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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Capitão — Oh, o senhor escandaliza-se e assusta-se por uma graça dita sem intenção de ofender!

Pimenta — Mas há graças que não têm graça!

Capitão — O senhor tem alguma cousa? Eu o estou desconhecendo!

Antônio (à parte) — Este diabo bota tudo a perder! (Para o Capitão:) É a bílis que ainda o trabalha. Estava enfurecido comigo por certos negócios. Isto passa-lhe. (Para Pimenta:) Tudo se há-de arranjar. (Para o Capitão:) Vossa Senhoria está hoje de serviço?

Capitão — Estou de dia. (Para Pimenta:) Já lhe posso falar?

Pimenta — Tenha a bondade de desculpar-me. Este maldito homem ia-me fazendo perder a cabeça. (Passa a mão pelo pescoço, como quem quer dar mais inteligência ao que diz) E Vossa Senhoria também não contribuiu pouco para eu assustar-me!

Antônio (forcejando para rir) — Foi uma boa caçoada!

Capitão (admirado) — Caçoada! Eu?

Pimenta — Por mais honrado que seja um homem, quando se lhe bate à porta e se diz: "Da parte da polícia", sempre se assusta.

Capitão — E quem lhe disse isto?

Pimenta — Vossa Senhoria mesmo.

Capitão — Ora, o senhor, ou está sonhando, ou quer se divertir comigo.

Pimenta — Não foi Vossa Senhoria?

Antônio — Não foi Vossa Senhoria?

Capitão — Pior é essa! Sua casa hoje anda misteriosa. Há pouco era sua filha com o gato; agora é o senhor com a polícia... (À parte:) Aqui anda tramóia!

Antônio (à parte) — Quem seria?

Pimenta (assustado) — Isto não vai bem. (Para Antônio:) Não sai daqui antes de eu lhe entregar uns papéis. Espere! (Faz semblante de querer ir buscar os bilhetes;

Antônio o retém)

Antônio, para Pimenta — Olhe que se perde!

Capitão — E então? Ainda não me deixaram dizer ao que vinha. (Ouve-se repique de sinos, foguetes, algazarra, ruídos diversos como acontece quando aparece a Aleluia) O que é isto?

Pimenta — Estamos descobertos!

Antônio (gritando) — É a Aleluia que apareceu. (Entram na sala, de tropel, Maricota,

Chiquinha, os quatro meninos e os dous moleques)

Meninos — Apareceu a Aleluia! Vamos ao judas!... (Faustino, vendo os meninos junto de si, deita a correr pela sala. Espanto geral. Os meninos gritam e fogem de Faustino, o qual dá duas voltas ao redor da sala, levando adiante de si todos os que estão em cena, os quais atropelam-se correndo e gritam aterrorizados. Chiquinha

fica em pé junto à porta por onde entrou. Faustino, na segunda volta, sai para a rua, e os mais, desembaraçados dele, ficam como assombrados. Os meninos e moleques, chorando, escondem-se debaixo da mesa e cadeiras; o Capitão, na primeira volta que dá fugindo de Faustino, sobe para cima da cômoda; Antônio Domingos agarra-se a Pimenta, e rolam juntos pelo chão, quando Faustino sai: e

Maricota cai desmaiada na cadeira onde cosia)

Pimenta (rolando pelo chão, agarrado com Antônio) — É o demônio!...

Antônio — Vade-retro, Satanás! (Estreitam-se nos braços um do outro e escondem a cara)

Chiquinha (chega-se para Maricota) — Mana, que tens? Não fala; está desmaiada!

Mana? Meu Deus! Sr. Capitão, faça o favor de dar-me um copo com água.

Capitão (de cima da cômoda) — Não posso lá ir!

Chiquinha, à parte — Poltrão! (Para Pimenta:) Meu pai, acuda-me! (Chega-se para ele e o chama, tocando-lhe no ombro)

Pimenta (gritando) — Ai, ai, ai! (Antônio, ouvindo Pimenta gritar, grita também)

Chiquinha — E esta! Não está galante? O pior é estar a mana desmaiada! Sou eu, meu pai, sou Chiquinha; não se assuste. (Pimenta e Antônio levantam-se cautelosos)

Antônio — Não o vejo!

Chiquinha (para o Capitão) — Desça; que vergonha! Não tenha medo. (O Capitão principia a descer) Ande, meu pai, acudamos a mana. (Ouve-se dentro o grito de

Leva! leva! como costumam os moleques, quando arrastam os judas pelas ruas)

Pimenta — Aí vem ele!... (Ficam todos imóveis na posição em que os surpreendeu o grito, isto é, Pimenta e Antônio ainda não de todo levantados; o Capitão com uma perna no chão e a outra na borda de uma das gavetas da cômoda, que está meio aberta; Chiquinha esfregando as mãos de Maricota para reanimá-la, e os meninos nos lugares que ocupavam. Conservam-se todos silenciosos, até que se ouve o grito exterior) — Morra! — em distância)

(continua...)

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