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#Ensaios#Literatura Brasileira

O subterrâneo do Morro do Castelo

Por Lima Barreto (1905)

A recente descoberta de galerias subterrâneas no morro do Castelo vem mais uma vez provar à evidência não ser de todo destituída de fundamento a crença que, de há séculos, vem alimentando a imaginativa popular.

Prendendo-se por um laço natural à história das riquezas amontoadas, aparece aqui e ali um perfil feminino, um vago perfume de carne moça, o roçagar frufruante de uma saia de mulher que vem dar aos racontos a nota romântica do eterno feminino, indispensável ao interesse de uma lenda que se preza...

Pois o nosso morro do Castelo neste ponto também nada fica a dever aos castelos feudais da Idade Média.

Em meio à papelada arcaica que revolvemos em busca de informações sobre o palpitante assunto, fomos encontrar a história de uma condessa florentino conduzida para o Brasil num bergantim e aqui recolhida ao claustro do Castelo aos tempos da invasão de Duclerc.

A este fato já aludimos de passagem em um dos nossos artigos e agora vamos dar ao leitor a sua narrativa completa.

Trata-se da história de um desses amores sombrios, trágicos, quase medievais, cheirando a barbacã e a castelo ameado; e que, por uma singular capitação histórica, na Idade Moderna, a América do Sul foi teatro.

Não é narrativa de uma dessas afeições do nosso tempo, convencionais e pautadas; é a do desprender de um forte impulso d’alma irresistível e absorvente.

Um velho códice manuscrito em italiano dos meados do século XVIII conta-o; e pela dignidade do seu dizer e pela luz que traz a um ponto obscuro da história de nossa pátria, merecia que, transladando-o para o vernáculo, não o mutilassem em uma forma moderna, que o desvigoraria sobremodo.

Consoantes as altas autoridades filológicas e literárias, ao português Gusmão, ou melhor, de Pitta, coevos com certeza do autor dele, devíamos ir buscar o equivalente de sua fogosa e hiperbólica linguagem; entretanto, não nos sobrando erudição para empresa de tal monta, abandonamos o propósito.

Guardando no tom geral da versão o modo de falar moderno — embora imperfeito para exprimir paixões de dois séculos atrás, aqui e ali, procuramos com um modismo, uma anástrofe, ou com uma exclamação daquelas eras, tingir levemente a narração de um matiz arcaico.

O original é um grosso volume, encadernado em couro. A letra escorre-lhe miúda e firme pelas folhas de papel de linho, resistentes e flexíveis.

A tinta indelével, talvez negra, tomou com o tempo um tom vermelho sobre o papel amarelecido, cor de marfim velho; absolutamente anônimo.

Nenhum sinal, indício, escudo heráldico ou mote denuncia o autor. Não obstante, uma emenda, traços fugazes, fazem-nos crer que a mão que o traçou foi de jesuíta.

Um — nós — riscado e precedendo a expressão — os jesuítas — entre vírgulas, e a maneira familiar de que o códice fala das coisas da poderosa Ordem, levam-nos a tal suposição.

Os leitores julguem pela leitura que vão fazer da crônica intitulada:

D. Garça ou o que se passou em meados do século XVIII, nos subterrâneos dos padres da Companhia de Jesus, na cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, a mui heróica, por ocasião da primeira invasão dos franceses a mando de Clerc.

Como vêem, o título se alonga num enorme subtítulo, e, de acordo com a conveniência do jornal, nós iremos publicando o vetusto palimpsesto encimado unicamente pela primeira parte: D. Garça — elegante alcunha da estranha heroína que o velho cronicou.

Correio da Manhã - terça-feira, 9 de maio de 1905

OS SUBTERRÂNEOS DO RIO DE JANEIRO

O Tesouro dos Jesuítas

Um Caso de Amor

Conforme ontem prometemos ao leitor, iniciamos hoje a publicação da interessante narrativa por nós encontrada entre vetustos papéis referentes à história dos jesuítas do morro do Castelo.

Traduzimo-la, como ficou dito, em português moderno, conservando apenas no diálogo o sabor pitoresco característico daquela época, na impossibilidade de conservá-lo em todo o correr da narrativa.

D. Garça

I

Boas e Novas Más

— Vai-te deitar, Bárbara.

Com o demo, que hoje muito queres transformar às matinas?!...

— Sinhá dona, meu senhor ainda não veio; e o chá?

— Porventura todos os dias esperas Gonçalves para te recolher?

— Não, sinhá dona.

A preta velha, respondendo, ia arrumando cuidadosamente os bilros sobre a almofada das rendas. E, assim que acabou, ergueu-se com dificuldade do assento raso em que estava, e tirou o lenço de Alcobaça, que, em coifa, lhe cobria a cabeça. Antes, porém, de tomar a benção respeitosa, a escrava aventurou ainda algumas palavras:

— Sinhá dona soube que hoje entrou no Rio a frota do reino?

— Soube... e por quê? indagou pressurosa a senhora.

— Talvez meu senhor não viesse cedo por ter ficado com o governador a ajudar o despacho da correspondência das Minas e Piratininga, chegada na frota.

Não é?

— Pode ser... e no que te importa isso?

— Nada, sinhá. Lembrava só.

— Bem. Vai-te deitar, disse então com império à escrava a senhora, descansando sobre a mesa o livro que lia.

(continua...)

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