Por Aluísio Azevedo (1881)
Fazia um grande silêncio nas ruas ao longe ladrava tristemente um cão, e, de vez em quando ouviam-se ecos de uma música distante. E Raimundo, ali, no desconforto do seu quarto, sentia-se mais só do que nunca; sentia-se estrangeiro na sua própria tenra, desprezado e perseguido ao mesmo tempo. “E tudo, por quê?... pensava ele, porque sucedera sua mãe não ser branca!... Mas do que servira então ter-se instruído e educado com tanto esmero? do que servira a sua conduta reta e a inteireza do seu caráter?... Para que se conservou imaculado?... para que diabo tivera ele a pretensão de fazer de si um homem útil e sincero?...” E Raimundo revoltava-se. “Pois, melhores que fossem as suas intenções todos ali o evitavam, porque a sua pobre mãe era preta e fora escrava? Mas que culpa tinha ele em não ser branco e não ter nascido livre?.. Não lhe permitam casar com uma branca? De acordo! Vá que tivessem razão! mas por que insultá-lo e persegui-lo? Ah! amaldiçoada fosse aquela maldita raça de contrabandistas que introduziu o africano no Brasil! Maldita! mi! vezes maldita! Com ele quantos desgraçados não sofriam o mesmo desespero e a mesma humilhação sem remédio? E quantos outros não gemiam no tronco, debaixo do relho? E lembrar-se que ainda havia surras e assassínios irresponsáveis tanto nas fazendas como nas capitais!... Lembrar-se de que ainda nasciam cativos porque muitos fazendeiros, apalavrados com o vigário da freguesia batizavam ingênuos como nascidos antes da lei do ventre livre!... Lembrar-se que a conseqüência de tanta perversidade seda uma geração de infelizes, que teriam de passar por aquele inferno em que ele agora se debatia vencido! E ainda o governo tinha escrúpulo de acabar por uma vez com a escravatura; ainda dizia descaradamente que o negro era uma propriedade, como se o roubo, por ser comprado e revendido em primeira mão ou em segunda, ou em milésima, deixasse por isso de ser um roubo para ser uma propriedade!
E continuando a pensar neste terreno muito excitado, Raimundo dispunha-se a dormir, impaciente pelo dia seguinte, impaciente por verse bem longe do Maranhão. dessa miserável província que 'i e custara tantas decepções e desgostos; dessa terrinha da intriga miúda e das invejas pequeninas! Desejava arrancar-se para sempre daquela ilha venenosa e traiçoeira, mas pungia-lhe uma grande mágoa de perder Ana Rosa eternamente. Amava-a cada vez mais!
— Ora sebo! interrompeu-se. E eu a pensar nisto!... Tenho tudo liquidado e pronto!... Amanhã está aí o vapor e... adeus! adeus queridos atenienses!
E, afetando tranqüilidade, acendeu um cigarro.
Nisto, caiu na sala uma carta que meteram pelas rótulas da janela. Raimundo apoderou-se dela e leu no subscrito: “Ao Dr. Raimundo.” Teve um estremecimento de prazer, imaginando fosse de Ana Rosa, mas era simplesmente uma carta anônima.
“Ilustre canalha:
Então V.S.ª muda-se amanhã?... Se é verdade! agradeço-lhe o obséquio em nome da província. Creia, meu caro senhor, que será talvez o primeiro ato judicioso que V.S.ª pratica em sua r ida tão aventurosa porque nos já temos por cá muita pomada e não precisamos mais dessa fazenda. Honre-nos com a sua ausência e faça-nos o especial obséquio de ficar-se por /á o maior tempo que poder! Quem disse a V.S.ª que isto aqui é uma tenra de beócios, onde os pedantes arranjam bons casamentos, debicou-o, respeitável senhor, debicou-o redondamente. Já se não amarram cães com lingüiça. No entanto, se vir a prima dê-lhe lembranças. “ Assinava: “O Mulato disfarçado .
Raimundo sorriu, amarrotou a folha de papel e lançou-a ao chão
— Coitados! disse, e foi pôr-se à janela.
Aí ficou longo tempo, debruçado no peitoril, a olhar a escuridão da noite, onde os bicos de gás se acusavam tristemente, muito distantes uns dos outros. A Rua de 530 Pantaleão tinha um silêncio de cemitério. Bateu uma badalada, ao longe.
— Devem ser duas e meia.
Raimundo fechou a janela e recolheu-se à cama. Levantou-se de novo, tornou a apanhar a carta e releu-a. Só a assinatura o irritou.
— Cães! disse.
E soprou a vela.
Começavam então as chuvas, que no Maranhão chamam “de caju”; o vento soprou com mais força, esfuziando nas ripas do telhado. Em breve, o céu peneirava um chuvisco fino e passageiro. Na rua, não obstante, um trovador de esquina, cantava ao violão
“Quis debalde varrer-te da memória, E teu nome arrancar do coração. Amo-te sempre, que martírio infindo! Tem a força da morte esta paixão!”
Na manhã seguinte Manuel levantou-se antes dos caixeiros vestiu-se ainda com a meia claridade da aurora e endireitou para a casa de Diogo.
— Olé! você madrugou, compadre! disse-lhe o cônego da janela, onde fazia a barba em mangas de camisa.
— E verdade. Vim buscá-lo para o embarque do Mundico
— Tem tempo. Vá subindo, compadre, que lhe vou dar um cafezinho fazenda! E, voltando-se para o interior da casa:
— Anda com isso, ó Inácia! que temos de sair mais cedo! gritava ele, enquanto estendia com pachorra, em um paninho de barba, a espuma do sabão que tirava do queixo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.