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#Comédias#Literatura Brasileira

Os Ciúmes de um Pedestre ou o Terrível Capitão do Mato

Por Martins Pena (1846)

PAULINO – Não se assuste... Há uma hora que eu teria dado quanto possuo para estar como estou, só convosco. Mas as coisas mudaram; esta única hora tem-me envelhecido mais de cinqüenta anos. Saltei pela minha janela, trepei no vosso telhado, escorreguei três vezes, desci pela vossa escada, quebrei-a, presenciei os furores de vosso marido, chorei a vossa morte, fui assassinado, metido em um saco, meu Deus! e tudo isto em uma hora! Não seria melhor que eu estivesse deitado em minha cama, roncando debaixo dos lençóis?

ANACLETA – O senhor foi de tudo isso culpado e causa do que eu tenho sofrido.

PAULINO – Serei eu o culpado de tudo, carregarei com mais essa – hoje estou pronto para tudo. Mas sempre vos direi que, se me tivésseis dado com as janelas na cara quando eu lá da minha vos namorava, não teria acontecido tudo isto...

ANACLETA – Nunca lhe dei esperanças; conhecia os meus deveres. Se às vezes lhe dava atenção, era para distrair-me da insip[id]ez em que vivia.

PAULINO, furioso – Para distrair, para distrair-se! E a tanto me arrisquei! Oh, grandissíssimo pateta, pedaço de asno! Camelo, camelórío, que tanto te arriscaste por uma mulher que se divertia contigo! Arrebento!

ANACLETA – Não grite tanto, que ele pode vir...

PAULINO – Ele! Oh, agora é que minha morte é certa... E que morte? E por quem? Arreda, mulher, arreda! Eu agora preferia estar com tua alma... Sim, com tua alma, porque ainda não vi nenhum marido ter ciúmes da alma de sua mulher...

ANACLETA – Senhor!

PAUL1NO – Oh, estou capaz de te matar para ficar só com tua alma!

ANACLETA – Meu Deus!

PAULINO – Tudo está acabado, tudo! Amanhã estarei morto! Ó Sol que me alumiais, amanhã verás o meu enterro subindo pela Ladeira de Santo Antônio... Não escapo, não posso escapar... Aqui encontrado, só com ela, morrerei às suas mãos. Oh!

ANACLETA – Fujamos, fujamos!

PAULINO – Fugir contigo! Oh, de ti fugiria eu, se a porta estivesse aberta. Fugir com uma mulher! Oh, leve o diabo todas as mulheres e quem acredita nelas e...

ANACLETA, muito assustada – Ele aí vem! (Dirige-se para a direita e sai.)

PAULINO, assustado – Aí vem! (Dirige-se para a esquerda e entra no quarto e fecha a porta.)

CENA XVII

Entra o PEDESTRE, muito assustado.

PEDESTRE – Estou perdido! O melhor é fugir enquanto é tempo... É preciso levar alguma coisa. (Dirige-se para a mesa e, abrindo a gaveta, tira uma caixinha de fósforo e acende a vela.) Ao dobrar a segunda esquina, esbarramos mesmo com uma patrulha... O negrinho meteu logo pernas com o saco às costas, e eu também. Pega, pega! gritava a patrulha, e eu do mesmo modo gritava: Pega, pega! para não desconfiarem de mim. Mas no primeiro canto furtei-lhe a volta e vim mais que depressa para casa... Ah, mas não posso escapar! O negrinho será preso com o corpo às costas; falará... Aqui virão, e o outro corpo... Está dito, nasci para morrer enforcado por causa das mulheres, que tantos trabalhos me têm dado. Vou ajuntar o pouco dinheiro que tenho e ponho-me ao fresco... Quem quiser que a enterre... Oh, diabo, deixei a porta aberta! (Dirige-se para fechar a porta do fundo.)

CENA XVIII

O PEDESTRE, ao chegar à porta, recua por nela aparecer ROBERTO.

ROBERTO, da porta – Dá licença?

PEDESTRE, recuando – Ah! (À parte:) Estou perdido!

ROBERTO, entrando – Desculpe-me, se a estas horas...

PEDESTRE, à parte – Toda a hora é boa para se prender e enforcar um homem...

ROBERTO – Só muito poderoso motivo me obrigaria a incomodá-lo a horas tão indevidas...

PEDESTRE – Ai, que o homem não é o que eu pensei... Não me vem prender... Sem dúvida quer que eu lhe procure algum escravo fugido. (Alto:) Que ordena vossa senhoria?

ROBERTO – Senhor, há apenas doze horas que desembarquei chegando da Índia...

PEDESTRE – Ah, e ele já fugiu... Sem dúvida, ao desembarcar...

ROBERTO – Ele quem?

PEDESTRE – O seu escravo.

ROBERTO – Não é de um meu escravo que lhe venho falar.

PEDESTRE – Ah! (À parte:) Que diabo será? (Alto:) Então far-me-á o favor de dizer depressa o que quer. Bem vê que a estas horas... (Aqui Anacleta espreita pelo buraco da porta para [a] cena e nesse jogo continua.)

ROBERTO – Direi o que quero, e peço me desculpe. Há dezoito anos que um motivo, que é inútil agora dizer, obrigou-me a deixar o Rio de Janeiro, minha pátria. Parti para costa da África; mas antes, cruel e imperiosa necessidade obrigou-me a lançar na roda dos enjeitados minha querida filhinha. Com o coração partido de dor deixei esta terra, chorando a amante que o túmulo me roubara e a filha que deixava entregue a alheia caridade. Dezoito anos de exílio... Ah, mas à custa de privações e trabalhos conquistei uma fortuna de príncipe. (O Pedestre tira o boné que conservava na cabeça.) Uma fortuna colossal para oferecer à minha filha, que abandonada passara a sua mocidade... Esta manhã entrava eu pela barra; três navios preciosamente carregados seguiam-me... E estes três navios pertencem-me.

PEDESTRE – Três navios!

(continua...)

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