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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

O Borges teve um novo sorriso, ainda mais amarelo que o primeiro, e foi continuando a receber os parabéns dos outros convidados, cujas pilhérias, cujas pequenas frases de sentido dúbio e malicioso, ditas aliás com a intenção de lisonjeálo, mais a mais o indispunham e frenesiavam.

CAPÍTULO III

COMEÇAM AS PROVAÇÕES

O jantar correu melhor do que se podia esperar; Filomena mostrou-se muito amável às suas visitas e, sem se dar mais a uma do que a outra, sempre risonha, afável e cheia de espírito, dividindo-se por todas elas a um só tempo, mostrou quanto era profunda na complicada ciência de agradar em casa, na mesma ocasião, muita gente reunida.

Fez-se música; houve canto e conversou-se a valer.

Ao retirarem-se às dez e meia, iam todos penhorados pela dona da casa e plenamente convencidos de que não havia no mundo inteiro um marido mais feliz do que João Touro.

O que, entretanto, não obstou que o pobre homem três dias depois caísse numa melancolia taciturna e pesada, que lhe tirava o gosto para tudo, até para o trabalho. Emagrecia a olho visto, e com as suas gorduras fugiam-lhe as belas cores do rosto e escapava-lhe dos lábios aquele calmo sorriso de felicidade, seu bom companheiro de tantos anos.

É que a portinha do quarto da esposa continuava fechada por dentro.

— Aquilo não era mulher para o Borges! murmuravam os maldizentes, ao vê-lo tão puxado e abatido.

— Olhe que ela o tem derreado! considerava outro.

E a verdade é que o infeliz estava apaixonado e apaixonado deveras. Para fazer as pazes (restritas, bem entendido> com a mulher, depois do primeiro arrufo do almoço, teve que lançar mão de todos os recursos da humildade e da súplica.

— Procure ser-me agradável! aconselhou Filomena, e o senhor obterá de mim tudo quanto quiser!...

— Mas em que lhe posso ser agradável, minha querida... A senhora bem vê que faço para isso tudo que está nas minhas mãos!...

— Talvez assim lhe pareça, mas juro-lhe que o não é! Por exemplo — por que razão não se resolve desde já o meu caro esposo a abandonar esse hábito insuportável de rape... hábito, que, só por si. é quanto basta para o incompatibilizar comigo?

Borges corou e prometeu nunca mais tomar rapé: — Não fosse essa a razão!...

— Aí tem já o senhor por onde principiar: — Eu tanto abomino o vil e baixo rapé, quanto gosto do aristocrático perfume do charuto. Experimente fumar um! Eu mesmo posso encarregar-me de prepará-lo. Já vê que não sou tão má — até lhe aponto os meios, que o seu coração devia ser o único a descobrir para conquistar o meu.

E, depois de fazer vir uma caixa dos melhores charutos que se encontraram, tomou um, trincou-lhe graciosamente a ponta, e disse, passando-o ao marido:

— Vamos lá! Sente-se aqui ao pé de mim... Muito bem.

E, riscando um fósforo: — Principiemos! Borges hesitava.

— É que eu nunca fumei, filhinha... objetava ele timidamente.

— Oh! que grande sacrifício! E encheu a boca com a frase — "Nunca fumou!" E os outros?... os que fumam?... acenderam o primeiro charuto só depois de habituados a fumar?!...

— Isto pode fazer-me mal...

— Pois então não fume! Ora essa! respondeu ela, erguendo-se já amuada.

Quando para fumar é isto, quanto mais...

— Vem cá, menina, vem cá! Oh! Tu também te esquentas por qualquer coisa! Eu não disse que não fumava!...

— Pois então vamos lá! tornou a formosa mulher corri uma pontinha da faceirice. — Acenda...

— Tu és os meus pecados!... disse o Borges obedecendo.

— Acenda direito... recomendou Filomena, fazendo-se amável. — Não chupe com tanta força! Assim... assim! Veja como vai bem agora!

E o Borges fumava afinal, interrompendo-se a cada momento para tossir sufocado, sem dar vencimento à saliva que lhe acudia.

— É horroroso! afirmava ele alguns minutos depois, segurando o charuto com ambas as mãos. — Faz-me vir água aos olhos!

— É delicioso! contestava a mulher ao lado, derreada para trás, aspirando voluptuosamente o fumo que o marido expelia da boca.

Borges, quando se levantou, sentia tonturas, vontade de vomitar e suores

frios.

— Continue, continue, que em breve se habituará! disse-lhe a mulher, enquanto ele se afastava para o quarto muito pálido, cheio de calafrios, agarrandose às cadeiras.

E desde então Filomena não consentiu que o marido se aproximasse dela, sem vir fumando.

— E promete que me deixa depois dar-lhe um beijinho na face?... perguntou ele na ocasião de submeter-se ao sacrifício do segundo charuto.

— Prometo que lhe consentirei beijar-me a testa — a testa! — no dia em que fumar o último charuto da caixa.

Filomena cumpriu a promessa; o Borges, depois de fumar cem charutos, beijou pela primeira vez a fronte da esposa.

(continua...)

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