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#Anedotas#Literatura Brasileira

O caminho de Damasco

Por Machado de Assis (1871)

Jorge não acreditou que a pessoa de quem se tratava houvesse morrido, segundo dizia o padre.

— Mas se morreu, objetou ele, que mal há em dizer-me o nome dela? Espere... trata-se... querem ver... que essa moça é... Clarinha?

O padre abanou a cabeça.

— Não, não me engano, disse consigo o estróina, é ela!

— Não importa saber quem seja, disse Barroso; voltemos ao nosso ponto; o que lá vai, lá vai. Prometeu-me já emendar-se; está disposto a emendar-se?

Jorge teve o pudor de não repetir uma promessa que não estava disposto a cumprir; mas estendeu-lhe a mão com um gesto que parecia corresponder à pergunta do padre.

— Deus o ilumine, disse este. Vamos, faça que eu não morra sem o ver reabilitado. Fui eu que o batizei; não me deixe morrer com a idéia de que não pude salvar pela segunda vez uma alma que me foi confiada.

O padre disse estas palavras com paternal brandura, Jorge correspondeu a elas com uma aparência de humildade. Estava ansioso por sair. Despediu-se e saiu.

VII

BATALHA CAMPAL

Não saiu convertido, como pensava o austero velho; os conselhos e as promessas não lhe deixaram vestígios na memória. Dentre tudo o que lhe havia dito o padre Barroso, uma coisa flutuava no espírito de Jorge: era a idéia de que a Clarinha o amara. Se lho houvessem dito noutro tempo, é provável, é quase certo que Jorge levantaria os ombros e iria contar o caso aos amigos mais íntimos. Ser amado por ela, queria dizer um casamento, uma vida menos solta, obrigações sérias, coisas que Jorge achava inconciliáveis com a sua razão. Mas agora mudava o caso de figura; a idéia de que uma senhora casada o havia amado em solteira, abria aos olhos de Jorge uma perspectiva de esperanças e dava à sua vida um aspecto novo.

— Na verdade, dizia ele consigo, esta vida já me enfada. É bom descansar um pouco; achar-lhe-ei depois mais sabor. Um amor de romance tem toda a vantagem de ser uma coisa nova para mim. A Clarinha amou-me; quem sabe se me não amará ainda? Nestas e outras reflexões do mesmo teor, gastou Jorge a noite inteira. Meter-se numa aventura de romance, apaixonar-se pela prima, tinha até a vantagem de lhe dar aparências de reabilitação, pois forçosamente havia de consagrar a isso o tempo que era agora aplicado às loucuras da mocidade.

Com estas idéias, acordou no dia seguinte. Achou o pai ainda severo; e para começar a ilusão que premeditava não saiu de casa nesse dia. Recolheu-se ao gabinete, onde a mãe o foi encontrar a ler. Desse dia em diante, adotou um programa de vida, que de todo ponto iludiu a família e o padre. Silvestre recobrava a alegria que o sucesso do teatro lhe fizera perder, enquanto o padre, cheio de sincero regozijo, perdoava de coração as loucuras do rapaz. A felicidade ia renascendo naquela casa.

Até então, quando Clarinha ia visitar os tios não encontrava o primo em casa, o que era para ela uma grande felicidade. A primeira vez que lá foi, depois dos acontecimentos que acabo de referir, não só o achou em casa, mas até lhe pareceu mudado o tom das relações entre ele e os pais. Antes falavam dele com lástima, agora rejubilavam-se ao pé do filho pródigo. Marques não hesitou em manifestar o seu pasmo ao vê-lo restituído ao lar doméstico.

— Que quer? respondeu Jorge; estou curado.

— Para sempre?

— Para sempre.

Marques alegrou-se com esta alteração inesperada. Não pensou assim Clarinha, que vira na presença de Jorge um obstáculo às suas relações com os tios, não porque ainda o amasse, não porque temesse por si, mas porque ele era uma recordação viva de um passado ainda recente.

Jorge adquiriu hábitos de dissimulação que não diziam com a sua idade ainda verde. Houve-se, em relação à prima, apenas com a afabilidade ordinária; mas nem por gestos nem por palavras manifestou o menor conhecimento ou suspeita do amor que ela lhe tivera.

Não lhe escapou, entretanto, a reserva de Clarinha, a comoção que a sua pessoa lhe causava, vagos indícios de que realmente o amara antes de casar com o médico.

— Muito bem, doutor, dizia Jorge consigo; eis-te entrado em nova e melhor campanha. Até aqui tudo foram escaramuças e recontros. Ofereço-te a batalha campal: é necessário vencer ou morrer.

Jorge começou a freqüentar a casa do médico; Clarinha, ao princípio, não lhe aparecia; mas o primo era sagaz e astucioso; deu-se um dia por convidado a jantar. A moça não pôde deixar de lhe aparecer. A reserva continuou por parte dela, mas era difícil conservá la diante das maneiras respeitosas, da linguagem afetuosa do rapaz. O pecador parecia arrependido e glorificado no céu.

De mais, Clarinha fez um raciocínio singular e perigoso, conquanto nascesse da sua consciência honrada e pura. Imaginou que este fugir ao primo era uma prova de fraqueza, um receio vergonhoso, e que mais servia os deveres conjugais afrontando a pessoa que amara do que fugindo-lhe. Fugir-lhe era reconhecer um resto de poder que ela vira estar já extinto.

(continua...)

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