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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Não é ainda para os nossos beiços, repito! nós não estamos preparados para a república! O povo não tem instrução! É ignorante! e burro! não conhece os seus direitos!

— Mas venha cá! replicou o Casusa, fechando no ar a sua mão pálida e encardida de cigano. Diz você que o povo não tem instrução; muito bem! Mas, como quer você que o povo seja instituído num país, cuja riqueza se baseia na escravidão e com um sistema de governo que tira a sua vida justamente da ignorância das massas?... Por tal forma, nunca sairemos deste circulo vicioso! Não haverá república enquanto o povo for ignorante, ora, enquanto o governo for monárquico conservará, por conveniência própria, a ignorância do povo; logo - nunca haverá república!

— E será o melhor!...

— Eu então já não penso assim! Acho que ela devia vir, e quanto antes! tomara eu que rebentasse por ai uma revolução: só para ver o que sala! Creio que somente quando tudo isto ferver, a porcaria irá na espuma! E será espuma de sangue, seu Sebastião!... Acredite, meu rico, que não há Maranhão como este! Isto nunca deixará de ser uma colônia portuguesa!... O alto governo não faz caso das províncias do Norte! A tal centralização é um logro para nós! ao passo que, se isto fosse dividido em departamento, cada província cuidaria de si e havia de ir pra diante, porque não tinha de trabalhar para a Corte! a insaciável cortesã! - E o Casusa gesticulava indignado. - Mas o que quer você?! O governo tem parentes tem afilhados tem comitivas, tem salvas tem maçapães tem o diabo! e para isso e preciso cobre! cobre! O povo esta aí, que pague! Tome imposto pra baixo e deixa correr o pau para Caxias!

E, chegando a boca a uma orelha do outro: - Olhe meu Sebastião, aqui no Brasil vale mais a pena ser estrangeiro que filho da terra!... Você não esta vendo todos os dias os nacionais perseguidos e desrespeitados, ao passo que os portugueses vão se enchendo, vão se enchendo, e as duas por três são comendadores são barões, são tudo! Uma revolução! exclamou repelindo o Campos com ambas as mãos Uma revolução é do que precisamos!

— Qual revolução o quê! Você é um criançola seu Casusa e ainda não pensa seriamente na vida! Deixe estar que em tempo julgará as coisas a meu modo, porque em nossa terra . Que idade tem você?

— Entrei nos vinte e seis.

— Eu tenho quarenta e quatro... em nossa terra estão se vendo constantemente entradas de leão e saídas de sendeiro!... Você acha que a república convinha ao Brasil! pois bem... Ai!

— O que é?

— O dente! diabo!

E, depois de uma pausa

— Adeus. Até logo, disse cobrindo o rosto com o lenço e afastando-se.

— Olhe! Espere, seu Sebastião gritava o Casusa, querendo detê-lo, empenhado na palestra.

— Nada! Vou ali ao Maneca Barbeiro curar este maldito!

E separaram-se.

Entretanto, na noite desse mesmo dia, quando o relógio de Raimundo marcava onze horas, acabava este de aprontar as suas malas.

— Bom!

— E sacudiu as mangas da camisa, que o suor prendia aos braços. — Amanha a estas horas já estou longe daqui!...

Em seguida, assentou-se à secretária e tirou da pasta uma folha de pape!, escrita de princípio a fim com uma letra miúda e às vezes tremida. Releu tudo atentamente, dobrou a folha, meteu-a num envelope e subscritou-o a “Exª Sr.ª D. Ana Rosa de Sousa e Silva”. Depois quedou-se a fitar este nome, como se contemplasse uma fotografia.

— Deixemo-nos de fraquezas!...

E levantou-se.

(continua...)

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