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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Novos sobressaltos foram se agravando durante os dias que era preciso esperar. Votavam-lhe as aflições; no fim de algum tempo já não podia comer, não podia ligar duas idéias sobre qualquer coisa e não conseguia repousar duas horas seguidas. Ficou ainda mais desnorteado que da primeira vez.

Amelinha, então, o estimulava com as suas garrulices e pomba que já fez ninho. Puxava por ele, tentando arrancá-lo daquele estado, mas não conseguia lhe despertar um só dos antigos momentos de bom humor, nem lhe merecer uma de suas primitivas caricias

O rapaz andava tonto, cheio de pressentimentos e de sustos. Tornou-se até supersticioso. — Não podia ver entrar no quarto uma borboleta de cor mais escura; não podia suportar o grunhir dos cães, nem queria que a amante prognosticasse “um bom resultado nos exames”

— É melhor não falar!...dizia ele, muito esmalmado.

Mas que prazer o seu ao voltar pronto da escola! Jamais tivera um contentamento tão agudo. Ria sem motivo, sentia ímpetos de abraçar a toda gente, pulava, cantava, parecia doido..

Soubera do resultado no mesmo dia da prova oral, por intermédio de um dos professores. — Saíra aprovado plenamente.

Vencera!

Colegas o acompanharam até a casa. Lá ia o Paiva, sempre com o seu olhinho irrequieto e mexeriqueiro, o seu todo enfrenesiado e farto “desta porcaria de mundo”. Lá ia o triste Salustiano Simões, encasmurrado no seu ar incrédulo e bamba, a mascar o cigarro, a aba do chapéu encostada à gola sebosa do fraque

Abriram-se garrafas de champanha; fizeram-se brindes. João Coqueiro desmanchava-se em sorrisos, como se partilhasse diretamente de todas aquelas manifestações.

Foi muito elogiado o exame de Amâncio, tocaram-se os copos, entre fervorosas palavras de animação; falou-se em “filhos diletos da ciência”, em “liberdade”. Em “geração nova”, em “mineiros do progresso”.

Todavia, Amâncio, em ar feliz e pretensioso, confessava o pouco que estudara e gabava-se de sua fortuna. — Podia dar a palavra de honra em como mal havia tocado nos livros durante o ano. — O Coqueiro e a família estavam ali, que dissessem!...

E basofiava a respeito de sua presença de espírito particularizando circunstâncias comprobativas de uma sagacidade a toda prova.

— Cá o menino não se aperta! Dizia ele, muito satisfeito consigo.

Expediu-se um telegrama para o Maranhão, dando noticia do grande “acontecimento”. O Simões e o Paiva ficaram para jantar. Já estavam todos à mesa, quando apareceu o copeiro com uma carta que um portuguesito acabava de trazer.

Era do Campos. O bom negociante queria festejar o êxito feliz do — jovem acadêmico — com “uma pequena reunião familiar. Pena era que o Dr. Amâncio estivesse de luto”.

“Não há festa”, explanava a carta, “apenas se reúnem alguns amigos para lhe beber à saúde; e o doutor bem pode trazer em sua companhia mais alguns”.

Amâncio declarou logo que não dispensava o Simões e o Paiva Rocha e exigiu que o Coqueiro levasse consigo a família.

Pois iriam, iriam todos, até o César. Mas o festejado teve de franquear o seu guarda-roupa àqueles dois colegas que não queriam apresentar-se mal amanhados em uma casa, onde entravam pela primeira vez.

O Coqueiro, em particular, exprobrou-lhe essa franqueza:

— Foge da boêmia!... disse-lhe, no seu diapasão de homem sério. — Foge da boêmia, rapaz! Esses tipos não merecem que se lhes faça a menor coisa!... metem os pés — sempre! Já os conheço; não seria eu quem os convidara para a casa de ninguém! É gentinha que só está habituada a cafés e botequins, não respeitam família! Para eles as mulheres são todas iguais!...

Amâncio sorriu.

— Ora Deus queira que não tenhamos de nos arrepender!... acrescentou o outro.- E, àquela roupa, podes rezar-lhe por alma... o ali cai, fica!

O provinciano afastou-se sem responder e lamentando interiormente que, logo nessa tarde, não estivesse em casa o eloqüente Dr. Tavares, que seria uma excelente perna dos brindes da sobremesa.

Mandaram-se vir dois carros. Num iria o Coqueiro mais a família e no outro Amâncio com os dois amigos.

Partiram às oito horas, alegremente, num alvoroço gárrulo de festa. Mme Brizard dera toda força à sua elegância: atirou-se ao decote, pôs a pedraria ainda do tempo do primeiro marido, e exibiu aquele rico pescoço, “que ela não trocava pelo de ninguém”!

Amelinha estreou um belo vestido de escumilha azul que lhe dera o amante. No seu colo, cor de camélia fanada, assentavam muito bem as pérolas e os rubis; seus braços, levemente dourados de penugem, sabiam, no meio da confusão caprichosa das rendas valencianas, fazer tilintar com graça os braceletes que se enroscavam nas compridas e transparentes luvas de retrós. A cunhada, ao vê-la sair do quarto, dissera:

— Não parece uma brasileira!... Tão linda está!

* * *

(continua...)

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