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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Compadre, vá estando à vontade e diga o que há de novo.

A caseira entrou com uma bandeja, onde vinha o café, um pires de papa, uma garrafa de licor cálices.

— Vai uma papinha, compadre?

— Não, obrigado. Quero o café.

— Pois eu cá não passo sem ela, mais o meu café e o meu chartreuse... Vá um calicezinho, seu Manuel! Que tal? Deste é que não vem para negócio hein?...

— Decerto! não vale a pena! Mas com efeito, é papa-fina.

— Então outro, vá outro, compadre, isto nunca sobe logo à primeira dose...

— Também não vai a matar..

— Assim! agora um gole de café. . Hein? E o que me diz do café?,, — Soberbo! Do Rio, não e verdade?

— Qual Rio! muito bom Ceará! Acredite, seu compadre, que o melhor café do Brasil é o do Ceará!... E esta crioula, que o trouxe, é mestra em passá-lo!... Nunca vi! para um café e para uma papa de araruta com ovos, não há outra!

E o cônego passou a vestir-se esticando muito as suas meias de seda escarlate; calçando, com a calçadeira de tartaruga, os seus sapatos de polimento azeitado, cujos fivelas levantavam cintilações. Enfiou depois a batina de merinó lustroso, ameigando a barriga redonda e carnuda, saracoteando-se todo, a sacudir a perninha gorda, indo ao espelho do toucador alcochetar no pescoço a sua volta de rendas alvas. Estava limpo, cheiroso e penteado; tinha, no rosto escanhoado e nos anéis dos seus cabelos brancos, uns tons frescos de fidalgo velho e namorador; o crista! dos óculos redobrava-lhe o brilho dos olhos, e o seu chapéu novo, de três bicos, elegantemente derreado um pouco para a esquerda, dava à sua cabeça distinta e ao seu rosto todo barbeado o ar pitoresco e nobre dos cortesãos do século XVII.

— Quando quiser, compadre, estou as suas ordens... lembrou ele a Manuel, que fumava um cigarro à janela, pensativo.

— Então vamos indo. O homem talvez já esteja à nossa espera.

E saíram.

A manhã levantava-se bonita. As calçadas de cantaria secavam a umidade da noite aos primeiros raios do sol. Ouviam-se tinir nas pedras os saltos dos sapatos do padre. Passavam os trabalhadores para as suas obrigações; o padeiro com o saco às costas; a lavadeira, em caminho da fonte, com a trouxa de roupa suja equilibrada na cabeça; pretas-minas apregoavam “Mingau de milho!; os escravos desciam para o açougue com a cesta das compras enfiada no braço; das quintas chegavam os vendedores de hortaliças, com os seus tabuleiros acumulados de folhas e legumes. E todos cumprimentavam respeitosamente o cônego, e ele a todos respondia: “Viva!” Algumas crianças, em caminho da escola, iam, de boné na mão, beijar-lhe o anel.

— Você de que ele já está à nossa espera?...

— É natural! respondeu Manuel.

— Não tenha medo! É muito cedo ainda - e consultou o relógio. - Podemos ir mais devagar. Ele só chegará daqui a uma hora. Ainda não são sete.

— Estou impaciente por vê-lo pelas costas...

— Não tardará muito. E a pequena, como ficou?

— Assim; menos maçada do que eu esperava... E que aquilo passou-lhe.

— E o outro?

— O Dias?

— Sim.

— Por ora... nada.

— Há de chegar! há de chegar!... afirmou o cônego ar de experiência. Labor improbus omnia vincit!...

— Como?

— Aquilo e um marido que convém à Anica!...

Assim conversando, ao lado um do outro, acharam-se na rampa de Palácio Ainda pouca gente lá havia.

— Um bote, patrãozinho! exclamou um rampeiro, aprumando-se defronte de Manuel e descobrindo a cabeça com arremesso.

— Espere, deixe ver se está o Zé Isca, que é freguês.

O catraieiro afastou-se lentamente, jogando o corpo, no seu andar de pernas abertas. Os dois desceram ao cais. Apareceu o Isca, e contratou-se a viagem.

— Patrão, podemos ir?

— Deixe vir o doutor. É preciso esperá-lo.

O padre observou que tinha ido cedo demais, enquanto Manuel fazia SS no chão com a biqueira do guarda-sol.

— Homem! este vapor assim mesmo fez desta vez uma viagenzinha bem boa!... disse o primeiro, provocando palestra.

— Quinze dias.

— E então?... quando saiu de do Rio?...

— No dia dois.

— Daqui a outros quinze está por lá!... calculou o cônego.

— Não, leva menos! para lã e muito mais favorável a viagem... onze, doze, treze dias e o máximo.

No fim de algum tempo aborreciam-se de esperar Manuel havia fumado já quatro cigarros. Raimundo demorava-se.

— Isto já são oito horas! quantas tem você, compadre?

— Oito e um quarto. O rapaz com certeza descuidou-se!... Ó seu Manuel de sabe que o vapor sai as dez?

— Como não? se ainda ontem à tarde lho mandei dizer!...

— Então há de ser alguma despedida mais demorada... explicou o cônego com um risinho velhaco. Fugit irreparabile tempus!...

— Isto vai, mas e esquentando demais, seu compadre.

E Manuel limpava e tomava a limpar o carão vermelho, estendendo pela rampa um olhar suplicante, que parecia chamar o sobrinho.

— Vamos cá para a guardamoria, aconselhou o outro, resguardando-se do sol.

Um empregado obsequioso ofereceu-lhe logo duas cadeiras.

— V.S.ª por que não se sentam?... Tenham a bondade de estar a gosto...

— Obrigado, obrigado, meu amigo!

E assentaram-se impacientes.

— V.S.ª vem ao bota-fora do doutor Raimundo?...

— E! Ele já desceu?

(continua...)

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