Por José de Alencar (1875)
- Não contente com isso, leva a inconveniência a ponto de receber aquele moço, na ausência de seu marido, e só, em colóquio reservado, como os encontrei!
- Acabou?
- Creio que é bastante.
- Bem, toca-me a vez de responder. Como o confessou, não lhe devo conta de minhas ações; só o homem a quem eu amasse, teria o direito de mas pedir. Quero, porém, supor um momento que o senhor fosse esse homem, hipótese absurda, que eu figuro somente para mostrar-lhe que ainda assim, é para estranhar a sua suscetibilidade.
- Oh! Pareço-lhe um Otelo! Disse Fernando a chasquear.
- Não, Otelo tinha razão em todos os seus ultrajes e brutalidades; amava e com paixão. Mas o senhor não é aqui outra coisa mais do que o advogado da decência.
Fernando esmagado pelo sarcasmo, contra o qual não podia reagir, teve ímpetos de confessar a essa mulher toda a insânia do amor que sentia, e depois, quando ela exultasse com seu triunfo e a humilhação dele, abatê-la a seus pés.
VIII
Aurélia continuou com os olhos fitos nas alvas pétalas aveludadas de um jasmim do Cabo:
- O recato é o mais puro véu de uma senhora. Feliz aquela que vive à sombra do zelo materno, e só a deixa pelo doce abrigo do amor santificado. Sua virtude tem como esta flor a tez imaculada, e o perfume vivo. Essa ventura não me tocou; achei-me só no mundo sem amparo, sem guia, sem conselho, obrigada a abrir o caminho da vida, através de um mundo desconhecido. Desde muito cedo vi-me exposta às suspeitas, às insolências e às vis paixões; habituei-me para lutar com essa sociedade, que me aterra, a envolver-me na minha altivez, desde que não tinha para guardar-me o desvelo de uma mãe ou de um esposo.
A expressão tocante e melancólica da moça ao proferir estas palavras comoveu Seixas, que já não se lembrava de seus ressentimentos.
- Quando eu era uma menina ingênua, que não deixava a companhia da mãe, e nunca se achara só em presença de outro homem a não ser aquele a quem amava unicamente, e amou neste mundo, esse homem abandonou-me por outra mulher, ou por outra coisa; e foi entrelaçar seu nome ao de uma moça que era noiva de outrem. Mais tarde, encontrando-me só no mundo, acompanhada por uma parenta velha, mão de aparato e amiga oficiosa, que ainda mais só me tornava, fazendo as vezes de um reposteiro, esse homem desabusado, casou-se comigo sem a menor repugnância.
A moça fitou os olhos no marido:
- Confesse que os escrúpulos desse senhor e o seu pânico de escândalo vem tarde e fora de tempo.
- Esses escrúpulos nascem da posição atual.
- Outro engano seu. Essa posição é um encargo, e não um direito. O senhor falou-me em sua honra. Penso eu que a honra é um estímulo de coração. Que resta dela a quem alienou o seu? Se o senhor tem uma honra e eu acredito, essa me pertence; e eu posso usar e abusar dela como me aprouver.
- Assim, julga-se dispensada de guardar qualquer reserva?
- Para o senhor e para o mundo julgo-me dispensada de tudo; nada lhes devo; o que me dão, são apenas as homenagens à riqueza, e ela as paga com luxo e a dissipação. Sou senhora de minha independência sem outras restrições, além do meu capricho. Foi o único bem que me ficou do naufrágio de minha vida, este ao menos hei de defendê-lo contra o mundo.
- Agradeço-lhe ter me desiludido a tempo. Acreditava que sacrificando a liberdade, não renunciava a minha honra perante o mundo e não me sujeitava a ser apontado como um indigno; a senhora entende o contrário; aplaudo esta colisão; ela vem a propósito para romper uma situação intolerável, e que já durou demais para a dignidade de ambos.
- Sobretudo daquele que tenho alienado sua pessoa em um casamento livre e refletido, conserva as prendas de outra noiva.
Seixas surpreso interrogou a mulher com os olhos.
- Nunca pensei ter feito a aquisição de seu amor nem contei com a fidelidade que jurou; mas esperava do senhor ao menos a lealdade do negociante, que depois de vendida a mercadoria não substitui outra marca à do comprador.
Seixas não podia compreender esta alusão, cujo sentido só atinou mais tarde, quando ao entrar no gabinete viu os destroços da prenda de Adelaide. Quis pedir explicação; mas avistou um criado que dirigia-se para ali.
- Está aí o sr. Eduardo Abreu que deseja falar à senhora.
- Bem! disse Aurélia despedindo com um gesto o criado que afastou-se.
Seixas custou a conter-se até esse momento:
- A senhora não pode receber esse homem!
- Era minha intenção. Tinha-o recebido esta manhã pela última vez; mas à vista de sua desconfiança mudei de resolução, respondeu Aurélia friamente.
- Pois saiba que hoje, depois que saiu de sua casa, encontrei-o de face na rua, e recusei-lhe claramente o cumprimento, voltando-lhe as costas.
Razão demais para que o receba. É preciso convencê-lo de que foi uma simples distração de sua parte, para não supor ele que o senhor honrou-o com uma suspeita, que ultraja-me.
Aurélia tomou o braço do marido e dirigiu-se à saleta, onde acharam o Eduardo Abreu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.