Por Aluísio Azevedo (1881)
— Não o vi ainda, não senhor; porem não poderá tardar. Vão se fazendo horas!...
Um assovio muito agudo deu o primeira sinal de bordo, chamando os últimos passageiro Manuel levantou-se logo, foi ate à porta, lambeu com um olhar o trapiche, consultou sequioso a ladeira de Palácio: “Nada!” Olhou para o relógio, o ponteiro orçava pelas nove. “Ora sebo! Entendam-se lá com semelhante gente!...”
A rampa já se tinha enchido e já se ia esvaziando. Grupos demorados acenavam de terra com o lenço para os escaleres que fugiam; choravam com o rosto escondido nas mãos; outros abraçavam-se por cortesia. Ao lado de protestos e oferecimentos oficiais, ouviam-se frases quentes de sinceridade, arrancadas pela dor; diziam-se ternuras; davam-se conselhos; faziam-se carícias; expunham-se, ai, ao ar livre, em meio do publico o amor e o desespero, como se estivessem entre família, no segredo da casa. Os botes largavam com grande algazarra dos catraieiros. Ninguém mais se entendia. Os ganhadores passavam correndo, com as costas carregadas de malas, de baús e gaiolas de papagaio. Havia grandes encontrões. Uma mulatinha escrava, gritava que nem doida, lá no fim da rampa, com os pés na água, agitando os braços soluçando, porque lhe levavam a irmã mais velha, vendida para o Rio. Os tripulantes praguejavam; os barcos enchiam-se numa confusão, e a lanchinha do Portal guinchava de instante a instante silvos que ensurdeciam.
E Raimundo — nada de chegar!
Pouco a pouco foram rareando os grupos. Enxugavam-se os olhos; guardavam-se os lenços, e os amigos e parentes dos que partiam retiravam se em magotes, com o passo frouxo, a cara congestionada na ressaca das comoções. O empregado da policia externa do porto voltou da sua visita ao navio. Só os exportadores de escravos permaneciam encostados ao portão do cais, para ver a última baforada do monstro a que confiavam um bom carregamento de negros.
A rampa recaiu afinal no seu habitual sossego, e Raimundo nada de aparecer.
Manuel suava.
— E esta?! perguntou furioso ao cônego. O que me diz desta, seu compadre?!
O cônego não respondeu. Cismava.
Nisto, chegou uma carruagem, a rodar vertiginosamente. Os que esperavam Raimundo acudiram, de pescoço estirado.
— Deve ser ele!... aventou o cônego.
— Diabo! rosnou Manuel, ao ver saltar um homem e entrar lépido na guardamoria.
Não era Raimundo.
O vapor chamava, insistia com os seus guinchos impacientes e sibilantes. O recém-chegado arrastou uma pequena mala para a rua e entregou-a ao primeiro catraieiro, que pulou de uma nuvem deles.
— Avia, rapaz! Pega daí - E mostrava os outros volumes. - Ligeiro! Ligeiro!
O homem do bote atirou com a bagagem num escaler, gritando para um moleque que o ajudava:
— Anda! mexe-te! senão arriscamos a não alcançar o vapor!
Estas últimas palavras acabaram de pôr Manuel fora de si. A pobre criatura suava como o fundo de um prato de sopa.
— E esta, seu compadre?! E esta?! O que me diz desta?!
O cônego não dava palavra, fazia considerações íntimas sorrindo amargamente à superfície dos lábios.
— Ora! ora! ora! — E o negociante passeava a grandes pernadas na guardamoria.— Ora! ora, senhores! Esta só a mim!
O cônego bateu com o chapéu-de-sol no chão.
— Astutos astu non capitur!
Os empregados da guardamoria, vestidos de farda, e os curiosos desocupados, que ali estavam por distração, faziam perguntas a Manuel a respeito de Raimundo, satisfeitos com aquele episódio prometedor de escândalo. Arriscavam-se já os comentários e as opiniões.
— Homem, dizia um. Ele, cá pra nos, nunca me pareceu grande coisa!...
— Eu também, acrescentava outro, a falar verdade, nunca pude tragar aquele cara de máscara!...
— Pois eu cá sabia que ele não havia de ir!
— Nem irá mais! Pilhou-se aqui, adeus!
— Mas que grande patife! Sim senhor!
— Ora! ora, que filho da mãe! resmungava Manuel, a dar voltas no ar com o seu imenso chapéu-de-sol.
Mas todos correram para a porta, porque uma nova carruagem puxada com sofreguidão encheu de tropel a Rua do Trapiche.
É o tipo com certeza! bradou um sujeito. A bons horas!
Fez-se no grupo um silêncio ansioso. A sege estacou em frente à guardamoria. Mas ainda desta vez não era Raimundo.
CAPÍTULO XV
O paquete havia entrado, na véspera, às duas horas da tarde, fundeando com um tiro, a que todo o litoral da cidade respondeu com um grito alegre de “chegou vapor!” e, desde esse momento, Ana Rosa possuíra-se de um sobressalto constante que a punha enferma; sabia que nele se iria Raimundo, para sempre. “Raimundo, que ela tanto amara e tanto desejara!... Todavia, era preciso deixá-lo partir, sem uma queixa, sem Uma recriminação, porque todos, até o próprio ingrato, assim o entendiam!... E que loucura de sua parte estar ainda a pensar nessas coisas!... Pois já não estava porventura tudo acabado?... para que então mortificar-se ainda com semelhante doidice?...”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.