Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Sim... sim... miserável embora; mas este miserável pode aparecer com o rosto descoberto!... senhora, tudo está decidido: eu rompo o seu casamento, eu mato a sua ventura, eu me vingo!
Mariana arquejava.
– Primeiro irei ter com o homem que loucamente a ama, e mostrar-lhe-ei a sua carta... ou... se não... ah!... que idéia!..
O mancebo soltou uma risada. Mariana não achou em seu furor uma palavra para dizer-lhe.
– Tudo pode acabar em paz, minha senhora, disse com fingida amabilidade Salustiano: não haverá nem banco de condenados, nem cárcere, e muito menos patíbulo; a senhora casar-se-á com aquele que ama, e eu desposarei a jovem que adoro.
Mariana ficou olhando, e o terrível moço prosseguiu:
– Dispenso também a sua intervenção; achei um belo meio... que estupidez a minha!... deveria tê-lo há mais tempo lembrado. Aparece apenas um inconveniente:
há um velho que talvez morra de desgosto... paciência.
Mariana estremeceu.
– Amanhã, senhora, terei uma hora de conferência com o honrado, austero e amoroso sr. Anacleto. Quando eu o deixar só levarei a certeza de ser o esposo de Celina, e ele ficará mudo e terrível, pálido como um cadáver, e se falar, falará para amaldiçoar sua filha.
– Oh!...
– Porque ele há de saber (há de saber pela própria letra da senhora), que a filha de seu coração, que a orgulhosa e bela Mariana, no meio das mil loucuras de seus primeiros anos, amou um homem... e amou tanto... tanto... tanto... que perdeuse por ele!...
Mariana escondeu o rosto entre as mãos.
– Há de saber mais, que depois de cometida a primeira falta, cometeu ainda um crime abominável; há de saber que sua filha, em resultado de um momento de embriaguez, tinha de ser mãe; que inspirada pelo demônio, não o foi; não foi mãe...
porque... porque...
– Oh!... bradou Mariana.
– Porque matou seu filho.
Sucederam a essas terríveis palavras alguns momentos de silêncio. Mariana estava convulsa, tinha os lábios pálidos, o rosto cadavérico, as mãos estendidas para diante, e trêmulas como se quisesse defender-se de algum objeto; e com os olhos pasmos e terríveis, parecia talvez estar vendo diante dela a imagem do filho que havia assassinado.
Depois de algum tempo ela murmurou fracamente:
– Infanticídio... infanticídio...
Soltou um grito e desatou a chorar.
Salustiano, insensível e silencioso, esperou muito tempo que Mariana sossegasse um pouco. Quando a viu menos sobressaltada, disse-lhe:
– Então, senhora?...
– Perdão, senhor; balbuciou a desgraçada pondo-se de joelhos.
Salustiano ergueu-a, fê-la sentar e continuou:
– Nada do que ouviu será sabido. No dia em que eu me casar com sua sobrinha, queimaremos juntos a carta fatal.
– Mas o que é que eu devo fazer?... perguntou a mísera viúva.
– Primeiramente fazer com que esse mancebo que mora no “Purgatório-trigueiro”, desapareça destes lugares; conseguir dele uma carta para sua sobrinha, carta em que se apague toda a esperança de amor.
– Oh! mas isso é impossível.
– Nada é impossível, senhora.
– Porém de que modo conseguir isso?...
– Uma mulher que se ajoelha e chora aos pés de um homem consegue tudo, principalmente quando esse homem é um moço.
Mariana abaixou a cabeça.
– Depois, prosseguiu Salustiano, convirá que seu pai se interesse a meu favor, convirá que a “Bela Órfã” ouça os seus conselhos, e até os seus rogos; e, em último caso, é preciso que se imponha.
– E se ela resistir?
– É uma criança; resistirá ao princípio, chorará depois, e cederá no fim.
– Está bem.
– Não voltarei a esta casa, concluiu Salustiano levantando-se, senão na véspera de seu casamento, e então... ou se hão de assinar as escrituras do meu, ou... a senhora o sabe...
Salustiano saiu.
Meu Deus!... meu Deus!... exclamou Mariana dolorosamente; eu não pensava qu e a minha desgraça fosse tão grande!... eu não me lembrava de ter escrito a confissão do último crime!... Oh!... isso foi loucura... e a loucura que me fez escrever tal, é o primeiro castigo da Providência!...
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Quando Salustiano deixou o “Céu cor-de-rosa”, o velho Rodrigues estava sossegadamente sentado na porta do alpendre... mas não cantava como de costume.
CAPÍTULO XXXII
NO JARDIM
NESSA mesma tarde em que Mariana fora perturbada e arrancada do seu belo sonhar de alegres fantasias pelo rodar de uma carruagem, e ao mesmo tempo que na sala tinha lugar uma cena dolorosa e terrível, no jardim do “Céu cor-de-rosa” outra se apresentava mais doce, mais terna, mais cheia de esperanças.
Celina, fiel aos inocentes amores de sua infância, pois que, como dizia, tinha amado nessa idade feliz o primeiro raio do sol e as flores, estava sentada no banco de relva do caramanchão, melancólica e pensativa.
Tinha na mão direita um botão de rosa, que acabava de colher; ás vezes olhava para ele e suspirava; às vezes deixava cair a cabeça e meditava; às vezes enfim, corando de si mesma, erguia a cabeça e lançava os olhos para o lado esquerdo...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.