Por Aluísio Azevedo (1884)
Ela o ouvia em silêncio, a pensar, os olhos ferrados a um ponto, o ar todo caído e acabrunhado como por uma espécie de desgosto; não se mexia, apenas, quando Amâncio teimava muito em querer beijá-la, desviava o corpo, sem voltar a cabeça.
— Mas, então?...perguntou ele.
— Então, o quê?...fez a outra como interrompendo um longo pensamento.
— Não aceita o meu amor?..
— Não, decerto, não posso aceitar semelhante coisa!
— Por que, minha santa?...
— Não tenho esse direito; conheço os meus deveres e a minha responsabilidade .O mais que lhe posso dar é uma afeição de irmã, de amiga, uma afeição sagrada e pura!
Amâncio declarou que pensava desse modo justamente, mas agora queria um beijo, um só! O primeiro e último! — nada mais sagrado e puro do que um beijo!...
— Nunca! Disse ela, fugindo com o rosto.
Ele a tomou à força e a senhora ficou ressentida, chegou a ter um gesto de impaciência e teria fugido, se o estudante não a segurasse pela cintura.
— Solte-me!
— Perdoa, perdoa, meu amor! Segredava ele, quase ajoelhado .— Bem quisera ser para contigo o mais respeitoso dos homens, mas não me pude dominar...Perdoa!
— E jura que , de hoje em diante, não cairá noutra?...
— Juro! Juro! Mas não te revoltes contra mim!
— E que nunca mais me faltará ao respeito?...
Amâncio fez um gesto afirmativo, em o qual seus olhos, agora mais estrábicos sob a influência do vinho e do desejo, luziam suplicantes, como os olhos de um cão que tem fome.
— Pois bem, murmurou ela, meio compadecida. — vá lá por esta vez! Está perdoado, mas fique prevenido de que, se repetir a graça não, respondo pelas conseqüências.
Amâncio ia fazer novos protestos, quando sentiu que alguém se aproximava; ergueram-se ambos, instintivamente, e ,fugindo ao rumor, seguiram de braço dado para a sala.
Tocava-se uma valsa. Ele, sem consultar Hortênsia, enlaçou-lhe a cintura, e puseram-se os dois a rodar, a rodar, tão certos e tão leves, que prendiam a atenção de quantos lá s achavam. E o Coqueiro, encostado à ombreiras de uma porta, acompanhava-os com um sorriso de felicidade, no qual havia alguma coisa de orgulho de pai que se revê num filho prodigioso.
Mas o querido estudante, para o fim da festa, já não pareci o mesmo: as bebidas e o cansaço davam-lhe um ar grosseiro e desalinhado; já se lhe não via o colarinho, nem os punhos; a roupa empastava-se-lhe com o suor e a cabeleira desguedelhava-se sobre a testa. E vinham-lhe então pilhérias de mau gosto; tratava Amelinha quase licenciosamente e regamboleava as pernas e os braços no meio da quadrilha, como se estivesse num baile público. Já não dava excelência a ninguém e queria, por força ,que o Simões e o Paiva, depois da festa, o acompanhassem a um passeio ao alto da Tijuca.
— Que diabo! Rosnava ele, cuspilhando para os lados.— Ou bem que a gente se mete na pândega ou bem que se não mete!
Só se retiraram ao despontar da aurora. César, que adormecera desde as onze horas da noite, ficou para passar o dia com a família do Campos. Amâncio pôs um carro à disposição do Paiva e do Simões e seguiu no outro com as duas senhoras e o Coqueiro.
Este toscanejava durante a viagem, ao lado da mulher que se sumia na abundância de uma formidável capa de lã; enquanto que Amâncio, a charutar derreado para um canto da carruagem, adormecia com a mão direita esquecida entre as de Amélia
CAPÍTULO XVIII
Recebeu no dia seguinte uma carta de Ângela; era a segunda que ela escrevia ao filho depois da morte do marido.
Já na primeira lhe suplicava que a fosse ver, logo ao entrar das férias, pois agora estava muito só e acabrunhada de desgostos; além disso, os seus padecimentos se agravavam. Amâncio que se não demorasse; a infeliz tinha para si que a presença do filho substituiria com vantagem todos os remédios da botica.
Na segunda carta ainda se mostrava mais impaciente e mais aflita pelo rapaz. Falava até no receio de morrer sem abraçá-lo, caso Amâncio não se apressasse a ir em seu socorro.— A presença dele tornava-se precisa , mesmo com referências aos interesses do inventário; por quanto D.Ângela começava a desconfiar do Silveira, que não fazia outra coisa senão lhe pedir dinheiro e mais dinheiro para as tais custas.— Enfim, por todos os motivos, era urgente que Amâncio desse, quanto antes, um pulo ao Maranhão.
Amelinha, que já não ficara muito tranqüila com a primeira carta, assustou-se deveras quando o amante lhe mostrou a segunda .
— Eu não consinto nesta viagem! Disse-lhe terminantemente.
— Mas não vês que se trata de um caso urgente, que se trata de defender meus interesses, que se trata de salvar a vida de minha mãe?...Ou queres tu que eu a mate, hein?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.