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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Almada

Por Machado de Assis (1858)

Isto dizendo, da cadeira a custo

A barriga levanta o reverendo;

Todos o imitam logo, e sobre a mesa

Alçam as mãos e juram de vingar-se

Do presumido Mustre; e porque a empresa

Novos brios pedia, em pouco tempo,

Com raro esforço, toda a mesa varrem.

XX

Entretanto, afiando à porta o ouvido,

Longo tempo escutara o moço Vasco

As deliberações do grão conselho,

E receoso da tremenda guerra

Que dali certamente nasceria,

Pondo em risco talvez sua pessoa,

Entra pálido e trêmulo na sala.

XXI

Ao vê-lo demudado, os circunstantes

Estremecem de susto. Qual receia

Que o Mustre, sabedor do que se passa,

A suas Reverências um processo

Instaurara de pronto. Qual cogita

Que cem homens de tropa os têm cercados

E ouve já na escaldada fantasia

Ranger nos gonzos a medonha porta

Do cárcere perpétuo. Tu somente,

Vilalobos, e tu, Cardoso forte,

O coração pacífico tivestes,

E a frieza imitastes do prelado.

XXII

“Ruins novas trazeis, ao que parece,

Vasco! (o tio lhe diz); e suspirando

O moço lhe responde: “Novas trago

E penosas, senhor. Sabei que o monstro,

A causa principal do triste opróbrio.

O autor de tantos e tamanhos males,

Único eu sou. Meu atrevido braço

Armou os vossos servos; é seu crime

Verdadeiro, e fui eu. . .” Calara o resto,

Algum tanto vexado, mas o tio,

Contraindo as grisalhas sobrancelhas

Com que faz abalar toda a família,

Nestas ásperas, vozes, logo rompe:

“Que! um crime! Houve um crime!

E qual? e quando? E por que causa?”

– “A causa era a mais pura: Amor...”

XXIII

A tais palavras o auditório

De boca aberta fica, mal ousado

Acreditar em tanto atrevimento

E curioso de saber o resto.

Mais que todos os outros, Veloso

Interrogar quisera o moço Vasco;

Contudo nada diz, que a regra é sua

Sondar primeiro ao ânimo ao prelado,

De quem copia sempre catadura

E é turvo se ele é turvo; a alegre, alegre.

XXIV

“Ora pois! fosse a causa amor ou ódio

(O tio diz) importa nada ao caso.

Nem por isso uma linha só recuo

Do meu procedimento. Desejara,

No entanto, a historia ouvir do teu delito.

Esta grave assembléia certamente

Preferira entreter-se de outras cousas

Mais chegadas à nossa dignidade

E santa condição; mas não importa;

Um dia não são dias, e é de jeito

Que instruamos de todo este processo”.

lsto dizendo, a uma cadeira vaga

Que defronte lhe fica, estende o dedo.

Vasco obedece. A douta companhia,

Que ansiosa esperava aquele instante,

As cadeiras arrasta procurando

Idônea posição para escutá-lo.

Enche os copos Anselmo e se retira.

XXV

Prontos à escuta, emudeceram todos

E o moço começou : "Mandais-me, ó tio,

Que a lembrança renove do namoro

Infeliz, e a ridícula aventura

Em que fui grande parte. Ora vos conto

O misterioso caso da assuada.

Que essas estrelas curiosas viram,

Certa noite de amores encobertos

Em que um rival do amargo seu triunfo

A pena teve, e causa foi da afronta

Que hoje padece Vossa Senhoria .

.............

............................................................

Neste ponto o prelado, desejoso

De disfarçar o natural vexame

Que a narração mundana lhe fazia,

Da profunda algibeira a caixa arranca

Do tabaco, abre-a, tosse, esfrega os dedos,

E uma grossa pitada apanha e funga.

O perspicaz conselho o imita logo;

Aventam-se as bocetas; os obséquios

Trocam-se mutuamente os convidados;

Qual de uma vez na larga venta insere

O precioso pó; qual o divide

Benévolo entre as duas; e coos lenços

Os reverendos [palavra ilegível] sacudidos,

Deste modo prossegue o moço Vasco:

..........................................................

..................................

CANTO V

I

Já nas macias, preguiçosas camas

Santamente roncava o grão conclave,

Quando, em frente da mesa, carregada

De volumes, papel, e tinta e penas,

O douto Vilalobos se assentava,

Isto vendo, a Preguiça, que o mais dócil

Dos seus alunos no vigário tinha,

As formas adelgaça, o colo estica,

Afila os dedos, o nariz alonga,

E as feições copiando do escrevente,

Busca o vigário, e do âmago do peito

Molemente esta fala arranca e solta:

“Senhor, que grande novidade é esta?

Pela primeira vez, depois das nove,

Esquece-vos colchão e travesseiro,

Que essas valentes e cevadas formas

Com tanto amor criaram? Que motivo

Apartado vos traz da vossa cama?

Porventura, esse cargo precioso

Que tão alto vos pôs nesta cidade

Não vos dá jus a regalar o corpo

Coas delícias do sono? Que seria

Dos empregos mais altos deste mundo

Se não fossem razão de boa vida?

E que lucrais, corri essa guerra?

A vaidade abater de um insensato,

Todo cheio de ventos e fanfúrrias?

Mais do que ele valia Mitridates

Que Luculo bateu; mas quem se lembra

Do forte vencedor do rei do Ponto,

Quando nele contempla o mais conspícuo

Dos grandes mandriões da antiguidade,

Que mais soube comer que Roma inteira?

Deixai lá que se esbofe a inculta plebe

No vil trabalho com que compra a ceia;

Um homem como vós não se afadiga,

Come e ronca, senhor, que o mais é nada.”

II

“Não, amigo (responde-lhe o vigário

Com benévolo gesto, e todo cheio

Dos elogios); não, esta campanha

Tão mesquinha não é, nem tão mofino

O insolente rival. Tolo é, decerto,

E presunçoso; acresce-lhe mordê-lo

Uma inveja cruel do nosso Almada.

Débil não é quem vícios tais reúne.

(continua...)

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