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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Às vezes, o doido mudava de rumo e quebrava no ar o murmúrio das cantigas dos pescadores, que estendiam a rede do lado do poente.

E assim vagavam, soltas e desarticuladas no espaço, vozes confusas e disparatadas.

O mais dormia silenciosamente.

A casinha branca parecia, ao luar, embrulhada com frio, num lençol de linha alvo.

A lua aborrecia-se, coitada! no seu eterno isolamento!

CAPÍTULO XIII

Por volta das dez da noite, um barco costeava a ilha pelo lado da praia.

De vez em quando o vento, caprichoso e vadio, trazia de rastro alguns fragmentos de uma bela barcarola, que necessariamente vinha do barco. Eram as noites de uma chorosa rabeca, espécie de harmonia chorada, ou melhor, de pranto harmonioso. O certo é que, música ou pranto, doía à gente ouvir soluçar daquele modo. Se fosse possível fazer do coração um instrumento e tangê-lo, com certeza havia o som de ser o mesmo que então se ouvia.

O barco vinha-se aproximando lentamente da praia, e lentamente ia-se calando o instrumento; daí a pouco paravam ambos, e um vulto de homem, com ares de pescador, soltando o ferro, pojava na areia.

O barqueiro depositou a rabeca sobre um dos bancos de seu barco, conchegou melhor o capote de pescador e, dando alguns passos pela praia, encarou a silenciosa ladeira, frouxamente clareada pelo luar.

Miguel não faltara à entrevista, porém. Temendo vir pela estrada e ter que passar pela porta de Maffei, resolvera entrar pelo fundo, disfarçado em pescador; precauções necessárias para não ser descoberto pelo pai de Rosalina O mar sempre era mais seguro.

Posto em terra, atravessou o espaço, compreendido entre a água e a ladeira, e deitou a subir cautelosamente.

Subiu sempre até encontrar a primeira árvore; aí parou e ficou a escutar.

Era tudo absolutamente silencioso.

Miguel encostou-se ao tronco da árvore e esperou.

Sentia-se mal, o pobre moço! Desde que recebera o bilhete de Rosalina, meditava um meio de salvar a situação, e, por mais que desse voltas à cabeça, nada descobrira.

Agora, prestes a vê-la, encostado à oliveira, com o cotovelo direito na mão esquerda e com a outra escondendo o rosto, fazia castelos magníficos e desfaziaos, com a mesma facilidade. Imaginava as coisas mais absurdas, os projetos mais irrealizáveis.

Lembrava-se de raptar Rosalina, fugir com ela para qualquer parte; ou empregar-se em Rezina, como operário, e especular, como fizera Maffei; ou deixarse morrer; ou matá-la.

Enfim, mil outras idéias deste gênero encontravam-se, debatiam-se, a morderem-se sangrentas, no cérebro molesto do pobre rapaz, como, na mesma pátria, irmãos se devoram e matam em tempo de guerra intestina.

Assim permanecia ele estático, com o rosto escondido na mão esquerda, invejando interiormente a tranqüilidade feliz da natureza, que parecia adormecida a sonhar amores.

— A terra, essa boa mãe — pensava ele — também tem um coração: às vezes parece sofrer, porque geme; sentir alegrias, porque ri; amar, porque soluça; enfim, não podia deixar de ter um coração, porque é mãe.

CAPÍTULO XIV

Enquanto Miguel, encostado à árvore, era todo meditação e cismar, do alto indeciso da ladeira alvejava um vulto trêmulo, cujas roupagens flutuantes se desvaneciam nas sombras transparentes da noite.

O coração do moço estremeceu, como o ferro quando se avizinha o imã: era Rosalina que se aproximava.

Com aquela cega e santa confiança, que as singelas camponesas têm em si, com o desamparo dos corações que não se arreceiam das trevas nem da luz, descia a ladeira, descuidosa, a filha do pescador, procurando descobrir nas sombras o vulto querido do seu amado.

Assim que o divisou, deitou a correr francamente para ele com os braços abertos.

Mais parecia descer voando, que correndo; Miguel com os olhos do coração via-lhe as asas, que a amparavam no vôo.

O vento, repuxando-lhe para trás as saias e os cabelos, contornava-lhe a redondeza correta da cabeça e as curvas voluptuosas e macias do corpo; era como se a mão invisível de um gigante a segurasse por trás, e pouco a pouco a viesse aproximando dos lábios de Miguel.

Nessa ocasião, para ele Rosalina mais que nunca parecia um anjo; para os amantes — vir por cima — é sempre baixar do céu quando se trata do objeto amado.

Era aquilo um descer vertiginoso e quase fantástico: as pedrinhas do chão desprendiam-se e rolavam com ruído até a praia; os belos e adestrados pés de Rosalina corriam pelo solo conhecido, com a facilidade com que deslizam pelo telhado os dedos de um mestre de piano. Atravessando a alameda, ora recebia em cheio o luar pelos claros da folhagem e pelos espaços de entre as árvores, ora se cobria rapidamente de sombra, para reaparecer logo na luz. Miguel correu ao encontro de Rosalina, recebendo-a em cheio nos braços.

Vinha ofegante de cansaço, e nesse estado se abandonava de si, para de todo se entregar negligentemente aos braços do amante.

(continua...)

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