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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Esta transição desconcertou um tanto o pobre namorado.

— Então?! disse ele afinal; em que pensa?...

— É o diabo... resmungou a bonita viúva, como se falasse só consigo. E o diabo!...

— O diabo o quê?... perguntou Gregório com o ar muito infeliz.

— Você tem vinte anos e eu tenho mais de trinta!

— Oh! exclamou ele.

— Oh! não! protestou ela; você no fim de contas é uma criança e eu sou mais que uma mulher!...

— Lá vem a mania de chamar-me criança!

— Mas se é!

— E quer responsabilizar-me por uma falta de que não sou culpado?!

— Culpada seria eu se não pensasse um pouco!

— Júlia!

— Não! Não!

— Meu amor!

— Então?!

— Eu te adoro!

— Tenha juízo!

— Tu me pões louco!

— Mas contenha-se, ou chamo a criada!

— Julinha!

— Solte-me o braço! Pior! Não faça cócegas!

Mas Gregório não respeitou a ordem; e Júlia, sem poder sustentar a sério, abriu a rir, a rir muito, a torcer-se toda nas mãos do rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem forças para nada, a chorar de riso, nervosamente, sem poder falar. E tudo felizmente acabou em pura galhofa.

CAPÍTULO IV

CORAÇÃO DE MULHER

Entre a cena pitoresca das cócegas e a sensaborona e triste cena do frustrado casamento de Gregório, medeia o período dos amores deste com a simpática viúva da Tijuca. Foram dois belos anos, durante os quais o amor teve tempo para percorrer toda a órbita do seu caprichoso sistema planetário, fazendo, já se sabe, as cabriolas que o endemoninhado costuma dar sempre que se apanha em revolução.

Dois anos! Oh! nesse lapso o amor tem tempo para muita coisa! Com as asas de que dispõe, pode ir ao zênite da paixão, pairar um pouco no espaço e precipitar-se afinal no pélago morno da indiferença e do tédio.

Todavia, se isto era aplicável a Gregório, não o era certamente à outra parte interessada — a viúva. Em questões de amor é com efeito muito difícil encontrar dois partidos iguais; em geral, um quer e o outro apenas consente.

E o mais curioso é que a mulher é quase sempre quem representa a parte mais ativa e mais importante no conflito.

Entre o amor da mulher e o amor do homem há uma diferença capital: o amor do homem tende a diminuir com o tempo; e o da mulher, quanto mais vive, mais avulta e mais espalha e aprofunda as suas raízes pelo coração. E que em geral o homem, à semelhança do fogoso corcel, que dispara na arena com todo o fogo da carreira, gasta logo no princípio do tiro a melhor parte da atividade de que dispõe, e começa a ruinguar de forças; ao passo que a mulher, partindo vagarosamente, vai pouco e pouco se animando na luta, e deixa-se afinal arrebatar pelo ardor e pelo entusiasmo.

O homem, à proporção que desvenda os mistérios do coração da sua amante, à proporção que lhe vai devassando a alma e penetrando familiarmente por todas as sutilezas e todos os esconderijos do seu caráter, do seu gênio, do seu temperamento e da sua ternura, sente desfalecer-lhe no sangue o primitivo impulso, e só continua a amar por hábito ou por gratidão. Violada a última gaveta da alma de uma mulher, o homem cai prostrado pela indiferença.

Doces e apaixonadas Margaridas! se quiserdes conservar a adoração de vossos inconsistentes sacerdotes, correi duas voltas à fechadura e guardai bem convosco as preciosas chaves!

O homem gosta de ser iludido: meia verdade o prende, a verdade inteira o repele. A mulher, ao contrário, só chega a amar deveras depois de muito conviver, depois de muito se identificar com o homem a quem se deu. E se alguma grande desgraça os torna solidários das mesmas dores e das mesmas lágrimas; se ela tem ocasião de pôr à disposição do amado a meiga substância da sua abnegação, do seu sacrifício e do seu heroísmo, então o que era amor se converte em fanatismo, e a mulher deixa de ser amante para ser escrava submissa.

O homem principia sempre por dar o seu amor e acaba, quando este se esgota, por oferecer a sua amizade. A mulher, não! a mulher começa por estimar, e a sua estima vai se consolidando, vai se encarecendo, até que se transforma em amor veemente, fecundo e duradouro.

Foi isso justamente o que sucedeu com a viúva a respeito de Gregório — partiram do mesmo ponto, ela a passo, ele a galope; mas, quando a primeira se sentia arrebatada pelo ardor da carreira, já o outro jazia prostrado de cansaço, a suplicar, por amor de Deus, que o deixassem em repouso. E daí as conseqüências — o ciúme, o despeito, a raiva, o desespero, a sede de vingança.

Mas a mulher, coitada! parece que veio ao mundo predestinada para o sacrifício e para a dedicação. Uma vez presa pelo sentimento, ou pela sensualidade, quanto mais a fazem sofrer, quanto mais a pisam e maltratam, tanto mais ela estremece e adora o objeto do seu amor.

Cimo certas plantas aromáticas, que mais recendem quanto mais são trituradas, a mulher que ama, se logra urna folga no cativeiro com que se oprime o seu verdugo, não é para gemer, é para beijar-lhe os pés e repetir-lhe que o adora.

(continua...)

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