Por Machado de Assis (1886)
— Já te perdoei, como sabes, o erro em que caíste; reconheci, minha filha, que a boa fé do teu coração foi iludida. Tudo isto pertence ao passado. Mas pensaste no futuro?
— No futuro?
— Sim, pensaste na tua posição de ora avante, nas circunstâncias penosas em que te achas, mas ainda mui penosas com que hás de achar-te quando eu morrer?
— Oh! meu pai, eu também morrerei...
— Ouve. Não digas isso. Não sabes se poderás ou não resistir à minha morte, e no caso afirmativo, que é o que se há de dar, porque é o que se dá sempre, só recorrendo ao crime terás a morte, e então...
— Meu pai!
— E então terás aumentado as torturas eternas do meu espírito... Ah! é preciso que te não esqueças de que há um Deus que nos olha e nos julga. Para esse, apelo eu, apelarás tu, no que diz respeito ao infame. Mas enquanto esse Deus não te chamar a si, tu não tens, nem eu tenho, o direito de atirar à margem o fardo da vida. Bem sei, meu pai...
— Ora, pois. Morto eu, qual é a tua posição? Ficas desamparada à beira de um abismo. É preciso que conjures esse perigo, e eis o meio: mudar-nos-emos daqui. A casa a que eu for morar terá capacidade para que possamos eu e tu trabalhar em uma só coisa: fazer um pecúlio para ti. Serei hortelão; serás costureira. O que nos render nessas duas ocupações, junto com o que o Estado me dá, servirá para sustentar a casa e economizar de modo que, no fim de alguns anos, quando a morte me chamar, tu fiques desassombrada, ao abrigo das necessidades e das tentações.
— Oh! meu pai! exclamou Emília deitando-se aos braços de Vicente.
— Queres?
— De todo o coração, meu pai.
Desde este dia foi assentado que ambos se ocupariam na reparação do passado por meio da esperança do futuro.
Mudaram-se para a casinha em que os encontramos, leitor, no começo desta narrativa. Aí viveram, longe do mundo, entregues só ao cumprimento da palavra jurada e no desempenho dos encargos que o funesto amor de Valentim trouxera àquela infeliz família. Quanto ao rapaz, Vicente entendeu que não devia por modo algum procurar vingar-se. Qual seria a vingança? Vicente, profundamente religioso, julgou entre si que a justiça de Deus bastava para reparar os casos onde fosse impotente a justiça dos homens. Votando-se a uma vida de trabalho e de obscuridade, o pai e a filha buscaram reparar os erros do passado, amando-se mais e fazendo convergir os seus esforços, para a compra da tranqüilidade futura.
Tal foi, em resumo, a narração feita por Vicente a Davi.
Quando o velho hortelão acabou de falar ia a noite adiantada. Davi estava pensativo e concentrado. Não perdera uma só das revelações do velho, e às últimas palavras dele lançou-se-lhe aos braços.
— Muito bem! muito bem! exclamou o poeta. Obrou como um homem de honra e de prudência. Não era outro o seu procedimento. Este abraço é de irmão, e de admirador.
— Fiz o dever, não?
— Fez! fez! Devem todos os que o conhecem felicitá-lo por tal... Ainda bem, que não morro inteiramente desgostoso com a minha espécie; ainda há indivíduos que lhe fazem honra... Mas diga-me, nunca mais ouviu falar de Valentim?
— Nunca mais. Foi um ingrato.
— Foi um infame.
— É a mesma coisa.
— Sim, mas hoje, pelo tom que as coisas levam, já se vai dando à ingratidão a significação de independência... É com efeito independência, mas independência do justo e do honesto... E sua filha... pobre menina!
— Coitada. Trabalha contente e alegre. Nossas economias são muitas, porque reduzimos o mais que nos é possível as nossas despesas, de modo que, se eu hoje morrer, já Emília não fica inteiramente abandonada. Ai está a história da nossa vida. Adeus. É tarde. Até amanhã!
Vicente voltou ainda:
— É o primeiro a quem revelo todas estas coisas. Será também o primeiro a quem dê entrada em minha casa. Agora é tarde. Amanhã entrará no santuário do trabalho em que eu e minha filha somos sacerdotes...
— Até amanhã.
No dia seguinte, com efeito, Vicente apresentou-se em casa do poeta às 9 horas da manhã.
Davi coordenava uns papéis.
— Ponho em fuga a musa? disse Vicente à porta.
— Não; pode entrar. Isto não são versos. Já perdi o gosto de rever os versos que faço. Isto foi bom em outros tempos. Agora faço versos e atiro-os à gaveta, para lá dormirem com as minhas ilusões. Preparo uma ode, é verdade, mas não é agora... Vem buscar me?
— Venho.
— Pois vamos.
O poeta guardou os papéis e entrou com Vicente na casa deste.
Emília veio recebê-lo à sala.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.