Por Adolfo Caminha (1894)
Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda à noite. — "Caramba! exclamava o barbeiro de bordo, um estimável espanhol que trazíamos do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gusta más los deI Brasil!" E tinha razão o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipi são muito capazes de dar cabo dum pobre homem. E que medonha orquestração nos ouvidos da gente!
Felizmente na manhã do dia seguinte levantamos ferro.
O navio estava completamente pronto a fazer sua entrada em Nova Orleans. Durante quase toda à noite a guarnição ocupara-se em colher cabos, esfregar a amurada e baldear o costado.
Como passatempo líamos os jornais que o prático trouxera, os quais noticiavam a recepção popular e oficial que se nos preparava.
Dois iates a vapor — o Cora e o Pansy — propriedade de Mr. Morris, largariam de Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de música, comissões de senhoras, representantes do comércio e de outras classes sociais.
Ou fosse a natural afinidade que existe entre as duas nações americanas, ou fosse o fato de ir a bordo do cruzador brasileiro um representante da família imperial do Brasil, o certo é que durante nossa travessia da foz do Mississipi à cidade fomos constantemente saudados de ambas as margens do rio a tiros de espingarda e a lenços que nos acenavam de longe.
E o Almirante seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.
Ao meio-dia ouvimos as notas de uma música alegre que se aproximava, e em breve surgiram numa curva do rio os dois magníficos iates — o Cora e o Pansy — apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de cores variadas, em cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.
De ambos os lados, no cruzador e nos iates, hurras confundiam-se no ar.
Em viva efusão de inexprimível júbilo patriótico estreitavam-se as duas grandes potências da América; a mesma brisa balouçava simultaneamente os dois gloriosos pavilhões.
A gente do Barroso subiu às vergas acelerada, e acenando com os lenços e os bonés, saudava com vivas estrepitosas e delirantes aclamações aos Estados Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarcações partiam ruidosas manifestações ao Brasil.
Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a oficialidade do cruzador brasileiro, em pé no tombadilho, vivamente comovida, descobria-se a todo instante risonha e feliz.
Sentíamos a falta de uma banda de música bem organizada, que naquele momento, verdadeiramente solene, entoasse o hino da república a bordo.
Passado o primeiro momento de delírio, aproximaram-se os dois iates que nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficamos borda a borda. Num instante toda aquela gente, que vinha nos vaporezinhos, passou para o Barroso.
Houve um silêncio respeitoso de parte a parte e começaram os abraços.
O cônsul-geral brasileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendonça, tão conhecido entre nós por seu talento e por sua ilustração, como homem de letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, cônsul em Nova Orleans, foram recebidos no portaló pelo comandante e oficiais com todas as honras que lhes eram devidas. Seguiramse os representantes da imprensa, do comércio, etc.
Conduzidos à câmara, desde logo estabeleceu-se entre brasileiros e americanos uma camaradagem franca, uma corrente comunicativa de afabilidades, como se já fôssemos conhecidos velhos. As taças de champanha chocavam-se, vivas sucediam-se, levantavam-se toasts às duas nações, trocavam-se os mais espontâneos comprimentos.
A viagem continuou ao som da música do Cora e do Pansy.
Às 4 horas da tarde largamos ferro defronte da antiga capital da Luisiana.
CAPÍTULO VII
Nova Orleans é, talvez, a cidade mais importante do sul dos Estados Unidos.
Nosso primeiro cuidado, como era natural, foi desembarcar, "ir a terra", cear bem e dormir tranqüilamente um sono bom e reparador. Não nos faltariam esplêndidos hotéis e magníficos rooms, onde pudéssemos, à vontade, descansar dos trabalhos da viagem.
Nossa demora devia prolongar-se aí mais do que em qualquer outro ponto, por causa da Exposição e a instâncias dos habitantes da cidade, que nos preparavam deliciosas surpresas.
Tínhamos tempo bastante para ver Nova Orleans, para observar os costumes americanos e fazer um juízo mais ou menos aproximado daquele belo povo.
O porto estava atulhado de barcas de comércio — vastas embarcações de dois e três pavimentos, duas e três chaminés negras a deitar fumaça numa atividade constante, rodas na popa, muito mais amplas que as nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de sacas de algodão e outros gêneros do país, esperavam o momento preciso e regulamentar de se fazerem ao largo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. No país dos ianques. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=20929 . Acesso em: 27 mar. 2026.