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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Foi então que o negro, zelosa da sua nova amizade, quis mostrar ao grumete o seu grande poder sobre os outros e té onde o levava esse zelo, esse egoísmo apaixonado, esmurrando implacavelmente o segunda-classe que maltratara Aleixo.

A idéia de que Bom-Crioulo sofrera por sua causa calou de tal maneira no espírito do grumete que ele agora estimava-o como a um protetor desinteressado, amigo dos fracos...

Quando regressou dessa longa viagem ao sul, estava inda mais forte, mais viçoso e mais homem. Era uma massa bruta de músculos ao serviço de um magnífico aparelho humano. No tocante à disciplina mudara também um pouco: já ninguém lhe via certos escrúpulos de obediência e seriedade, perdera mesmo aquele ar, aquela compostura de respeito que o fazia estimado pelos oficiais em Villegaignon, e o distinguia da marinhagem insubmissa e desbriada. A maioria dominara-o positivamente; aquele caráter dócil e tolerante, deixara-o ele no alto mar ou nas terras por onde andara. Agora tratava com desdém os superiores, abusando se esses lhe faziam concessões, maldizendo-os na ausência, achando-os maus e injustos. Uma cousa, porém, ele soubera conservar: a força física, impondo-se cada vez mais aos outros marinheiros, que não ousavam agredi-lo nem brincando. Sua fama de homem valente alargara-se de modo tal que mesmo na província falava-se com prudência no “Bom-Crioulo”. — Quem é que não o conhecia, meu Deus? Por sinal tinha sido escravo e até nem era feio o diabo do negro...

Do transporte em que fizera sua primeira viagem passou a servir num cruzador chegadinho da Europa. Aí a vida não lhe ocorreu muito calma. O comandante, um Varela, capitão-de-mar-e-guerra, severo e inflexível como nenhum outro oficial do seu tempo, homem que não ria nunca, chamou-o a conta um belo dia, e quase o deixou sem fala, simplesmente porque Bom-Crioulo dera com um remo na cabeça de outro marinheiro por uma questiúncula de ofício. Tal foi o seu primeiro castigo depois de quatro anos de serviço. Profundamente magoado, concentrou-se para reaparecer mandrião e insubmisso, cheio de ressentimento, não se importando, como dantes, com os seus deveres, trabalhando “por honra da firma” sem vexame nem sacrifício. — “Tolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse, quer não trabalhasse. — ... que os pariu!”

E ia se fazendo esquerdo, cuidando mais de seus interesses que de outra cousa, passando um mês no hospital e outro mês a bordo, ou em terra, com licença.

CAPÍTULO III

À calmaria equatorial da véspera sucedera, felizmente, uma viração fresca e reparadora, crispando a larga superfície d’água, enchendo as velas e dando a todas as fisionomias um aspecto novo de bom humor e jovialidade.

O céu tinha uma cor azul esverdeada, limpo de nuvens, alto e imenso na eterna glória da luz... Avezinhas de colo branco acompanhavam a corveta, pousando n’água, trêfegas e alvissareiras, misturando sua alegria ruidosa com o surdo marulhar das vagas, num rápido espanejamento d’asas.

Agora, sim, todos regozijavam com a esperança de chegar breve, em paz e salvamento, à Guanabara, lá onde havia sossego e abastança, lá onde a vida corria suave e cheia de tranqüilidade, porque se estava perto da família, defronte da cidade, sem os cuidados de quem anda no alto-mar... E depois já era tempo! Vinte dias a bordejar estupidamente, sem ver um pedaço de terra, uma ilha sequer, passando mal como cão! Já era tempo...

Só uma pessoa desejava que a viagem se prolongasse indefinidamente, que a corveta não chegasse nunca mais, que o mar se alargasse de repente submergindo ilhas e continentes numa cheia tremenda, e a velha nau, só ela, como uma cousa fantástica, sobrevivesse ao cataclismo, ela somente, grandiosa e indestrutível, ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo espírito debatia-se, como um pássaro agonizante, em torno dessa única idéia — o grumete Aleixo, que o não deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente... — Maldita hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações incômodas, ora triste. ora alegre é verdade, porque não há nada firme no mundo, mas enfim, ia-se vivendo... E agora? Agora... hum, hum!... agora não havia remédio: era deixar o pau correr...

E vinha-lhe à imaginação o pequeno com seus olhinhos azuis, com o seu cabelo alourado, com suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador.

Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caísse fogo em brasa do céu, ninguém lhe tirava da imaginação o petiz: era uma perseguição de todos os instantes, uma idéia fixa e tenaz, uma relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo, como se ele fora de outro sexo, de possui-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!...

(continua...)

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