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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Depois do almoço, padre Antônio fora acompanhado à casa que lhe haviam alugado, por trás da Matriz, e em que agora se achava.

Era uma habitação pequena, mas muito asseada, com um quintalzinho plantado de goiabeiras e de bananeiras, tudo com ar alegre que enchia a alma de bons pensamentos. O Neves Barriga, apesar de condenado a viver ao Urubus, não tinha lá muito mau gosto.

Ao chegarem à sala do jantar, pela porta que dava para o quintal, o vereador João Carlos mostrara o quintal vizinho, e explicara que naquela casa, cujo telhado se avistava por entre as touças de bananeiras, morava uma rapariga, desquitada do marido, uma tal Luísa Madeirense, que se ocupava, para aparentar boa vida, em serviços de engomado. E o capitão Fonseca, intervindo, fizera observar a padre Antônio que da sua sala de jantar fácil lhe era ver, todo o santo dia, a moça a labutar pela vida, indo ao quintal repetidas vezes a estender a roupa ensopada em água de goma a borrifá-la de água pura, a tirá-la da corda para a estender nas bandejas. Depois acrescentara sorrindo:

— Se o Reverendíssimo precisar duma boa engomadeira, lá está à mão a mesma que cuidava da roupa do defunto padre José.

O Valadão, tossindo todo arcado, também atirara a sua pedrinha:

— A vizinhança é uma das comodidades desta casa. O Macário sacristão tem dedo para estas coisas.

Macário, muito sério, protestara, mas padre Antônio fingira não perceber aquelas alusões brejeiras.

Passara todo o dia a receber visitas, e só agora, às três hora da tarde, podia gozar algum repouso, concentrar o espírito e meditar um pouco sobre os materiais objetivos que aquelas longas horas ocupadas lhe haviam acumulado no cérebro.

Estava afinal só; e sentia um grande alivio. Ainda lhe soavam aos ouvidos as vozes banais dos seus paroquianos, cuja solicitude obsequiadora o perseguira desde a chegada até àquele momento em que o último, o mais teimoso, o radiante Macário de Miranda Vale, se resolvera a procurar um quarto para descalçar as botinas. O tanger dos sinos e o estourar dos foguetes haviam cessado de todo, e a vila parecia ter retomado a tranqüilidade morna que devia ser o modo ordinário duma povoação sertaneja. Na rua, em frente ao presbitério ainda passavam vagarosamente alguns curiosos insistentes, erguendo-se sobre os bicos dos pés, para espiar pelas janelas abertas à viração da tarde, esperando avistar o vigário novo ou descobrir alguma coisa interessante na sua modesta vivenda. Mas padre Antônio os evitara, refugiando-se no interior da habitação, no seu quarto, onde, cansado e moído deitou-se na cama.

Pisando pela primeira vez o solo da paróquia onde vinha exercer funções tão elevadas como as de pastorear um povo; achando-se frente a frente, apenas saído do Seminário grande, com o problema prático da vida, precisava reconhecer-se, saber o que faria, de que elementos de coragem e força dispunha, para resolver com sabedoria e acerto a questão que as circunstâncias lhe propunham.

As lutas que sustentara consigo mesmo haviam robustecido a vontade, que sobrepujara o ardente temperamento de campônio livre, disciplinando os instintos egoísticos da carne jovem.

Recordava-se, e a lição que tirava dos fatos firmava-o nessa convicção.

Até entrar para o Seminário levara uma vida livre, solto nos campos, ajudando a tocar o gado para a malhada, a meter as vacas no curral. Montava os bezerros de seis meses e os poldros de ano e meio. Acordava cedo, banhava-se no rio horas inteiras, e depois corria léguas à caça dos ninhos de garças e de maguaris. Satisfazia o apetite sem peias, nem precaução, nas goiabas verdes, nos araçás silvestres e nos taperebás vermelhos, de perfume tentador e acidez irritante.

Exercera imoderada tirania sobre os irmãos pequenos, sobre os escravos e os animais domésticos, sobre as árvores do campo, os pássaros da beira do rio e a pequena caça dos aningais. Trepara aos altos ingareiros, atolara-se na lama dos brejos e dos chiqueiros, espojara-se na relva como um burrico. Escondera-se nos buracos como as lontras dos lagos e as onças das montanhas. Pulara, correra, brincara à sua vontade, saturando-se do sol, de ar, de liberdade e de gozo.

O pai, o capitão Pedro Ribeiro de Morais, pequeno fazendeiro de Igarapémirim, deixara-o crescer a seu gosto, sem cuidar um só instante em o instruir e educar. A mãe, D. Brasília, sempre lhe dera algumas lições de leitura, às escondidas do marido, que não gostava que aperreassem a criança, mas quanto a disciplina e educação nenhuma lhe deram nem podiam dar na pobre fazenda paterna.

Pedro Ribeiro era homem de idéias curtas, e de largos apetites nunca saciados. Em rapaz, segundo contava o Filipe do Ver-o-peso, esbanjara no Pará a pequena fortuna herdada dos pais, de que só lhe restava agora o sítio em que nascera Antônio.

(continua...)

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