Por Inglês de Sousa (1891)
As pressas um homem veio do porto, subindo a rampa com muita agilidade, e chegando ao pé do coletor, que se endireitou na cadeira, disse alvoroçado:
— Morreu agora mesmo. Parecia um passarinho!
Era o vereador João Carlos que, cedendo aos hábitos inveterados da sua vida, vinha consolar o capitão Fonseca no seu isolamento.
No dia seguinte, caminhava o coletor para o domicílio mortuário, azafamado e esbaforido, lamentando o caiporismo que o perseguia agora nas menores coisas da vida. Ia quase a correr, para não faltar à cerimônia, ele, o homem grave, sempre pontual, exato, sempre correto na atitude. Que série de calamidades se desencadeara contra ele, de certo tempo àquela parte, que até nas mínimas circunstâncias a sorte se lhe mostrava adversa!
Primeiro, ao abotoar a sobrecasaca enquanto D. Cirila a escovava, tivera de pregar-lhe um sermão para a convencer que não era decente, para uma senhora séria, estar a lastimar a morte do Totônio Bernardino, atribuindo-a ao amor. E então com que maneiras novas dizia aquilo D. Cirila, batendo-lhe no lombo com a escova, sorrindo entre lágrimas, suspirando - ai! coisa rara! morrer um homem de amor!
Fonseca tivera de repreendê-la. Aquilo eram tolices de rapazes vadios e de raparigas delambidas! Totônio Bernardino não morrera de amor, nem isso era coisa de que se morresse. Segundo o parecer de Regalado, o rapaz recolhera uma constipação, que se complicara com o miasma palustre, e dera em resultado uma tísica furiosa e galopante. Demais o Totônio era um criançola, a quem lá no Pará haviam metido coisas na cabeça. Nunca havia de dar para nada. Não safra ao irmão, que tão moço já era tenente da guarda nacional. O Cazuza, sim, era um rapaz trabalhador e sério. Vivia muito bem com a mulher e ajudava o pai na lavoura, ao passo que o outro era um vadio, cheio de idéias esquisitas, um poeta, afinal!
Após essa altercação que tivera com a mulher, já pronto para sair, Fonseca só depois duma campanha, encontrara o seu chapéu de pêlo, um belo chapéu, comprado em 1868, em Manaus, para a posse do primeiro presidente conservador. Zangara-se. D. Cirila gritara conforme o seu costume. As negrinhas tonteavam pelos cantos, vasculhando os armários e as arcas da roupa guardada. Afinal fora o chapéu encontrado dentro da sua caixa verde atrás de uma porta. Parecia caçoada. Atrás da porta!
Em seguida pediu o seu guarda-sol. D. Cirila gritara de novo. As negrinhas corriam em todas as direções, como baratas pressentindo chuva. E nada do chapéude-sol!
— Pois havia de ir ao enterro sem chapéu-de-sol? Quem fora o canalha que lhe furtara o traste?
Busca e mais busca. Nada. Talvez o tivesse emprestado ao Valadão.
— Negrinha, gritou D. Cirila, corre à casa do seu tenente Valadão. Dize que vais de minha parte fazer uma visita e saber como passou a família toda. E pergunta se não está lá o chapéu-de-sol do teu senhor.
— Já, sim, senhora, disse a escrava. E saiu correndo.
Não estaria o chapéu na casa do João Carlos? Parecia que na véspera, estando a ameaçar chuva, Fonseca lhe oferecera o chapéu-de-sol quando se retirara. Com certeza lá estaria! Era isto. Querer fazer bem aos outros e passar privações e dissabores! Fonseca arrependia-se' daquela mania que tinha de servir a toda a gente, fazendo sacrifícios. De que lhe servia isso? Era uma súcia de ingratos! Pois agora havia de ir ao enterro sem chapéu-de-sol!
— Negrinha, disse D. Cirila a outra rapariga, vai à casa do seu João Carlos, na carreira. Dize que vais da minha parte fazer uma visita e saber a senhora e os meninos como passaram. Que nós estamos bons, muito obrigados. Que eu mando pedir o favor de mandar o chapéu-de-sol de teu senhor que ele emprestou ontem ao João Carlos.
— Já, sim, senhora, respondeu a escrava. E saiu num pulo.
Fonseca sentara-se desanimado abrindo as abas da sobrecasaca para as não amarrotar na cadeira. O tempo corria. O relógio marcava quatro horas. D. Cirila, por desencargo de consciência, continuava a procurar o chapéu-de-sol por todos os cantos, auxiliada por duas escravas.
Não estaria na casa do Dr. Natividade? Fonseca parecia recordar-se de que, no domingo passado, o juiz municipal lhe pedira emprestado o chapéu-de-sol para um passeio que fizera à outra banda com o professor Aníbal Brasileiro! Era isto. Sempre a mesma coisa! Sempre a mania de fazer bem, em prejuízo próprio. Que lhe importaria a ele, Manuel Mendes da Fonseca, que o Natividade apanhasse sol no tal passeio? Não ficaria mais trigueiro. E que ficasse! Era um ingrato, isso estava provado. Fosse pedir ao Pereira as coisas emprestadas! Estaria bem aviado. José Antônio Pereira não lhe emprestaria coisa alguma, porque não era tolo como Fonseca.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.