Por José de Alencar (1872)
Em Ricardo o caráter revela-se nos escrúpulos de probidade e no pudor da pobreza, que os afasta dos círculos onde arrota-se ouro, não por orgulho ou inveja, mas pelo recato da dignidade.
O homem que não jantou, curte sua fome em casa e não vai espiar a mesa farta dos ricos, sob pena de ser um mendigo de casaca. A vida é um banquete, onde nem todos são convivas, como disse com lúgubre ironia o infeliz Gilbert; porém muitos ficam à porta.
Ricardo pensava por esta forma; se bem, se mal, é o que a crítica filosófica devia decidir, mas absteve-se. A profissão de advogado, única esperança de decente ganha-pão para ele que não tinha proteções, nem se encaminhara a outras profissões igualmente independentes, como o comércio e a indústria; as recordações de S. Paulo e as amizades e os amores ali tecidos com as noitadas do tempo de estudante; o tom da amizade escolástica e fraternal que o liga a Fábio; o seu modo de viver; eis o que há de típico em Ricardo, e não o viu o ilustre crítico por estar sob o domínio de uma prevenção.
Havemos de chegar a ela, a seu tempo.
Sênio
11 de setembro de 1872.
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.