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#Contos#Literatura Brasileira

D. Mônica

Por Machado de Assis (1876)

— E tudo isto sacrifico eu por causa dela! exclamou ele. Merece-lo-á? Merecerá que eu padeça tantas privações, que abra mão de um bom casamento para ser desprezado deste modo? 

Não lhe respondendo ninguém a esta pergunta, fê-lo ele próprio, e a resposta foi que a moça não merecia tamanho sacrifício. 

— Contudo, sacrificar-me-ei! concluiu ele. 

Neste ponto das reflexões recebeu uma carta da tia: 

Gaspar. 

Creio que arranjo empenho para que se te dê algum lugar muito breve, em outra secretaria. 

Gaspar estremeceu de prazer. 

— Boa tia! disse ele. Ah! como lhe tenho pago com ingratidões! 

A necessidade de agradecer e a conveniência de não aumentar a conta no hotel foram as duas razões que levaram o ex-empregado a ir almoçar com a tia. D. Mônica recebeu-o com o carinho do costume, disse-lhe o que pretendia fazer para empregá-lo de novo e deixou-o nadando em reconhecimento. 

— Ah! minha tia! Quanto lhe devo! 

— Nada me deves, respondeu D. Mônica, só me deves amizade. 

— Oh! a maior! a mais profunda! a mais santa! 

D. Mônica louvou os sentimentos do sobrinho e prometeu fazer por ele tudo o que fosse possível fazer por... por um neto, é o que ela devia dizer: mas ficou na vaga expressão — por uma pessoa cara. 

A situação entrou a parecer melhor ao herdeiro do capitão. Não só via possibilidade de um novo emprego, mas até seria este logo depois da demissão, o que de algum modo lhe reparava o mal feito aos seus créditos de funcionário laborioso e pontual. Além disso D. Mônica fê-lo prometer que não iria comer a outra parte. 

— Terás sempre um talher à minha mesa, disse ela. 

Gaspar escreveu ainda duas cartas a Lucinda; mas ou elas lhe não chegaram às mãos, ou a moça definitivamente não queria responder. O namorado aceitou a princípio a primeira hipótese; Veloso fê-lo acreditar na segunda. 

— Tens razão, talvez... 

— Sem dúvida. 

— Mas custa-me a crer... 

— Oh! é a coisa mais natural do mundo! 

A idéia de que Lucinda o tivesse esquecido, desde que lhe faltara o emprego era difícil de que a admitisse; mas afinal enraizou-se-lhe a suspeita. 

— Se tais fossem os sentimentos dela! exclamava ele consigo. 

A presença da tia fê-lo esquecer tão tristes idéias; eram horas de jantar. Gaspar sentou se à mesa desembaraçado das preocupações amorosas. Preocupações de melhor catadura vieram sentar-se-lhe no espírito: os eternos trezentos contos recomeçaram a sua odisséia na imaginação dele. Gaspar construiu ali mesmo uma casa elegante, mobiliou-a com luxo, comprou um carro, dois carros, contratou um feitor para lhe cuidar da chácara, deu dois bailes, foi à Europa. Chegaram estes sonhos até a sobremesa. Acabado o jantar, viu ele que tinha apenas a demissão e uma promessa. — Na verdade, sou um pedaço de asno! exclamou ele. Pois tenho a fortuna nas mãos e hesito? 

D. Mônica levantara-se da mesa; Gaspar foi ter com ela. 

— Sabe de uma coisa em que estou pensando? perguntou. 

— Em matares-te. 

— Em viver. 

— Pois vive. 

— Mas viver feliz. 

— Já sei como. 

— Talvez não saiba dos meus desejos. Eu, titia...

Ia ser mais franco. Mas depois de encarar o abismo, quase a cair nele, recuou. Era mais difícil do que lhe parecia, aquilo de receber trezentos contos. A tia, porém, compreendeu que o sobrinho voltava a adorar o que havia queimado. Não tinham outro fim todos os seus desvelos. 

Gaspar adiou a declaração mais explícita e sem que com isto perdesse a tia, porque os vínculos se foram apertando a mais e mais, e os trezentos contos de todo se sentaram na alma do moço. Estes aliados de D. Mônica derrotaram completamente o adversário. Nem tardou que ele comunicasse a idéia a Veloso. 

— Tinhas razão, disse ele; devo casar com minha tia e estou disposto a fazê-lo. — Ainda bem! 

— Devo satisfazer o desejo de um morto, sempre respeitável e enfim corresponder aos desvelos com que ela me trata. 

— Perfeitamente. Já lhe falaste? 

— Não; falarei amanhã. 

— Ânimo. 

Na noite desse dia recebeu Gaspar uma carta de Lucinda, em que ela lhe dizia que o pai, vendo-a triste e abatida, e sabendo que era por amor dele, cedera da sua oposição e consentia em que eles fossem unidos. 

— Que cara é essa tão espantada? perguntou Veloso, que estava presente. — A coisa é para espantar. O comendador cedeu... 

— O pai de Lucinda? 

— É verdade! 

— Essa agora! 

— Lê. 

Veloso leu a carta de Lucinda. 

— Na verdade, o lance era inesperado. Pobre moça! Vê-se que escreve com a alma banhada em alegria! 

— Parece que sim. Que devo fazer? 

— Oh! neste caso, a situação é diferente do que era há pouco; os obstáculos da parte oposta caíram por si mesmos. 

— Mas será de boa vontade que o comendador cede? 

— Isso importa pouco. 

— Receio que seja um laço. 

— Laço? Ora essa! exclamou Veloso sorrindo. O mais que podia ser era negar o dote à filha. Mas sempre tens esperança da parte que lhe tocar por morte do pai. Quantos filhos tem ele? 

— Cinco. 

— Uns cinqüenta contos a cada um. 

— Então, parece-te que devo... 

— Sem dúvida. 

(continua...)

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