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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Porém, é absolutamente preciso que eu avive todas essas idéias! e, pois, Félix, recordemos a noite terrível, que de meu igual te podia fazer meu escravo. Lembras-te?... eram dez horas, como agora; eu vim ver-te, e achei que a porta de teu quarto se achava fechada por dentro, também como agora; então, sem pensar no que fazia, instintivamente talvez, ou para zombar contigo, eu olhei pela fechadura... Félix!... havia dentro de teu quarto a prova de um crime, como também está havendo agora!

— Oh!...

— Não compreendendo ainda o que via, cuidando que seria um presente da fortuna, bati na porta; e senti que tu ocultavas o objeto que eu acabava de descobrir em tuas mãos; abriste-me a porta, Félix, e eu te encontrei pálido e desfigurado, como o estás agora!

— Não mais, Otávio!...

— Pedi que me explicasses a tua perturbação; disse-te o que eu tinha visto; e tu caíste a meus pés, implorando compaixão e segredo e gritando misericórdia!...

— Sim... mas tu tiveste piedade...

— Eu quis obrigar-te a desfazer o teu crime; porém, chorando arrependido, disseste que já era tarde, que outro havia sido considerado o perpetrador dele e como tal castigado, e que ficarias perdido se se descobrisse o fatal segredo. Cheio de remorsos, de joelhos a meus pés, abraçado com minhas pernas, tu me pediste que eu escondesse em minha casa a prova de teu delito, até que um dia te pudesses lavar dessa vergonhosa manha... eu hesitei... mas amava-te muito!... levei-a, ocultei-a e tenho-a comigo.

Félix escondera o rosto entre as mãos, tomado de vergonha e de remorsos. Otávio prosseguiu.

— Depois eu tive de sair por muitas vezes do Rio de Janeiro... graves e importantes empresas comerciais me tinham quase sempre longe desta cidade... não te encubro, Félix; se eu morresse, achar-se-ia entre os meus papéis a salvaguarda de minha honra; porque a minha honra era só o que eu não podia sacrificar à amizade. Enfim, faleceu meu pai, e hoje, herdeiro da sua riqueza e do seu nome, sou julgado feliz e digno de inveja; e até há bem poucos dias eu não achava na minha vida de que me envergonhar, senão de ser o depositário de um crime!

— Oh e para que agora queres ter de que abaixar o rosto?...

— Porque o coração de um moço, Félix, pode mais do que a sua cabeça!...

Otávio enxugou sofregamente o suor, que em bagas lhe corria da fronte; e continuou falando com ardor e precipitação.

— Tu sabes, Félix, o que é amar loucamente uma mulher?... compreendes o que é passar dias inteiros pensando nela, todas as noites velando por ela, todas as horas por ela suspirando?... eu mesmo não concebo o que é isso, que tem em si essa mulher para fazer-me delirar e esquecer meus negócios, meus prazeres, meu dever, e até minha honra!... mas eu sei que a amo como um louco, como um homem perdido!... eu sinto que este amor traz em si alguma coisa de tão abominável e infernal, que, por essa mulher, se eu fosse rei, me faria abandonar o trono, se eu fosse pai, amaldiçoar meu filho, se eu fosse sacerdote, renegar do meu Deus! Oh! Félix, Félix!... um amor como este é horrível e capaz de tudo! uma mulher como essa pode fazer de um homem virtuoso um ladrão ou um sicário! sim: se Honorina me dissesse — mata! eu creio que iria matar; se ela me gritasse — rouba! eu penso que iria roubar, ainda que estivesse certo de que um dia depois seria condenado à morte; mas contanto que de cima do patíbulo ganhasse um sorriso de gratidão de seus lábios!... oh!... pois essa mulher há de ser minha!... eu a quereria a preço de meu sangue! eu a quero mesmo a preço de meu nome e de minha honra!... eu a quero! eu a quero!... Otávio, que falava como possuído de violento delírio, pronunciou as últimas palavras quase sufocado.

— Mas é horrível, Otávio, disse Félix, pretenderes sacrificar-me à tua paixão!

— Eu sei, eu sei, mas já te disse que seria também capaz de matar e roubar. Tenho tentado tudo inutilmente: cerquei-a de atenções e de obséquios... e nem gratidão obtive; procurei mostrarlhe o como era extremoso e puro o amor que por ela sinto, e nem ao menos pude ser ouvido; expliquei-me mais claramente... falei-lhe em casamento... e Honorina repeliu-me!

— E seu pai?... por que te não diriges a seu pai?

— Félix, confesso-te com vergonha: há três dias que fui ajoelhar-me diante dele; pedi-lhe o sossego, a paz e a ventura de minha vida, pedi-lhe, enfim, a mão de sua filha. O Sr. Hugo de Mendonça pareceu inclinar-se a meu favor, sua mãe mostrou alegrar-se, ouvindo minhas proposições; Honorina foi chamada... consultou-se sua vontade... e ela disse que não! não!... diante de meu rosto!... e, portanto, não há mais esperança por esse lado... a esperança que me resta é uma só: em ti a tenho posto.

— Em mim não, Otávio; eu não poderei fazer nada.

(continua...)

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