Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Mariana era uma dessas mulheres que ainda são moças aos quarenta anos. Contava ela então trinta e seis, dizia que tinha trinta, e julgá-la-iam com vinte e cinco. Era um verdadeiro tipo de beleza dos trópicos; tinha os cabelos longos e negros como o azeviche, os olhos grandes, pretos e tão brilhantes como o sol do Brasil; o rosto perfeitamente bem talhado e de uma cor morena muito pronunciada. O nariz era bem feito, e suas narinas cedendo às vezes a um ardor natural, se dilatavam com força; tinha lábios eróticos, e riquíssimos dentes; a boca um pouco grande, mas engraçada; abaixo de seu pescoço garboso e acima de seus seios pequenos e palpitantes, nem de leve se desenhavam suas clavículas; cintura delgada, braços grossos com perfeição torneados, mãos lindíssimas e pés de brasileira completavam os encantos dessa mulher.
Começando ela então a engordar, nada porém havia perdido da elegância de suas formas; ao contrário estava mais elegante ainda. Alta e graciosa, cada posição que seu corpo tomava tinha um encanto particular, cada um de seus movimentos acendia um desejo perigoso; seu olhar era às vezes um desafio, uma provocação; seu sorrir quase sempre uma magia poderosa, sua voz uma harmonia que ficava no coração para se ouvir sempre, ainda mesmo ausente dela: a voluptuosidade e o ardor estavam derramados em toda essa mulher, que deveria ter sido e era ainda objeto de cultos perigosos.
Sobretudo, Mariana sabia que era bela, e se ufanava de sê-lo. Quando um homem chegava-se a ela, havia de pagar-lhe por força o seu tributo de admiração, porque Mariana lho pedia com a provocação de seus olhos; e se o homem resistia, lho ordenava com a magia de seu sorrir, e enfim lho impunha com a harmonia de sua voz.
Viúva há três anos, julgara com sua vaidade de bela, que as vestes de luto não faziam sobressair seus encantos; e um simples lencinho preto que às vezes lhe ornava o colo, era menos um sinal de viuvez, do que um enfeite que a tornava dobradamente interessante. Aquele lencinho preto parecia estar dizendo “sou livre... podem dizer que me amam”.
Mariana era finalmente a menina dos olhos de seu velho pai, e a amiga e companheira da “Bela Órfã”.
– Celina, eu sou feliz!... imensamente feliz!... tinha ela já três vezes exclamado depois que se sentara no sofá ao lado de sua sobrinha.
– Mas por quê?... o que há então minha tia?
Ficou Mariana pensando alguns instantes, depois abraçou, e repetidas vezes beijou a “Bela Órfã”, e disse:
– Olha... por isto; porque muitas vezes nós precisamos abrir o nosso coração a alguém que juntamente conosco chore nossos pesares, e frua nossos prazeres, é que te eu tenho dito mil vezes que nós nos devemos amar como duas amigas, ou melhor ainda, como duas irmãs que se amem muito. Para que estes nomes de tia e sobrinha?... chama-me Mariana, como eu te chamo Celina.
– Senhora...
– Sim... fiquemos nisto, continuou Mariana beijando de novo Celina; eu nunca mais te hei de responder quando me chamares como até agora – minha tia. – És muito mais moça do que eu, mas também podes olhar-me, não sou nenhuma velha, e somos ambas bonitas.
– Pois sim; eu prometo.
– E agora o que é que queres saber?...
– Por que se julga minha tia tão feliz.
– Não respondo.
– Ah!... perdão!...
– Pois pergunta de novo, disse a viúva rindo-se.
– Por que te crês tão feliz, Mariana?...
– Escuta: para responder-te daqui a um instante, eu preciso perguntar-te uma coisa: juras falar-me de coração?...
– Sem dúvida.
– Pois bem, Celina, sabes o que é amar... amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão?...
A “Bela Órfã” corou até a raiz dos cabelos, e sua perturbação aumentou-se quando viu que Mariana se estava rindo de vê-la assim.
– Oh! não te perturbes, não cores tanto. Lembra-te que estamos sós, e que somos como duas irmãs que se amam muito. Responde francamente: amas já alguém?...
– Não, Mariana.
– Falas verdade, Celina?...
– Falo verdade, respondeu a moça com os olhos no chão.
– Mas com dezesseis anos, tão bonita e tão viva que és, tu já deves ter pensado nesse sentimento de fogo, que mais cedo ou mais tarde sempre experimentamos; fazes já idéia do que seja amar um homem?...
– Não sei... talvez... tenho lido.
– E então?...
– Mas eu tinha perguntado por que te julgavas feliz, Mariana!
– É porque amo, Celina.
– Eu o supunha.
– Tu o supunhas?... e a quem acreditavas que eu amava?...
Celina hesitou.
– Fala, disse Mariana.
– O sr. Salustiano.
Mariana fez um movimento de horror.
– Oh!... nunca! exclamou.
– Como!... pois não é?
– Eu o detesto... eu o aborreço, como se aborrece um malvado.
– É possível?
– Pobre menina!... tu ainda não sabes o que é o mundo. Vês-me rir para esse homem, vês como ambos conversamos e mutuamente nos festejamos, e como com outras pessoas, pensas que o amo e sou por ele amada. Pois bem: eu detesto esse homem, e ele sabe que eu o detesto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.