Por Adolfo Caminha (1893)
Nesse tempo moravam na rua de Baixo. Tinha-se mudado tudo: morrera-lhe a mãe, morrera-lhe o pai duma febre, no alto Purus. O Casimiro ninguém dava notícia dele, nunca mais voltara... O Lourenço, esse ela não conhecia — andava no sul feito soldado. Estava só, por assim dizer, numa casa alheia. E, contudo, podia dizer que não tinha tristezas, uma ou outra vez é que se punha a pensar no passado.
Depois que saíra da Imaculada Conceição a vida não lhe era de todo má. Ora estava no piano, ensaiando trechos de música em voga, ora saía a passear com a Lídia Campelo, de quem era muito amiga, amiga de escola, ora lia romances...
Ultimamente a Lídia dera-lhe a ler O Primo Basílio, recomendando muito cuidado “que era um livro obsceno”: lesse escondido e havia de gostar muito. — “Imagina um sujeito bilontra, uma espécie de José Pereira, sabes? o José Pereira, da Província, sempre muito bem vestido, pastinhas, monóculo...”
— Não contes, atalhou Maria, tomando o livro — quero eu mesma ler... Gostaste?
— Mas muito! Que linguagem, que observação, que rigor de crítica!... Tem um defeito — é escabroso demais.
— Onde foste tu descobrir esta maravilha, criatura? — É da mamãe. Vi-o na estante, peguei e li-o.
Maria folheou ao acaso aquela obra-prima, disposta a devorá-la. E, com efeito, leu-a de fio a pavio, página por página, linha por linha, palavra por palavra, devagar, demoradamente.
Uma noite o padrinho quase a surpreende no quarto, deitada, com o romance aberto, à luz duma vela. Porque ela só lia O Primo Basílio à noite, no seu misterioso quartinho do meio da casa pegado à sala de jantar.
Que regalo todas aquelas cenas da vida burguesa! Toda aquela complicada história do Paraíso!... A primeira entrevista de Basílio com Luíza causou-lhe uma sensação estranha, uma extraordinária superexcitação nervosa; sentiu um como formigueiro nas pernas, titilações em certas partes do corpo, prurido no bico dos seios púberes; o coração batia-lhe apressado, uma nuvem atravessou-lhe os olhos... Terminou a leitura cansada, como se tivesse acabado de um gozo infinito... E veiolhe à mente o Zuza: se pudesse ter uma entrevista com o Zuza e fazer de Luíza...
Até aquela data só lera romances de José de Alencar, por uma espécie de bairrismo mal-entendido, e a Consciência, de Heitor Malot publicada em folhetins na Província. A leitura do Primo Basílio despertou-lhe um interesse extraordinário — “Aquilo é que é um romance. A gente parece que está vendo as coisas, que está sentindo...”
Não compreendera bem certas passagens, pensou em consultar a Lídia; sim, a Campelinho devia saber a história da champanha passada num beijo para a boca de Luíza. — Que porcaria! E assim também a tal “sensação nova” que Basílio ensinara à amante... não podia ser coisa muito asseada...
Terminada a leitura do último capítulo, Maria sentiu que não fossem dois volumes, três mesmo, muitos volumes... Gostara imensamente!
No dia seguinte, antes de ir à Escola Normal, Maria teve uma entrevista secreta com a amiga no quintal da viúva Campelo que morava defronte do amanuense.
A Campelinho tinha acabado de banhar-se e estava arranjando umas flores para a Nossa Senhora do Oratório. Da saleta de jantar via-se o quintalzinho, cercado de estacas, estreito e comprido, com ateiras e um renque de manjericões ao fundo, perto da cacimba. Uma pitombeira colossal arrastava os galhos sobre o telhado. O chão úmido da chuva que caíra à noite, porejava uma frescura comunicativa e boa. Lídia estava à fresca, de cabelos soltos sobre a toalha felpuda aberta nos ombros, quando Maria apareceu.
— Boa vida, hein? saudou esta. E logo, triunfante: — Acabei o Primo Basílio!
— Que tal?
— Magnífico, sublime! Olha, vem cá...
E dando o braço à outra dirigiu-se para o “banheiro”, uma espécie de arapuca de palha seca de coqueiro, acaçapada, medonha, sem a mínima comodidade e para onde se entrava por uma portinhola de tábua mal segura.
Uma vez ali, sentadas ambas num caixote que fora de sabão, única mobília do “banheiro”, Maria sacou fora o Primo Basílio, cuidadosamente embrulhado numa folha da Província. Queria que a Lídia explicasse uma passagem muito difusa, quase impenetrável à sua inteligência.
— É isto, menina, que eu não pude compreender bem. E, abrindo o livro, leu: “...e ele (Basílio) quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champanha. Talvez ela não soubesse! — Como é? perguntou Luíza tomando o copo. — Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preza bebe champanha por um copo. O copo é bom para o Colares... ‘Tomou um gole de champanha e num beijo passou-o para a boca dela’, Luíza riu...”, etc., etc...
— Como explicas tu isso?
— Tola! fez a Campelinho. Uma coisa tão simples... Toma-se um gole de champanha ou de outro qualquer líquido, junta-se boca a boca assim... E juntou a ação às palavras.
— ...e pronto! bebe-se pela boca um do outro. Tão simples...
— E que prazer há nisso?
— Sei lá, menina! tornou a outra com um gesto de nojo, cuspindo. Pode lá haver gosto...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.