Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

A carta de Manuel pouco adiantava da outra.

— Mas afina! que acha você, compadre?... disse ele, passando a carta ao cônego, depois de a ler.

— Que diabo posso achar?... A coisa esta feita por si.. Deixe correr o barco! Você não disse uma vez que queria entrar em negócio com a fazenda do Cancela? Não há melhor ocasião — trate-a com o próprio dono. mesmo as casas de São Pantaleão convinham-lhe... olhe se ele as desse em conta, eu talvez ficasse com alguma.

— Mas o que eu digo, compadre, é se devo recebê-lo na qualidade de meu sobrinho.

— Sobrinho bastardo, está claro! Que diabo tem você com as cabeçadas de seu mano José? Homessa!

— Mas, compadre, você acha que não me fica mal? .

— Mal por quê, homem de Deus? Isso nada tem que ver com você...

— Lá isso é verdade. Ah! outra coisa! devo hospedá-lo aqui em casa?

— É!... por um lado, devia ser assim... Todos sabem as obrigações que você deve ao defunto José e poderiam boquejar por ai, no caso que não hospedasse o filho... mas, por outro lado, meu amigo, amigo sei o que lhe diga!...

E depois de uma pausa em que o outro não falou:

— Homem, seu compadre, isto de meter rapazes em casa... é o diabo!

— De sorte que...

— Omnem aditum malis prejudica!

Manuel não compreendeu, porem acrescentou:

— Mas eu hospedo constantemente os meus fregueses do interior...

— Isso é muito diferente!

— E meus caixeiros? não moram aqui comigo?...

— Sim! disse o cônego, impacientando-se, mas os pobres dos caixeiros são todos uns moscas-mortas, nós não sabemos a que nos saiu o tal doutor de Coimbra!... Homem, compadre, o melro vem de Paris, deve estar mitrado!...

— Talvez não...

— Sim, mas é mais natural que esteja!

E o cônego intumescia a papada com certo ar experimentado.

— Em todo caso... arriscou Manuel, é por pouco tempo... Talvez coisa de um mês...

E sopeando a voz discretamente com medo: Além disso... não me convinha desagradar o rapaz... Sim! tenho de entrar em negócio com ele, e... isto cá para nós... seria uma fineza, que me ficava a dever... porque enfim... você sabe que...

— Ah! interrompeu o cônego, tomando uma nova atitude. Isso é outro cantar!... Por ai é que você devia ter principiado!

— Sim tornou Manuel. com mais animo. Você bem sabe que não tenho obrigação de estar a moer-me com o nhonhô Mundico... e, se bem que...

— Pchio!... fez o padre, cortando a conversa, e disse: - Hóspede o homem!

E saiu da saleta, revestindo logo o seu pachorrento e estudado ar de santarrão.

Ao chegarem à varanda Ana Rosa, já em trajes de passeio, os esperava para sair toda debruçada no parapeito da janela e derramando sobre o Bacanga um olhar mole e cheio de incertezas.

— Então, sempre te resolveste, minha caprichosa?... disse o pai.

E contemplava a filha, com um risinho de orgulho. Ela estava realmente boa com o seu vestido muito alvo de fustão, alegre, todo cheirando aos jasmins da gaveta: com o seu chapéu de palhinha de Itália emoldurando o rosto oval, fresco e bem feito com o seu cabelo castanho, farto e sedoso, que aparecia em bandós no alto da cabeça e reaparecia no pescoço enrodilhado despretensiosamente.

— Tinhas dito que não ias... — Vá se vestir, papai.

E assentou-se.

— Lá vou! Lá vou!

Manuel bateu no ombro do cônego:

— Meto-lhe inveja, hein, compadre?.. Olhe como o diacho da pequena esta faceira, não é?

— Ne insultes miseris!

— Quê?... interjeicionou o negociante, olhando para o relógio da varanda.

Quatro e meia! E eu que ainda tinha de ir hoje tratar do despacho de um açúcar!... E foi entrando apressado no quarto, a gritar para o Benedito “que lhe levasse água morna para banhar o rosto”.

O cônego assentou-se defronte de Ana Rosa.

— Então onde é hoje o passeio minha rica afilhada?

— À casa do Freitas. Não se lembra? Lindoca faz anos hoje.

— Cáspite! Temos então peru de forno!..

— Papai fica para o jantar... vossemecê não vai dindinho?

— Talvez apareça à noite... Com certeza há dança...

— Hum-hum... mas creio que o Freitas conta com uma surpresa da Filarmônica.. disse Ana Rosa, entretida a endireitar os folhos de seu vestido com a biqueira da sombrinha.

Nisto ouviram-se bater embaixo as portas do armazém, que se fechavam com grande n ido de fechaduras, e logo em seguida o som pesado de passos repetidos na escada. Eram os caixeiros que subiam para jantar.

Entrou primeiro na varanda o Bento Cordeiro. Português dos seus trinta e tantos anos arruivado, feio de bigode e barba a cavanhaque Gabava-se de grande prática de balcão chamavam-lhe “Um alho”. Para aviar encomendas do interior não havia outro! Cordeiro “metia no bolso o capurreiro mais sabido”.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →