respeita o mundo, não se lembra da virtude, está louco e perdido, e só pode salvar-se com a posse daquela que adora!
— Insensato!
— Eu pensei até na possibilidade de um outro crime, Félix! eu pensei que tu podias tentar arrancar de minhas mãos a prova de tua desgraça; e sabes o que fiz?... vim armado... para defender-me!... para salvar a minha esperança!...
— E para talvez matar-me, não é assim?
— Não! matar-te não; porque eu preciso da tua vida Félix, tu és a carta que eu jogo; a carta, mercê da qual devo ganhar a partida.
— Otávio, eu me espanto da tua audácia!...
— Admira antes o amor desesperado que eu tenho!...
— O que tu intentas, Otávio, chama-se roubo!
O rosto do mancebo tornou-se rubro de cólera e vergonha. Não podendo suster-se no primeiro momento, agarrou e sacudiu com força o braço de Félix e exclamou:
— Desgraçado! e és tu que falas em roubo?!
Félix, como fulminado por um raio, caiu sobre a cadeira de braços, da qual há um instante se tinha erguido.
Onze horas soaram então.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.