Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Meu irmão, bradou Rosa; eu te vingarei, pondo a boca no mundo contra aquela bruxinha desenxabida!
— Obrigado! disse Manduca; mas a vingança quero eu tirá-la das orelhas do Sr. Brásmimoso.
— Minha mãe, exclamou Rosa, Manduca quer cortar as orelhas do Sr. Brás!...
— Manduca! eu te defendo, sob pena de minha maldição, de tocares em um só cabelo do
Sr. Brás!...
— Está bem, minha mãe, disse Manduca; eu lhe juro que não tocarei em um só cabelo do Sr. Brás-mimoso.
E depois continuou, dizendo consigo mesmo:
— Ainda bem que o tal bichinho é careca.
XXVII
Otávio
Pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que tiveram lugar as cenas desagradáveis que no anterior capítulo descrevemos, uma outra mais grave e muito mais terrível ocorreu na câmara do guarda-livros de Hugo de Mendonça.
Félix alojava-se em um simples e modesto gabinete do sobrado da casa comercial de seu amo.
Eram nove horas da noite.
O guarda-livros entrou vivamente agitado para seu quarto; e, fechando-se por dentro, atirou-se sobre uma cadeira de braços, e ficou quase uma hora imóvel e abatido, mergulhado em amargas reflexões.
Um candeeiro de bronze estava aceso defronte dele, e refletia sobre o pálido semblante do mancebo os raios de uma luz débil e enfraquecida...
Em todo esse tempo apenas se ouviam profundos suspiros soltados por Félix, e o monótono tique-taque da pêndula de um relógio, que sobre um próximo aparador existia.
Finalmente, os olhos do guarda-livros ergueram-se e fitaram-se no relógio.
Faltavam cinco minutos para dez horas.
O guarda-livros estremeceu todo e, arrancando convulsamente uma carta do bolso de sua sobrecasaca, leu para si, sorrindo-se com desesperada ironia, as seguintes breves linhas: “Félix. Tentei todos os meios... esgotei-os todos, e tudo foi baldado; o derradeiro recurso que me resta é esse... um crime!!... embora... nós o lavaremos. Reduzido a dar um passo desesperado, eu abuso da minha posição; eu sei que abuso, Félix! porém, não posso voltar atrás; e, portanto, eu insisto... eu imponho!... às dez horas da noite entregar-te-ei a caixinha de veludo preto; e tu me darás as letras. Otávio.”
Acabando de ler, Félix foi guardar a carta em uma das gavetas de sua secretária e, voltando de novo a seu primeiro posto, murmurou com voz abafada:
— E, portanto, ele deve também corar diante de mim!
O relógio marcou e deu dez horas.
Um servente de escritório bateu à porta do quarto de Félix e anunciou o Sr. Otávio. Um momento depois, a porta do quarto de novo por dentro se fechou, e Otávio e Félix sentaram-se defronte um do outro: ambos estavam pálidos, ambos trêmulos, ambos cabisbaixos. Passou-se muito tempo em silêncio; os dois mancebos pareciam temer olhar um para o outro; devia haver alguma coisa entre eles, que os envergonhasse a ambos.
Finalmente, Otávio pareceu tomar uma resolução; tornou-se extremamente corado e, erguendo os olhos, disse:
— E então, Félix?!
— Otávio, respondeu o guarda-livros levantando por sua vez o rosto; Otávio, tudo isto é muito horrível!...
— E, todavia, é inevitável!
— Inevitável?... oh!.. somente inevitável pode ser a nossa vergonha!... porque eu fui infame; e tu, Otávio... queres sê-lo!
— E qual de nós é mais desgraçado, Félix?...
— Eu.
— Não!... não!...
— Sou eu, Otávio; porque a desgraça está somente no crime!... e o crime é uma mão de bronze, que nos fecha para sempre a porta do próprio sossego!... e eu tenho ofendido a meus benfeitores... aqueles a quem devo tudo!... eu mordi-lhes em seu coração; e agora tu queres que lhes morda de novo?!... não! não! isso não! já padeço bastante...
— Mas esta ferida terá de fechar-se depressa; e depois eu poderei curar a outra... — Nunca! há feridas que jamais se fecham; porque a consciência dilacera o coração do mau a todo o instante...
O guarda-livros ergueu-se como desesperado e, apertando a cabeça com as mãos, exclamou:
— Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
E depois, encarando Otávio, disse com voz comovida:
— E como te atreves, tu até agora puro e honrado, a vires propor-me uma infâmia... um crime, em que ambos teríamos parte igual?!
— Félix, é que não compreendes o que se passa em mim! não sabes o que é sofrer, como eu sofro!...
— E eu?... e eu?...
— Escuta: deixa-me começar bem de longe, bem do tempo da felicidade. Tu me conheces; fui sempre, como há pouco disseste, puro e honrado; desde a infância ligou-nos a mais estreita amizade; aos dezoito anos era eu guarda-livros da casa de meu pai, e tu primeiro caixeiro da do Sr. Raul de Mendonça; nós nos encontrávamos sempre; nas horas de descanso éramos inseparáveis; e meu pai, que me proibia todos os prazeres que a mocidade procura com tanto ardor, era o primeiro a animar nossa mútua afeição; e muitas vezes, falando-me de ti, dizia: — eis ali um menino, que há de ser alguma coisa e que deverá tudo à força de seu trabalho e ao valor de sua probidade!
— Basta, Otávio; não prossigas...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.