Por Aluísio Azevedo (1895)
E, muito loquaz e vário, passou logo a falar dos colégios europeus, do modo pelo qual aí se tratavam entre si os estudantes, dos modos de brincar, de estudar em comum, do modo, enfim, pelo qual se protegiam e estimavam.
André o escutava, sem dar uma palavra, mas patenteando no rosto enorme interesse pelo que ouvia.
Era a primeira vez que se achava assim, em comunicação amistosa com um seu semelhante; era a primeira vez que alguém o escolhia para confidente, para íntimo. E sua alma teve com a surpresa deste fato o mesmo gozo de impressões que experimentara ainda há pouco o seu paladar com os saborosos doces até aí desconhecidos para ele. E o Coruja, a quem nada parecia impressionar, começou a sentir afeição por aquele rapaz, que era a mais perfeita antítese do seu gênio e da sua pessoa.
Quando Salustiano veio abrir-lhes a porta à hora do jantar, encontrou Teobaldo de pé, a discursar em voz alta, a gesticular vivamente, defronte do outro que, estendido na cadeira, toscanejava meio tonto.
- Então? exclamou o homem das barbas longas. - Que significa isto?
- Isto quê, ó meu cara de quebra-nozes? interrogou Teobaldo soltando-lhe uma palmada na barriga.
- Menino! repreendeu o homem; não quero que me falte ao respeito!
- E um pouco de Madeira, não queres também?
- O senhor bem sabe que aqui no colégio é proibido aos alunos receberem vinho.
- Para os outros, não duvido! Eu hei de receber sempre, se não digo ao velho que não empreste mais um vintém ao diretor.
- Não fale assim... O senhor não se deve meter nesses negócios.
- Sim, mas em vez de estares aí a mastigar em seco e a lamber os beiços, é melhor que mastigues um pouco de requeijão com aquele doce.
- Muito obrigado.
- Não tem muito obrigado. Coma!
E Teobaldo, com sua própria mão, meteu-lhe um doce na boca.
- Você é o diabo! considerou Salustiano, já sem nenhum sinal de austeridade. E, erguendo a garrafa à altura dos olhos: - Pois os senhores dois beberam mais de meia garrafa de vinho? !.
André ao ouvir isto, começou a rir a bandeiras despregadas, o que fazia talvez pela vez primeira em sua vida.
Pelo menos, o fato era tão estranho que tanto Salustiano como Teobaldo caíram também na gargalhada.
- E não é que estão ambos no gole?... disse homem, a cheirar a boca da garrafa e, sem lhe resistir ao bom cheiro, despejou na própria o vinho que restava.
- Que tal a pinga? perguntou Teobaldo.
- É pena ser tão mal empregada... responde o barbadão a rir.
- Este Salustiano é um bom tipo! observou o menino, enchendo as algibeiras de frutas e doces.
- Ora, quando o diretor não pode com o senhor eu é que hei de poder...
E, querendo fazer-se sério de novo:
- Vamos! Vamos! Aviem-se, que está tocando a sineta pela segunda vez!
- Não vou à mesa, respondeu Teobaldo - daqui vou para o jardim; diga ao doutor que estamos indispostos. E, voltando-se para o Coruja.
– Oh! André! toma conta de tudo isso e vamos lá para baixo ouvir a flauta do Caixadóculos.
V
Desde então os dois meninos fizeram-se amigos.
Foi justamente a grande distância, o contraste, que os separava, que os uniu um ao outro.
As extremidades tocavam-se.
Teobaldo era detestado pelos colegas por ser muito desensofrido e petulante; o outro por ser muito casmurro e concentrado. O esquisitão e o travesso tinham, pois, esse ponto de contato - o isolamento. Achavam--se no mesmo ponto de abandono, viram-se companheiros de solidão, e é natural que se compreendessem e que se tornassem afinal amigos inseparáveis.
Uma vez reunidos, completavam-se perfeitamente. Cada um dispunha daquilo que faltava no outro; Teobaldo tinha a compreensão fácil, a inteligência pronta; Coruja o método, e a perseverança no estudo; um era rico; o outro econômico; um era bonito, débil e atrevido; o outro feio, prudente e forte. Ligados, possuiriam tudo.
E, com o correr do ano, por tal forma se foram estreitando entre os dois os laços da confiança e da amizade, que afinal nenhum deles nada fazia sem consultar o camarada.
Estudavam juntos e juntos se assentavam nas aulas e à mesa.
Por fim, era já o André quem se encarregava de estudar pelo Teobaldo; era quem resolvia os problemas algébricos que lhe passavam os professores; era quem lhe arranjava os temas de latim e o único que se dava à maçada de procurar significados no dicionário Em compensação o outro, a quem faltava paciência para tudo isso, punha os seus livros, a sua vivacidade intelectual à disposição do amigo, e dividia com este os presentes e até o dinheiro enviado pela família, sem contar as regalias que a sua amizade proporcionava ao Coruja, fazendo-o participar da ilimitada consideração que lhe rendia todo o pessoal do colégio, desde o diretor ao cozinheiro.
De todas as gentilezas de Teobaldo, a que então mais impressionara ao amigo foi o presente de uma flauta e de um tratado de música, que lhe fez aquele volta de um passeio com o diretor do colégio.
Coruja trabalhava à sua mesa de estudo quando o outro entrou da rua.
- Trago-te isto, disse-lhe Teobaldo apresentando-lhe os objetos que comprara.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.