Por José de Alencar (1857)
O moço tomou-a nos braços e deitou-a sobre o leito, fechando as alvas cortinas; depois foi sentar-se na conversadeira e colocou o seu relógio sobre uma banquinha de charão.
Assim, com a cabeça apoiada sobre a mão e os olhos fitos nas pequenas agulhas de aço que se moviam sobre o mostrador branco, passou duas horas.
Cada instante, cada oscilação, era um ano que fugia, um mundo de pensamentos que se abismava no passado.
Quando o ponteiro, devorando o último minuto, marcou quatro horas justas, ele ergueu-se.
Tirou do bolso uma carta volumosa e deitou-a sobre o consolo de mármore.
Abriu as cortinas do leito e contemplou Carolina, que dormia, sorrindo talvez à imagem dele, que em sonho lhe aparecia.
O moço inclinou-se e colheu com os lábios esse sorriso; era o seu beijo nupcial.
Tornou a fechar as cortinas e entrou na sala onde estivera a princípio, aí abriu uma janela e saltou no jardim.
Seguiu pela ladeira abaixo; a noite estava escura ainda; mas pouco faltava para amanhecer.
Debaixo da janela esclarecida do aposento de Carolina destacou-se um vulto que seguiu o moço a alguns passos de distância.
A pessoa, qualquer que ela fosse, não desejava ser conhecida; estava envolvida em uma capa escura e tinha o maior cuidado em abafar o som de suas pisadas.
Jorge ganhou a rua da Lapa, seguiu pelo Passeio Público e dirigiu-se à praia de Santa Luzia.
O dia vinha começando a raiar; e o moço, que temia ver esvaecerem-se as sombras da noite antes de ter chegado ao lugar para onde se dirigia, apressava o passo.
O vulto o acompanhava sempre a alguma distância, tendo o cuidado de caminhar do lado do morro, onde a escuridão era mais intensa.
Quando Jorge chegou ao lugar onde hoje se eleva o hospital da Misericórdia, esse lindo edifício que o Rio de Janeiro deve a José Clemente Pereira, o horizonte se esclarecia com os primeiros clarões da alvorada.
Um espetáculo majestoso se apresentava diante de seus olhos; aos toques da luz do sol parecia que essa baía magnífica se elevava do seio da natureza com os seus rochedos de granito, as suas encostas graciosas, as suas águas límpidas e serenas. O moço deu apenas um olhar a esse belo panorama e continuou o seu caminho.
O vulto que o seguia tinha desaparecido.
CAPÍTULO IX
O Rio de Janeiro ainda se lembra da triste celebridade que, há dez anos passados, tinha adquirido o lugar onde está hoje construído o hospital da Santa Casa.
Houve um período em que quase todas as manhãs os operários encontravam em algum barranco ou entre os cômoros de pedra e de areia, o cadáver de um homem que acabara de pôtermo à sua existência.
Outras vezes ouvia-se um tiro; os serventes corriam e apenas achavam uma pistola ainda fumegante, um corpo inanimado e, sobre ele, alguma carta destinada a um amigo, a um filho, ou a uma esposa.
Amantes infelizes, negociantes desgraçados, pais de família carregados de dívidas, homens ricos caídos na miséria, quase todos aí vinham, trazidos por um ímã irresistível, por uma fascinação diabólica.
As Obras da Misericórdia, como chamavam então este lugar, tinham a mesma reputação que o Arco das Águas Livres de Lisboa e a Ponte Nova de Paris.
Era o templo do suicídio, onde a fragilidade humana sacrificava em holocausto a esse ídolo sanguinário tantas vítimas arrancadas às suas famílias e aos seus amigos.
Essa epidemia moral, que se agravava todos os dias, começava já a inquietar alguns espíritos refletidos, alguns homens pensadores, que viam com tristeza os progressos do mal.
Procurava-se debalde a causa daquela aberração fatal da natureza e não era possível explicá-la.
Não tínhamos, como a Inglaterra, esse manto de chumbo, que pesa sobre a cabeça dos filhos da Grã-Bretanha; esse lençol de névoa e de vapores, que os envolve como uma mortalha.
Não tínhamos, como a Alemanha, o idealismo vago e fantástico, excitado pelas tradições da média idade e, modernamente, pelo romance de Goethe, que tão poderosa influência exerceu nas imaginações jovens.
Ao contrário, o nosso céu, sempre azul, sorria àqueles que o contemplavam; a natureza brasileira, cheia de vigor e de seiva, cantava a todo o momento um hino sublime à vida e ao prazer.
O gênio brasileiro, vivo e alegre no meio dos vastos horizontes que o cercam, sente-se tão livre, tão grande, que não precisa elevar-se a essas regiões ideais em que se perde o espírito alemão.
Nada enfim explicava o fenômeno moral que se dava então na população desta corte; mas todos o sentiam e alguns se impressionavam seriamente.
Era fácil, pois, naquela época, adivinhar o motivo que levava Jorge às quatro horas da manhã ao lugar onde se abriam os largos alicerces do grande hospital de Santa Luzia.
O moço afastou-se da praia e desapareceu, por detrás de alguns montes de areia que se elevavam aqui e ali pelo campo.
Meia hora depois ouviram-se dois tiros de pistola; os trabalhadores que vinham chegando para o serviço, correram ao lugar donde partira o estrondo e viram sobre a areia o corpo de um homem, cujo rosto tinha sido completamente desfigurado pela explosão da arma de fogo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Viuvinha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16674 . Acesso em: 09 jan. 2026.