Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
— Minha senhora, a porta da rua é a serventia da casa; mas não creio que chegue a fazer tal.
— Por quê?... penso que preciso de sua pessoa?...
— Ao contrário: porque seria uma pessoa como a minha muita felicidade junta.
— O senhor come pelo meu dote!...
— Sim, senhora... sim, senhora... os seus dotes são extraordinários!...
— Sabe?... o senhor está hoje muito atrevido!...
— E a senhora não se lembra que ainda há pouco atirou com a aba da minha casaca sobre o meu nariz?...
— Um homem casado ofender assim sua mulher!...
— Ora, isto só pode ouvir um homem prudente como eu!... Sr.ª D. Tomásia, a senhora tem venetas, tem acessos de loucura?... que diabo lhe fiz eu?... diga, senão desta vez estouro!...
— Hipócrita!...
— Atacar-me na pessoa da minha casaca!... ofender-me no indivíduo do meu nariz!... e sem nenhum motivo plausível, sem nenhuma razão sensível, dar um golpe de estado em circunstâncias ordinárias!...
— Miserável!... e ainda quer encobrir?!...
— Encobrir o quê, senhora da minha alma?... ora, dá-se um inferno, como este em que vivo?...
— Pois aonde ia o senhor ainda agora?...
— Trabalhar para a eleição de Manuelzinho; não era isso da sua vontade?
— Todos eles têm sempre um pé por onde se desculpam! por que não confessa antes, senhor hipócrita, que ia ver a sua namorada?...
— Pois eu tenho namorada, mulher dos meus pecados?!
— Então tem ainda o atrevimento de negar que anda apaixonado pela filha de Hugo de Mendonça?...
— Misericórdia! que calúnia! que falsidade!...
— E há pouco por que o senhor a chamava agradável, interessante, linda, encantadora, e até anjo?!...
— E não foi a senhora quem deu-lhe primeiro todos esses nomes?... se eu dissesse o contrário disso, tínhamos trovoada por três dias!... caí na asneira de repetir o que ouvia, e eis o resultado! nesta casa sou preso por ter cão, e preso por não ter cão; mas vou apelar para outro meio: fale, minha senhora; que de hoje em diante ficarei mudo, como o Pão de Açúcar. — E hei de falar, gritar e bramir!...
— Hum.
— Anjo!... anjo!... anjo aquela lambisgóia!...
— Hum.
— Uma amarela sem graça!
— Hum.
— Entendeu?... não quero que se trate mais de eleições.
— Hum.
— Não quero mais amizade com aquela gentinha.
— Hum.
— Não quero que o senhor me ponha mais os pés da porta para fora.
— Hum.
— Pois que é um velho estúpido e namorador...
— Hum.
— Miserável!... torpe!... covarde!...
— Hum.
— Tão covarde, que ouve os insultos que lhe estou dirigindo, e não me diz palavra!...
— Hum.
— Digo-lhe que não me sai mais de casa! que hei de tê-lo preso num quarto escuro! que hei de pô-lo em penitência de pão e água!...
— Hum.
— Homem sem sangue!... fale!... senão desespero!...
— Hum.
— Oh, velho desgraçado!... desculpe-se, ou grite; mas fale!... ou ver-me-á fazer alguma asneira!
— Hum.
— Oh, narigudo de uma figa!...
Tomásia furiosa com o propósito em que estava Venâncio de não dizer palavra, triunfou inesperadamente: o pobre velho não pôde ouvir em silêncio um insulto dirigido ao seu nariz. — Oh, Sr.ª Tomásia, por quem é, não me deite a perder!... diga tudo quanto quiser; mas não toque no meu nariz!...
— Narigudo!... narigudo!...
— A senhora devia ser casada com um homem sem nariz!
— Narigudo!... narigudo!...
— E a senhora!... é uma mulher que se diz com vinte e nove anos, sendo capaz de ser minha mãe!...
— O que é que diz?... gritou Tomásia avançando.
— Pois se não quer ver-me perder o meu sangue-frio, não fale do meu nariz!... disse Venâncio afastando-se temeroso.
— Narigudo! bradou Tomásia.
— E a senhora é um... estu... víbo... dia... dragão!...
— Espera, que eu te ensino, narigudo duma figa!
Tomásia lançou mão de uma cadeira e atirou-se contra Venâncio, que deitou a correr em roda da sala, tomando outra cadeira para defender-se; ao passar junto da porta do gabinete, viu que Manduca aparecia e exclamou:
— Manduca! salva teu pai das garras daquela mulher!
E, como para isto dizer fizesse uma pequena parada, Tomásia atirou-lhe com a cadeira; mas já então Manduca se havia posto entre ambos, e foi ele quem recebeu nas costas tão grande pancada, que caiu derreado.
— Manduca!... exclamaram os dois velhos, esquecendo-se por um momento de seus furores, e correndo a acudir o filho.
— Manduca!... assobiou Rosa com voz de falsete.
No entanto, Manduca fazia no rosto contrações horríveis, e, por duas ou três vezes que tentou levantar-se, caiu de novo.
Os dois irmãos ocupados em sua disputa fraternal, não haviam dado atenção aos gritos que seus pais soltavam na sala, aos quais, aliás, por muito afeitos, já ouviam sem grande cuidado; enfim, no momento de entrar na sala, o filho apanhou em lugar de seu pai o golpe de que acabamos de falar.
— Quem tem culpa és tu, velho narigudo! disse Tomásia.
— Quem tem culpa é a senhora, mulher despropositada! disse Venâncio.
— Quem tem culpa, minha mãe, é a amarela da moda, acudiu Rosa.
— Quem tem culpa é o Sr. Brás-mimoso, balbuciou Manduca falando como a espremerse.
— Meu filho, tornou Tomásia; eu te vingarei no nariz de teu pai.
— Meu filho, acudiu Venâncio, eu te vingarei não dando mais resposta a tua mãe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.