Por Martins Pena (1845)
MARIA – Sabe o senhor quando eu o vi? Foi numa festa que se deu no Funchal. (Manuel, depois de entrar no quarto, fecha a porta e fica dentro do quarto, defronte da janela. Chega-se para ele, como vindo do interior, João, que supondo ser a Maria, o abraça.)
JOÃO – Minha ilhoazinha, minha Mariquinha! (Dá abraços e beijos, que Manuel corresponde.)
MARIA – Hem?
LUÍS – Não disse nada. Continua. (Continua a ter a mão dela na sua.)
MARIA – Eu ia para a festa. Ai, agora é que me lembro que se não fosse a festa também não estava casada!
LUÍS, dando-lhe um abraço – Maldita festa!
MARIA – Fique quieto! Veja o diabo as arma.
LUÍS – É verdade! (Manuel e João, que ouvem as vozes dos dois, chegam-se para a janela, e dando com os dois no banco abaixo, ficam observando, dando sinais de grande surpresa.)
MARIA – Estive quase não indo à festa, e se não fosse o meu vestido novo... Ai, senhor, e se não fosse o vestido novo, eu também não estava casada.
LUÍS, abraçando – Maldito vestido!
MARIA – Foi minha tia que mo deu. Ai, que se eu também não tivesse tia, não era agora mulher de meu marido. (Manuel debruça-se pela janela e a agarra no pescoço.)
MANUEL – Maldita mulher! (Maria dá um grito e levanta-se; o mesmo faz Luís. Maria, conhecendo o
marido, deita a correr, atravessando a cena. Manuel salta pela janela e a persegue, gritando. Saem ambos da cena.)
LUÍS, vendo Manuel saltar – Que diabo é isto? (Reconhecendo João, que fica à janela:) O tio João!
JOÃO – Cala-te! (Esconde-se.)
LUÍS, rindo-se – No quarto da ilhoa! (Acodem todos, isto é, Clara, Clementina, Ritinha, Júlio e os convidados.)
CENA XVIII
CLARA – O que é? Que gritos são estes?
CLEMENTINA, ao mesmo tempo – O que aconteceu?
RITINHA, ao mesmo tempo – O que foi? (Luís ri-se.)
CLARA – O que é isto, Luís? Fala. (Luís continua a rir-se.)
CLEMENTINA
– De que se ri tanto o primo?
CLARA – Não falarás?
LUÍS – Quer que eu fale? Ah, ah, ah!
CLARA – E esta?
CLEMENTINA – Eu ouvi a voz da Maria.
CENA XIX
Entra Maria adiante de Manuel, gemendo. Manuel conserva-se vestido de mulher.
RITINHA – Aí vem ela.
CLARA – A gemer. Que foi?
MANUEL, que traz um pau na mão – Anda! (Maria vem gemendo, assenta-se no banco debaixo da janela.)
CLARA – Ai,
o Manuel vestido de mulher! Que mascarada é esta?
CLEMENTINA – Como está feio!
CLARA – Mas que é isto? Por que gemes?
MARIA – Ai, ai, ai! Minhas costas...
MANUEL – É uma vergonha!
CLARA, para Manuel – O que fez ela?
MARIA, gemendo – Minha costela... minha cabeça...
MANUEL – O que fez? Um desaforo! Mas eu lhe ensinei com este pau.
CLARA – Deste-lhe com o pau?
CLEMENTINA – Pobre Maria!
MARIA – Ai, ai, ai! Minhas pernas...
CLARA, para Manuel – Mas por quê?
MANUEL – Estava a desencaminhar-se com o Sr. Luís.
CLARA – Com meu sobrinho?
CLEMENTINA, ao mesmo tempo – Com o primo?
RITINHA, ao mesmo tempo – Com ele?
JÚLIO, ao mesmo tempo – É bom saber!
LUÍS – Não há tal, tia. Este diabo está bêbado! Não vê como está vestido?
MANUEL – Olhe, senhora, que não estou bêbado. Eu bem vi, com estes olhos que a terra há-de comer, o senhor dar abraços na Maria.
CLARA – Ai, que indecência!
CLEMENTINA – Que vergonha! Namorando uma ilhoa!
RITINHA – Que humilhação!
JÚLIO – De que se admiram, minhas senhoras? É esse o costume do Sr. Luís. Tudo lhe faz conta – a velha, a moça, a bonita, a feia, a branca, a cabocla...
CLEMENTINA – Que horror!
RITINHA, ao mesmo tempo – Que horror! (Alguns convidados riem-se.)
LUÍS – Psiu! Alto lá, Sr. Júlio, cá ninguém o chamou!
JÚLIO – E o melhor é, minhas senhoras, que ele nutre grandes esperanças de casar-se com uma das senhoras desta roda.
TODAS AS SENHORAS – Comigo não!
LUÍS, chegando-se para Júlio – Já estás cantando vitória?
JÚLIO, para as senhoras – Vejam o que faz a presunção!
LUÍS – Ainda é cedo, meu menino! Pensa que eu cedo com essa facilidade? (Aqui João sai do quarto do ilhéu, pé ante pé, para não ser visto, e encaminha-se para o fundo.)
JÚLIO – Cederás, que te digo eu!
LUÍS – Deverás? (Zombando. Volta para trás e vê João, que se retira para o fundo.) Ó tio João? Tio João? Venha cá! (Vai buscá-lo e trá-lo para frente.)
CLARA – Ai, onde estava este homem metido?
CLEMENTINA – O que quererá ele fazer?
JÚLIO – O que pretenderá?
LUÍS – Tio?
CLARA, interrompendo e puxando João pelo braço – Aonde estavas?
LUÍS, puxando-o pelo braço – Espere, tio, deixe que eu...
CLARA, mesmo jogo – Quero que me diga o que fez estas duas horas.
LUÍS, mesmo jogo – Logo perguntará por isso, que agora tenho eu que lhe falar.
CLARA, mesmo jogo – Nada; primeiro há-de me dizer onde esteve escondido. Isto se faz? Eu a procurá-lo...
LUÍS, mesmo jogo – Dê-me atenção!
CLARA, mesmo jogo – Responda!
LUÍS, mesmo jogo – Deixe-o!
CLARA, mesmo jogo – Deixa-o tu também!
LUÍS, metendo-se entre Clara e João – Ora tia, que impertinência é essa? Tem tempo de fazer-lhe perguntas e ralhar como quiser. (Enquanto Luís fala com Clara, Júlio segura João pelo braço.)
JÚLIO – Lembre-se da sua promessa!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)PENA, Martins. O Namorador ou a Noite de São João. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1992 . Acesso em: 29 jan. 2026.