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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Rosa era muito discreta e muito fina; falcatruas arranjadas por ela produziam sempre bom resultado. Teresa dava-lhe roupas, vestidos pouco usados, sapatos ainda novos, leques à moda; mandara ornar-lhe a cama com um cortinado e cederalhe até um dos tapetes de seu quarto. Sabia que a criada usava dos seus perfumes, dos seus sabonetes e dos seus cosméticos, mas fechava os olhos a tudo isso e ainda intercedia por ela sempre que o comendador a acusava.

O carro afinal parou defronte do portão, e Teresa apeou-se, ligeiramente trêmula.

Seriam oito horas da manhã e o dia estava magnífico.

Ficou por um instante à porta, sem querer entrar.

A chácara apresentava-lhe uma fisionomia repreensiva e severa; a casa, as árvores, o repuxo do tanque, tudo tinha então para ela um duro aspecto de censura e de queixa.

A luz penetrante do sol, derramando-se por toda parte, parecia ralhar, argüir, fazer reprovações. Toda a natureza a intimidava com a sua mudez austera e com a sua inalterável tranqüilidade.

Teresa sentia-se envergonhada, corrida; não tinha ânimo de levantar a cabeça. Os empregados públicos desciam para os seus empregos, devagar, no passo metódico dos homens que regulam a vida pelo ordenado, a caminharem na imperturbabilidade de funcionários pagos por mês. Passavam os bondes, cheios, pesados; singravam os caixeiros de cobrança, os pretos de carga, os vendedores de jornal, as carroças de pão, os estudantes, os meninos de colégio e as costureiras. E todo esse mundo da atividade e do trabalho esfervilhava ao sol, como um exemplo humilhante.

Teresa fechou os olhos para não ver esse doloroso espetáculo. A vida real entrava-lhe na imaginação como um jato de água fria. Ainda na véspera, ela se persuadira que ia por uma vez desprezar tudo aquilo; que nunca mais veria tal vizinho passar a horas certas para a sua repartição; que não ouviria tal piano de casa próxima tocar certa e determinada música; que não suportaria mais a voz da preta que de manhã passava impreterivelmente na rua a apregoar frutas; julgara que nunca mais daria com os olhos no vizinho da frente, um taverneiro barrigudo, de perninhas curtas e barbas debaixo do queixo; persuadira-se enfim que se havia por uma vez libertado de todas aquelas misérias positivas, que a constrangiam, que a matavam de vergonha e de tédio.

As próprias casas da vizinhança, a má pintura das tabuletas, o desenho de um boi impassível na parede de um açougue que ficava defronte, as desgraçadas alegorias da taverna da esquina, o farmacêutico pequenino, magro, amarelo, que vinha todas as tardes assentar-se debaixo de um flamboyant fronteiro à farmácia; tudo isso a enjoava, tudo isso lhe produzia efeitos insuportáveis.

A malograda fuga com o Portela havia sorrido ao espírito de Teresa mais pelo lado do imprevisto, do desconhecido, do aventuroso, do que mesmo pelo amor que ela lhe pudesse ter. Desejara aquela fuga como um doente deseja mudar de um lugar para obter novos ares; outro qualquer moço, igualmente vigoroso e bem disposto, é natural que produzisse nela iguais efeitos. A sua imaginação precisava de atividade dramática, como seu corpo precisava de atividade sexual.

Mas, as decepções da véspera faziam-na por um instante esquecer tudo isso, para só pensar na possibilidade de restituir-se de novo ao lar doméstico.

— Ah! se Deus me tivesse deixado uma de minhas filhas!... dizia ela consigo, a subir muito apressada a pequena escada de pedra que conduzia da chácara para o jardim; não estaria eu agora com certeza a sofrer deste modo: haveria de sentir-me escudada por ela e pelo meu amor de mãe!...

Rosa veio ao seu encontro e, sem lhe dar uma palavra, sem fazer um gesto de espanto, abriu com pressa a porta da cozinha que dava para o jardim, e fê-la passar, empurrando-a familiarmente pelas costas.

— Entre aí para o meu quarto, ordenou a criada. Eu já lhe venho dizer quando deve subir. Espere um pouco!

E Rosa, apanhando as saias, ganhou a primeira escada e desapareceu.

Teresa ficou só, à espera, com o chapéu na cabeça, a capa nas costas, imóvel, como se estivesse muito empenhada em observar os objetos que tinha defronte dos olhos. E, sem querer, começou a calcular o efeito da sua aparição ao lado do marido; via-se toda confusa a fazer-lhe festinhas, a consolá-lo do que havia sucedido, a adulá-lo. E, ainda sem querer, começou a considerar como devia entrar, se depressa ou vagarosamente; se devia deixar embaixo o chapéu e apresentar-se inalterável, como se não houvesse a menor novidade; ou se deveria entrar com espalhafato, fingindo indignação por qualquer coisa; se devia não dar palavra ao marido e esperar que tudo voltasse por si mesmo aos seus eixos, ou se devia lançar-se-lhe aos pés e pedir-lhe perdão com palavras ardentes, com soluços e gestos teatrais.

Mas antes de chegar a qualquer conclusão, já a criada voltava a dizer-lhe apressadamente da porta:

— Agora! Agora! Passe agora. Ande! Não há ninguém na varanda! Suba e vá para o seu quarto!

Teresa cumpriu aquela ordem, como se a recebesse de um superior.

(continua...)

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