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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

De resto, o procedimento de Adelaide para com o esposo não mudara. Evaristo continuava sendo o mesmo Evaristo, bom e leal, por vezes de uma ternura lânguida, quase pueril, achando muita razão em tudo quanto ela dizia, tratando-se como noivos.

D. Branca estranhava que eles ainda não tivessem filho, ao menos um morgado para dar que fazer à mamãe...

E aconselhava banhos de mar no Flamengo: — por que não experimentavam os banhos de mar no Flamengo? Um filhinho era indispensável a um casal...

Evaristo ria e jurava, rindo, que no mês seguinte iam começar os banhos ali mesmo na praia de Botafogo.

A propósito de filhos, a mulher do secretário anunciou o batizado da Julínha no primeiro domingo de janeiro. Ia fazer uma festa sem cerimônia, entre pessoas de intimidade.

Evaristo recebeu a notícia com um — oh!... de surpresa. - Muito bem! muito bem! Era preciso batizar a menina... Ele, se tivesse filhos, batizava-os ao nascer. E com ironia:

— Temos, então, a princesa?

— Como, Sr. Evaristo?

— Digo: a princesa há de comparecer à festa.

— Qual o quê! Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo assim?

— Pensei.

— Vai ser a madrinha de minha filha, por procuração; isso bem...

E Evaristo, sempre irônico:

— O imperador é o padrinho...

— Não senhor, não senhor... O padrinho é o Lousada, o velho Lousada. O imperador já é padrinho do Raul.

— Onde estamos nós metidos, Adelaide! exclamou o bacharel, arregalando os olhos. Tudo aqui é principesco, minha senhora!

D. Branca compreendeu o debique, mas atalhou risonha:

— Tudo aqui não é principesco, não senhor! Não queira fazer pouco...

— Eu, fazer pouco? Oh, não se lembre de tal coisa! Principesco é uma maneira de dizer.

— Ah! o senhor é republicano?

— Republicano não: democrata.

— Pois está muito bem arranjado com a sua democracia!

Furtado, que estava lendo o Comércio do Rio, saltou:

— Quem é democrata — o Evaristo?

— Eu, sim...

— Democrata enquanto não conheceres bem o Rio de Janeiro...

— Por quê?

— Ora, por quê! Porque o Rio de Janeiro em globo é monarquista e quem diz monarquista diz aristocrata.

— Não é razão. Se o Rio de Janeiro em globo (quero dizer o município neutro...) é monarquista, eu posso muito bem sair um republicano às direitas.

Furtado abriu numa gargalhada estridente.

— Aonde vens pregar essas teorias, meu caro? Na Corte do Império, e o que é mais, em Botafogo! Ilusões da academia, rapaz, ilusões de estudante de retórica!

— Não senhor, que o partido republicano está ganhando terreno aqui mesmo, na Corte, às barbas d'El-Rei! Fala-se na ida do velho à Europa; o velho está doido, já não pode governar, e o resultado é que...

— É que estás a dizer tolices... A monarquia está guardada por sentinelas da força do barão de Cotegipe, do visconde de Ouro Preto, do João Alfredo e de outros... Cada um desses homens é um obstáculo contra qualquer tentativa de assalto às instituições.

Chegou a vez do bacharel rir, mas rir com gosto, dando pulinhos na cadeira.

— O Cotegipe! (e ria). O Ouro Preto! (tornava a rir). O João Alfredo! No momento psicológico voam todos, como aves de arribação, para Petrópolis!

Desaparecem como por encanto, somem-se na noite do medo...

— É o que pensas. A opinião é deles, o povo não permitirá que eles sejam desacatados.

— O povo! — exclamou Evaristo com voz de trovão. — A que chamas tu povo?

— À população do Rio de Janeiro, à população do Brasil - a treze milhões de almas que adoram o imperador!

— O povo brasileiro não se envolve nisso, meu Furtado; se fôssemos esperar pelo povo, estávamos bem arranjados.

— E então?

— E então, é que a força armada.

Basta de política, basta de política, Sr. Evaristo. Ó Luís, por favor, continua a ler teu jornal - interveio D. Branca. — É favor!

Adelaide correu a tapar a boca do marido com a mão espalmada: — "Não senhor, nada de política!"

E continuou-se a falar no batizado da pequena, sem alusões à princesa, nem ao monarca. A esposa do secretário disse que tinha mandado fazer um vestido para estrear nesse dia — uma toilette simples, de um tecido novo, muito usado em Paris, que A Notre Dame recebera...

Adelaide mordiscou a pelezinha do beiço com tristeza. — Um vestido novo, chegado de Paris!... E ela como se havia de apresentar no dia da festa? Oh, com o seu vestido de provinciana, de mangas compridas e babados! Que vergonha, Santo Deus! O melhor vestido que possuía era o de gorgorão, com que embarcara..., mas estava fora da moda e da etiqueta. Antes nunca tivesse vindo ao Rio de Janeiro...

Quase não dormiu, essa noite, pensando no batizado. À hora de recolher, Evaristo achou-a triste, com um arzinho de choro, descobrindo mesmo uma lágrima vagarosa na face dela. Mas não disse nada. Adelaide continuou a se despir à meialuz do gás, e rolou na cama silenciosamente, de rosto para a parede.

— Ó Adelaide!... — chamou Evaristo, já desconfiado.

A mulher não respondeu.

Adelaide! tornou ele, aproximando-se.

— Que é?... choramingou a rapariga, encolhendo-se. — Olha...

Ela não se moveu.

— Olha!

Mesma posição, mesmo silêncio.

— Olha cá uma coisa.

— Que é?

— Estás chorando? — Não...

(continua...)

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