Por Domingos Olímpio (1903)
— Hoje é dia santo. Achava bom ires à missa ...
— Já fiz as minhas orações, mãezinha. O meu lugar — Deus me perdoe — é aqui a seu lado, tratando-a, a ver se podemos deixarlogo esta terra.
— O quê!! ... A terra não tem culpa do que padecemos. Admira de pensares ainda em semelhante coisa. Desengana-te, filhinha da minha alma. Havemos de ficar e talvez morrermos aqui, quando Deus for servido ...
— Também, mãezinha, não faz caso dos remédios, que têm custado um dinheirão. Se tomasse de verdade os da receita do doutor Helvécio... Olhe ele quase sarou a mãe da Grabina. Muito mais doente e com moléstia ruim, teria ficado boa, se não se metesse com meizinhas e feitiçarias ensinadas. Pelo menos conseguiu viver muito...
— Porque a hora não era chegada.
—Só queria que melhorasse. Era capaz de carregá-la nas costas, como criança de peito, até à Barra. Tenho visto mulheres, mais franzinas que eu, conduzindo ao colo filhos crescidos, quais rapazes, doentes, ou meio mortos. Tenho fé em Deus que me dobraria as forças para fazermos, em paz e salvamento, a viagem. Depois Alexandre havia de ir conosco e nos ajudaria, ao menos, carregando os nossos teréns ... Pensar que em cinco dias poderíamos estar na praia, livres deste inferno ...
Enquanto tentava demover a mãe a empreender a viagem, a moça torcia as madeixas dos fartos cabelos negros, embebidos d'água, até secarem à pressão de suas mãos, mãos delicadas de mestiça, pequeninas e elegantes. Enrolado no alto da cabeça o cabelo, que ela tratava carinhosamente, passou aos cuidados domésticos matinais: atiçar o fogo, preparar o café e uma sopa com grandes bolachas duras, quebradas em pedaços miúdos.
Nisto ouviu um forte silvo de fadiga. Era Alexandre que chegava, trazendo provisões em um uru, funda bolsa de malha tecida com palhas de carnaúba.
— Bom dia, sra Luzia. Como passou tia Zefinha? — disse em tom prazenteiro. — Deus te abençoe, meu filho! - gemeu a velha com esforço.
— Passei por uma madorra; mas, à primeira cantada dos galos, despertei e não houve meio de tornar a pegar no sono. — Que há de novo? – inquiriu Luzia.
— Ouvi estarem falando, na casa. da Comissão, que o doutor José Júlio deu ordem para facilitar a saída do povo. Quem quiser embarcar deve procurar a Barra ou o Camocim, onde há vapores para conduzir a gente. Quem quiser ficar tem trabalho na estrada de ferro e nos açudes. Mas, assim mesmo, não se pode dar vencimento ao potici de povo, que vem derramado por esse sertão a fora. Disse-me o capitão Marçal que vão principiar as obras do cemitério novo e da estrada para a Meruoca. Já estão engenheiros medindo a ladeira da Mata-Fresca. Era o caso de irmos nos trabalhar na fresca da serra, onde ainda há olhos-d'água vivos. Pelo meu gosto já não estava mais aqui.
— Quem impede? – perguntou Luzia, ocupada em dar a sopa à mãe.
—Ninguém – respondeu Alexandre surpreendido pela inesperada pergunta, feita em tom de indiferença. Ninguém, nada me impede... Mas a gente nem sempre faz o que quer. Muita vez a cabeça vira para um lado e o coração para outro. Quando morreu minha mãe e vi-me só no mundo, estive em termos de assentar praça, porque quando um homem é soldado vira outro, fecha a alma e não se pertence mais. Estava imaginando nisso, em me afastar da terra da sepultura, onde descansava a minha defunta velhinha, quando topei com você, sra Luzia, servindo no trabalho da cadeia. Por sinal que, nessa. ocasião, lembra-se? a maltratavam. Era uma canzoada de mulheres e meninos, gritando: Olha a Luzia-Homem, a macho e fêmea! O povo todo corria de morro baixo e eu também fui ver o que era. Você vinha subindo, trazendo nos braços Raulino Uchoa, quase morto, ensangüentado e coberto de poeira. Contou-me, então, o Antonio Sieba, pai daquela moça bonita, que canta como um canário, o que se havia passado. O Raulino apostara derribar, a toda a carreira, um boi pelo rabo. Na verdade o homem corria como um veado e, era pegar na saia da rês e virá-la, na poeira, de pernas para o ar; mas, naquele dia, foi caipora; falseou-lhe o pé; o boi voltou-se como um gato e mataria o pobre diabo se, dentre o povo, que disparava espantado, não surgisse uma moça afoita e destemida que agarrou o bicho pelas galhadas e o sujicou que nem um cabrito.
— Não valia a pena lembrar isso.
— O capitão João Braga, aquele coração de oiro, mandou recolher o ferido à casa. da administração; e, voltando-se para mim, disse-me: Seu Alexandre aliste esta moça para trabalhar e dê-lhe cinco mil réis como molhadura pelo ato de coragem. Você não quis receber o dinheiro. Ficou até meia estomagada..
— Por força ... Eu não devia receber pagamento pelo que fiz por caridade.
— Eu tomei por soberba. Cem anos que viva, terei sempre diante dos olhos e do pensamento, a sua figura, de cabelos soltos, rompendo a multidão, com o Raulino nos braços, como se fora uma criança. Lembrava-me um registo do Anjo da Guarda, levando a alma de um inocente para o céu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.