Por José de Alencar (1872)
Em que é que os devaneios e o orgulho intelectual repugnam com a sociedade brasileira, aponto de não poderem germinar em seu seio?
Não nos disse a crítica e era o essencial.
Neste país dos trópicos, onde a própria natureza devaneia nas cambiantes da luz, no capricho das formas, nos contrastes do belo; nestas naturezas meridionais de imaginação vagabunda, cismar será acaso uma aberração? O orgulho da inteligência também não vinga nesta terra onde ele se ostenta todos os dias desde o legítimo brio do talento laborioso até a fofa vaidade da “suficiência” lerda e obesa, que refocila na reputação mal ganha? Nem um nem outro destes dois senões tinha-os Ricardo que entretanto, como homem ou como personagem, não estava isento de defeitos.
Longe de ser o “homem dos devaneios”, Ricardo é o homem prático, preocupado dos interesses positivos da vida, compenetrado de sua grave responsabilidade como chefe de uma família não pequena e paupérrima que tem nele o único arrimo.
Professa a advocacia, donde espera tirar recursos; luta com uma corajosa tenacidade contra as dificuldades do tirocínio. Nas horas de lazer não faz verso, desenha, como eu costumo fazer às vezes, à toa e por desfastio, sem nunca ter aprendido; e confesso que esses grosseiros empastes me divertem.
Aí vai esse neologismo, feito com a nossa mobília cá de casa (do verbo empastar) para traduzir o pastiche, que os franceses trouxeram do italiano pasticcio.
Quanto a orgulho de inteligência, é coisa de que o moço não tinha nem sombras. Em suas palavras não há uma alusão à sua capacidade; não trai aspirações literárias nem políticas; não sonha com a glória. Sua preocupação é, para o coração, o amor da família e a afeição de uma moça; para a razão, a posse de vinte contos, necessária para assegurar o bem-estar dos seus.
São dois colegas que de passagem e em ocasiões diversas fazem alusão “a seu talento”; pois ele o tinha, se o autor não se enganou em dar o nome a alguma dessas fosforescências que usurpam aí pelo mundo esse título.
Creio ter exaurido a primeira pecha de estrangeirismo; e se alonguei-me foi pelo sistema da crítica, incômodo e laborioso para o autor, que deseja defender o seu livro, pois, além da tarefa de arcar com a habilidade do crítico, é obrigado a adivinhar-lhe os motivos.
Tachando as duas personagens principais de estrangeiras, deu a entender que destoavam da nossa “sociedade franca e democrática”.
Mas não será franca e democrática a sociedade onde se passam as cenas do romance? Onde dois moços pobres e desconhecidos são convidados a jantar, logo depois de rápido conhecimento, feito pela manhã em um encontro? Onde a fidalguia é representada por titulares de carregação, como um barão que foi tropeiro, um visconde que foi belchior, e um conselheiro que tem casa de consignações? Uma observação ainda.
No romance de costumes, e não sei se os Sonhos d’ouro podem levar tão alto suas pretensões, nem todas as personagens são tipos, nem todas figuram na “comédia social”, de que o autor aproveita um ato ou um trecho. As principais na grande parte dos casos são atores no drama, que formam o esqueleto do livro, e lhe tecem o enredo, fibra vital dessa espécie de obra cujo fim é antes de tudo o conto, a fábula, que pretende o espírito e o deleita.
Divaguem como queiram os modernos discípulos de Aristóteles: aquele é o escopo do romance, o mais não passa de acessórios e ornatos, às vezes é certo, de tão subido preço, que sobrepujam o todo, como os diamantes de que se bordam as vestes.
Nem Guida, nem Ricardo são tipos, mas caracteres formados pelas nossas condições sociais, idiossincrasias, como outras que aí estão se reproduzindo ao infinito, sob a influência de um concurso qualquer de circunstâncias. A diferença entre um tipo e um caráter não careço de a determinar, pois não a ignora o ilustrado crítico. O tipo é moral; o caráter é psicológico. Este só contraste basta: dá-nos ela outra importante aferição. O tipo forma-se exteriormente pelo molde social; o caráter é uma criação espontânea, que se produz internamente pelas modalidades da consciência.
O marinheiro, o soldado, o estudante, o advogado, etc., são tipos de maior ou menor relevo. O avaro, o egoísta, o ambicioso, são caracteres que variam como as folhas de uma árvore e os logaritmos de uma mesma forma natural. Fazendo aplicação destes prolegômenos da crítica a nossas personagens, não será difícil discernir o que pertence ao caráter e o que ao tipo, em cada uma delas.
Em Guida a altivez do gênio, a elegância fidalga, os caprichos dissipadores, a isenção da alma, tudo isto é do caráter, no qual sente-se a leve impressão da educação inglesa. O que há de típico nessa figura é a forma de que se revestem suas travessuras, a garrulice brasileira desse lábio malicioso, o impulso de caridade que se expande traquinando, o modo por que apesar da riqueza vive sem luta no meio de uma sociedade que lhe não convém.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.