Por Aluísio Azevedo (1895)
E minha filha será, como é minha mulher, uma virtude inquebrantável, um espírito orgulhoso e forte, que resista às tentações de procurar fora de casa a felicidade que o casamento lhe terá prometido e não lhe terá dado; ou, impelida pelo fastio da vida conjugal, irá refugiar-se nas criminosas ilusões de novas crises de amor; nessa espécie de falsificadas luas-de-mel, que a mulher adúltera inventa fora do lar doméstico, porque vê que neste não poderá nunca, nunca mais, obter a reprodução da lua-de-mel verdadeira e legítima?
E, admitindo mesmo a melhor hipótese, admitindo que Palmira herde da mãe a energia e a honestidade do caráter e o rigoroso equilíbrio do temperamento, será justo deixar que ela passe pelas mesmas provações e sofra as mesmas dúbias e lentas infelicidades que eu observo e estudo em Olímpia, e que me enchem de compaixão por ela e de revolta contra mim mesmo e contra estes meus ingratos e miseráveis sentidos? Pois será esse o belo futuro que eu preparo para minha querida filha? Destiná-la a servir de instrumento de tédio a um marido, que não será talvez tão resignado como eu e que não consiga amá-la como eu amo minha mulher? Condená-la a ser, por toda a melhor parte de sua vida, nada mais do que um ludibriado receptáculo de fingidas carícias? condená-la, coitadinha! a apagar com os seus beijos castos o fogo de inconfessáveis desejos, criados por outras mulheres, cuja única superioridade sobre ela será a de não serem casadas com o homem que for seu marido? E, se este não tiver o meu gênio e não conseguir arrancar de si os artifícios de delicadeza, que eu mantenho para com minha mulher, terei eu o direito de acusar minha filha, no caso que se desvie da linha inflexível dos seus deveres, e procure fora do tedioso matrimônio os regalos exigidos pela sua mocidade e pelos reclamos que, no seu sangue, pôs a natureza para garantia da espécie e segurança da intérmina cadeia da vida? Se assim acontecer, terei o direito de amaldiçoá-la; terei o direito de castigá-la com o meu desprezo e com o meu abandono?
E não será mais odioso crime punir semelhante desgraça, com outra desgraça ainda maior para ela? Para ela e para mim, e para minha esposa; pois que — deserdar qualquer filha do amor de seus pais — é sem dúvida para essa infeliz um tremendo martírio, porém nunca tão grande e tão doloroso como para os desgraçados que o infligem!”
Eis aí fica uma sincera página, escrita por meu marido, antes da nossa crise das contendas e disputas que nos desuniram para sempre. Calculo quanto não teria ele sofrido mais tarde, pensando no destino de nossa filha e reconhecendo que nem ele próprio, que se considerava tão seguro na sua resignação conjugal e tão firme na sua energia para conter as revoltas do tédio, pudera evitar a explosão nervosa e o fatal rompimento, que nos arredaram, a ele de Palmira, a mim do meu pobre filho! Como meu marido devia ter sofrido longe dela, coitado!
Mas a semente do seu amor paternal foi recolhida pelo meu coração de mãe, e já vingou, e há de crescer, florir e dar bons frutos!
Sim, meu infeliz irmão, se lá no duvidoso mundo, para onde voou teu nobre espírito, acompanha-te a mágoa do destino que terá nossa filha, e se guardas nessa outra vida memória dos que nesta te amaram, põe a larga o coração, porque estarei ao lado dela para evitar-lhe os escolhos, em que comigo naufragaste; estarei a seu lado, vigiadora e fiel, para preservá-la do mal que nos separou, e para dar-me toda inteira, de corpo e alma, para sempre à conquista de um meio de a fazer feliz! Jurote que nossa filha não passará pelas mesmas angústias por que passei, nem resvalará em nenhum dos muitos modos de ser da prostituição!
Não! Palmira não terá a desgraça de ser uma esposa adúltera e desprezível, nem será também uma vítima ridícula da sua própria virtude, privada, na idade do amor sexual, dos direitos e dos gozos que a natureza conferiu a cada uma das suas criaturas; nem será tampouco, como eu fui, a esposa mãe, cujos beijos do marido nada mais eram que os restos frios do seu amor paterno! Não! minha filha há de amar e ser dignamente amada, com todo o ardor, com todo o entusiasmo, com toda a grande e próspera volúpia de que é capaz o verdadeiro amor! E não somente durante o noivado, mas sempre, por toda a vida, todos os dias e todos os instantes. Minha filha há de ser feliz!
CAPÍTULO V
Jurara pois a mim mesma, e à memória de meu marido, que minha filha seria feliz. Mas como realizar esse ideal?
Eis a questão. Vejamos:
Dar-lhe um marido, quando chegasse à idade do amor?...
Mas, se o meu, que fora tão bom, tão leal, e tão justo, não conseguira proporcionar-me a felicidade?
Dar-lhe um amante?
Mas, sobre ser, debaixo do ponto de vista social, imoralíssimo o fato, em que poderiam afinal consistir as vantagens de um amante sobre um marido?
Não seria o amante nada mais do que um marido ilegítimo, que trouxesse à mulher todas as desvantagens domésticas do casamento e nenhuma das suas vantagens sociais?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.