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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

— Negrinha, providenciou pela terceira vez D. Cirila, vai à casa do Dr. Natividade. Dize que teu senhor manda fazer uma visita e saber como ele tem passado. Nós estamos bons, muito obrigado. Dize que teu senhor mandou pedir o favor de lhe remeter o chapéu-de-sol que lhe emprestou no domingo passado para o passeio com seu professor Aníbal na outra banda. Já ouviste?

— Já, sim, senhora, respondeu a negrinha. E saiu a correr.

— Estou bem aviado! gemeu o Fonseca. Primeiro que qualquer desses demônios volte, já o pobre do Totônio Bernardino está farto da sepultura.

— Também é bem feito! acrescentou, dando um murro no espaldar da cadeira. Quem me manda emprestar tudo quanto tenho?

O tempo passava. Fonseca consultava o relógio e ficava cada vez mais zangado. Tudo agora lhe corria mal. Parecia que uma caipora atroz o perseguia. Malditos castanhais! Fora depois daquele estúpido passeio que a sua sina mudara! Visse ali a senhora D. Cirila, naquela série de infelicidades, as conseqüências da sua teima em passar o S. João nas praias!

D. Cirila parecia não esperar por aquela acusação. Estava nessa ocasião espiando o vão entre a cômoda e a parede, porque talvez lá tivesse caído o chapéude-sol. Voltou-se muito desapontada para o marido:

— O Manduca! Pois eu tenho culpa de você ter emprestado o chapéu-de-sol!

Tinha, sim, embora indireta. Fonseca contendo a custo o rancor que havia dias alimentava contra a mulher, explicara longamente a teoria do caiporismo, em virtude da qual todos os males do presente se originavam da infeliz lembrança que tivera D. Cirila de passar o S. João nas praias. Acusou a mulher de ser a causadora das intrigas de José Antônio Pereira e da desgraça iminente sobre a cabeça do marido. Mostrou que tudo neste mundo filiava-se a causas certas, embora parecessem sem importância. Que a desgraça era sempre uma conseqüência do erro e do pecado. D. Cirila fizera como Eva. Incitara o marido a comer o fruto proibido, e ele agora, como Adão, teria de ser expulso do paraíso, vergonhosamente. Demonstrou claramente que o fruto proibido eram os castanhais que o vigário lhes proibira num sermão eloqüente e enérgico, e o paraíso que tinham de deixar era a coletoria porque talvez muito breve o Pereira, José Antônio Pereira, seria nomeado coletor das rendas gerais e provinciais de Silves! E tudo isto por quê? Por culpa de D. Cirila, estava claro.

A mulher tentava interrompê-lo, mas na confusão da consciência culpada só conseguia colocar algumas exclamações: ah! Manduca, oh! Manduca! Não diga isso!

— Digo, sim, senhora, continuava Fonseca, implacável, desabafando por fim. E desdobrava ante os olhos atônitos e já lacrimosos da mulher o quadro negro da sua desgraça futura. A vingança do cônego Marcelino, a demissão, o retraimento do Elias, o processo, a falência, o desprestígio, o abandono, o isolamento, a miséria, a necessidade de competir com o Costa e Silva, o desrespeito dos inimigos e o risinho amarelo do Valadão, do João Carlos e do Natividade.

E pior que tudo isso, o José Antônio Pereira, aquele lagalhé que o Fonseca tirara da lama das estradas, repimpado na cadeira de coletor, imparia de bazófia sorrindo nos dentes podres, adulado, festejado, elevado a altura duma personagem!

D. Cirila abrira uma gaveta da cômoda e tirara um lencinho branco para enxugar os olhos, quando à porta apareceu a rapariga que fora à casa do Valadão. A diversão não podia vir mais a propósito para a mulher culpada.

— Então, que disseram lá? perguntou sofregamente à mensageira.

— A filha do seu tenente Valadão, disse a rapariga, cruzando os braços, mandou dizer que todos estão bons, muito obrigado. Que o seu tenente tossiu muito esta madrugada, mas que tomou duas colheres dum xarope que seu Regalado mandou, e passou melhor. Que estima muito que senhor e senhora tenham passado bem de saúde e fica muito obrigada pela visita.

— E o chapéu-de-sol?

— A filha do seu tenente Valadão diz que lá não tem chapéu-de-sol nenhum.

— Então está em casa do Natividade! dissera o Fonseca. Aquele sujeitinho é um esquecido de conta, peso e medida! Eu bem dizia que não estava com Valadão, mas com o Natividade, a quem o emprestei no domingo passado. A senhora quis por força mandar à casa do Valadão e perdeu o seu latim.

Nesse momento apareceu a serva que fora à casa do juiz municipal.

— E o chapéu-de-sol? perguntara-lhe D. Cirila, impaciente.

A rapariga cruzou os braços sobre os seios, e respondeu, arrastando as palavras:

— Mandou dizer que está bom, muito obrigado. Que já mandou o chapéu-desol logo na segunda-feira de manhã, e que, graças a Deus, não precisa ficar com o que é dos outros.

— Patife! dissera Fonseca, zangado, e com toda a razão. Patife! Deve-me mil obrigações, e manda-me um recado assim tão atrevido! E, numa grande desolação, com uma idéia sinistra a atravessar-lhe a mente, lançara um olhar desesperado à mulher aflita:

(continua...)

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