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#Contos#Literatura Brasileira

O Teles e o Tobias

Por Machado de Assis (1866)

Jerônimo Gouvêa (primo de um cunhado da mulher do chefe de polícia da província).... 57 votos.

Anselmo (redator do Azorrague).... 56 votos.

Caio Barroso (filho do general das armas).... 55 votos.

Quando este resultado foi proclamado, houve uma gritaria geral. Alfredo Teles, ajudado pelo pai, queria turvar águas, e tinham já dado de olho a alguns capangas, para agredirem a mesa, destruírem as listas e os papéis todos, talvez mesmo o presidente, e anular deste modo a eleição.

Quos vult perdere Jupiter dementat. Chico Teles estava azafamado, passava a palavra aos capangas, e já ia começar a barafunda, quando um oficial de polícia, às ordens de Tobias, pôs-lhe a mão em cima, e foi levá-lo à presença do adversário.

Quando Manoel Tobias viu diante de si o famoso Chico Teles, fulo de raiva e de humilhação, não pôde conter um sorriso de satisfação. O oficial expôs-lhe o caso, Chico Teles protestou, dirigindo algumas palavras injuriosas ao juiz de paz. Este levantou-se com o lábio trêmulo, e gritou:

— Levem-no para a cadeia!

A estas palavras levantou-se uma grita horrenda: protestos, reclamações, vivas, morras, tudo isso temperado por alguns sopapos anônimos e cachações invisíveis.

Mas Tobias persistiu na sua ordem, e Chico Teles saiu dali para a cadeia, gritando contra os abusos de autoridade, a ira dos tiranos, e a imolação dos direitos e liberdades, palavras todas que os prelos da Atalaia já estavam cansados de imprimir.

Alfredo Teles fazia coro com o pai.

Tobias saiu triunfante e dirigiu-se para casa no meio de uma ovação. Mas, ai! lá o esperavam grandes dores.

Elisa Tobias, como os leitores da Semana sabem,3 tinha sido raptada, na véspera, por Alfredo Teles, e dera ordem a um escravo de nada dizer a seu pai, senão depois da eleição. Quando Manoel Tobias chegou à casa achou tudo em alvoroço.

— A menina desapareceu, diziam todos.

Tobias caiu em uma cadeira.

Tinha achado a rocha Tarpéia ao lado do Capitólio.

Entretanto, convinha obrar e não lamentar-se. Manoel Tobias indagou da hora em que se dera o desaparecimento, e como era natural, atribuiu a Alfredo a cumplicidade do fato.

Quis mandar buscar o rapaz debaixo de vara; mas ocorreu-lhe que já entrara muito pela via do arbítrio, e resolveu-se ir ele próprio falar ao filho do seu contendor. Alfredo estava em casa, e preparava um artigo furibundo para a Atalaia, cuja redação em chefe assumiu, quando lhe anunciaram a visita de Manoel Tobias. Mandou-o entrar.

— Que me quer V. S.? disse ele apenas viu o juiz de paz.

— Venho saber o que é feito de minha filha?

— Não sei.

— Não sabe! Mas eu sei... Há de dizer-me onde ela está, ou eu mando-o fazer companhia a seu pai na cadeia.

Estas últimas palavras foram um raio de luz para Alfredo Teles.

— Eu sei onde ela está.

— Ah! sim! Onde é?

— Oh! isso não! Ela por ele: a filha pelo pai; entrego-lhe Elisa, mas V. S. há de passar já o mandado de soltura do sr. Chico Teles, meu pai.

— Mas isso!...

— É se quiser.

CAPÍTULO IX

Tobias estremecia a filha; quis resistir, mas não pôde. Passou ordem de soltar Chico Teles, mas guardou-a no bolso, à espera da declaração de Alfredo. Este foi leal e disse onde se achava a moça. Tobias entregou o papel ao rapaz.

Nisto entrou um rapaz trazendo café. Alfredo ofereceu uma xícara a Tobias, que aceitou; saborearam o moca conversando tranqüilamente.

Não pareciam já os adversários da véspera.

Finalmente, Tobias saiu para ir buscar a filha, e Alfredo para ir buscar o pai. Uma vez solto, Chico Teles voltou para casa, encerrou-se nos seus aposentos e entrou a ver por que meios estrondosos tiraria a sua desforra. Lembrou lhe um: fazer um relatório circunstanciado das últimas ocorrências, assinado por grande número de pessoas e mandá-lo ao ministério.

Entretanto Manoel Tobias foi à fazenda de sua irmã, onde se achava Elisa. A moça, quando viu o pai, enfiou; este declarou positivamente que ela voltaria para casa; a tia protestou; Tobias gritou; Elisa, depois de ouvir tudo, tomou a palavra, e disse estar disposta a não ir para casa senão casada com Alfredo Teles.

Debalde Manoel Tobias desenvolvia a sua lógica, para mostrar as inconveniências políticas de semelhante casamento; Elisa persistia nos seus propósitos, acrescentando que, no caso de não casar com Alfredo, possuía um meio fácil e rápido de terminar a existência.

Manoel Tobias saiu desesperado.

Chegando à casa, escreveu carta sobre carta, fez circular o boato de que estava doente: mas a nada disso movia-se a filha — até que o pobre juiz de paz mandou um recado a Alfredo, dizendo que lhe fosse falar.

Quem recebeu o recado foi Chico Teles, que respondeu negativamente ao portador.

A esse tempo, porém, Elisa, que não dormia, tinha escrito ao namorado, e desde a véspera que este se achava na fazenda.

(continua...)

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