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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Era uma dessas viagens encantadas, viagens longas, de dezenas de anos e de milhares de léguas, que se faz com os olhos fechados, com o sorriso nos lábios, sem mudar de posição, e às vezes em uma só hora, em cinco minutos, ou mesmo em rápidos instantes.

Estava pois Mariana embebida naquele mar de gozos imensos, naquele mundo de abstrações deleitosas, quando...

Talvez mesmo passava nesse momento por diante de seus olhos a mais cara de suas imagens, porque ela apertou as mãos com indizível ardor contra o coração, e exalou um anelante suspiro, quando soou o rodar de uma carruagem que parou à porta do “Céu cor-de-rosa”.

A viúva soltou um pequeno grito e ergueu-se inopinadamente.

O mundo abstrato acabava de esvaecer-se; a realidade fria e pesada chegava.

O rosto expansivo e belo de Mariana contraía-se dolorosamente.

Tinha reconhecido o rodar daquela carruagem: aquela carruagem trazia-lhe um tormento sempre que parava junto do alpendre do “Céu cor-de-rosa”.

A porta da sala abriu-se.

– O sr. Salustiano! disseram.

– Que entre! murmurou a viúva.

E o rosto de Mariana tomou uma nova expressão; tornou-se frio, mas sossegado.

Salustiano entrou, e veio sentar-se junto da viúva.

Encontravam-se ainda uma vez a sós esse homem e essa mulher que se aborreciam tanto.

– Parece que um anjo benfazejo me protege, disse Salustiano. Sempre que desejo falar a V. Exa. sem testemunhas, uma ocasião própria se me oferece.

– Hoje então...

– V. Exa. se admirava talvez de me não ver há muito tempo, não é assim?... perguntou sorrindo o mancebo.

– Oh! não; respondeu secamente Mariana; V. Sa. deu-nos o prazer de passar conosco o último serão; foi ainda há dois dias.

– A resposta não parece das mais lisonjeiras; mas também é porque me não fiz compreender; eu dizia que V. Exa. talvez já se admirasse de me não ver procurar alguns momentos em que pudesse falar-lhe a sós.

– Também não. Pensava ao contrário que V. Sa. já tinha exigido de mim tudo quanto exigir podia, e que pela minha parte eu já me havia mostrado obediente demais.

– Demos que assim fosse; não quereria porém V. Exa. pedir-me a entrega de alguma coisa que julgasse pertencer-lhe?...

– Confesso que não pensava em tal. Confiava na sua honra, e julgava que não seria preciso pedir-lhe o que o dever ordenava a V. Sa. que me entregasse.

– Oh! mil vezes agradecido; V. Exa. pela primeira vez em sua vida parece acreditar na honra do mais humilde de seus escravos.

– Senhor... de que serve aqui a ironia?

– Já vejo, minha senhora, que conserva todas as suas antigas disposições; ama a verdade e a singeleza sobretudo.

– Entendamo-nos, senhor, disse Mariana com sangue frio. Devo crer que não foi simplesmente para zombar de mim, que teve a complacência de vir hoje a esta casa.

– Oh! não, por certo.

– Pois então fará o obséquio de explicar-se. Estamos sós. O que quer de mim ainda?...

– Primeiramente eu vinha depositar aos pés de V. Exa. os mais sinceros parabéns pelo seu próximo casamento.

– Agradecida.

– Oh! eu tenho uma inveja desesperada de um noivo de moça bonita.

Acreditará V. Exa.?... estou louco por casar-me.

– Felizmente para V. Sa. o remédio é fácil.

– Então aconselha-me?...

– Que se case.

– Esse é o meu desejo, certamente; e como em V. Exa. se concentra toda a minha esperança, eu não hesitei em correr a seus pés.

– Senhor...

– Falemos com clareza: não ignora que amo a sua sobrinha.

– Sei ao mesmo tempo que minha sobrinha não o ama.

– É verdade; disse com sangue frio imenso Salustiano, E se eu tivesse podido agradar à “Bela Órfã”, acredite V. Exa. que dispensava completamente a sua intervenção.

– E não tendo podido agradar-lhe, senhor, a minha intervenção será sempre improfícua.

– Tenho a certeza do contrário,

– Estou hoje convencida de uma verdade que V. Sa. adivinhou antes de todos; minha sobrinha já ama.

– É uma dificuldade, convenho, mas...

– Quereria por acaso ligar-se a uma senhora que amasse a outro?...

– Sua digna sobrinha, minha senhora, tem a educação da virtude.

– Oh! mas a educação da virtude abafa, porém não mata nunca o amor! a mais nobre, a mais pura das virgens que se desposasse com um homem, amando ao mesmo tempo a outro, sem querer, a despeito de esforços inauditos, seria infiel na alma a seu esposo.

– Mas uma virgem cristã...

– Uma virgem cristã não desposa o homem que não ama. Deus proíbe esses laços sem nobreza. São laços ilegítimos. Em tal caso, ou não há verdadeiro casamento, ou o casamento é um sacrilégio.

– Quantos sacrilégios tem portanto havido neste mundo?... disse Salustiano.

– Não é uma razão para que continue a havê-los,

– Pode ser que V. Exa. tenha toda razão; tornou o moço descansando uma perna sobre outra. Mas o pior é que, ou eu me engano muito, ou me acho desesperadamente apaixonado; e conseguintemente surdo à voz da razão, cego à luz da verdade, vinha dizer a V. Exa. que eu teria o maior prazer deste mundo se no dia do seu casamento se assinassem as escrituras do meu.

(continua...)

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