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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Entretanto, faziam-se horas. Os examinadores estavam já reunidos na sala de exames, em torno da sua mesa forrada de pano verde. Amâncio lobrigava-os pela frincha da porta entreaberta e ouvia-lhes o murmurar descuidoso da conversa, intercaladas de risotas e baforadas de charuto

À vista daqueles homens resfriaram-lhe de novo as mãos e voltaram-lhe os calafrios do terror, algum resto de confiança, que ainda teria em si, evaporou-se de todo.

E, para não sucumbir, procurava acreditar na eficácia dos empenhos que arranjara; seu espírito, como o náufrago que braceja nas agonias da morte, já não escolhia os pontos a que se agarrava; tudo ser ia naqueles apuros, tudo era pretexto de esperança; mas a consciência da verdadeira situação vinha meter-se-lhe de permeio, arrancando, uma por uma, todas as tábuas de salvação. E Amâncio arquejava, desorientado, perdido.

— Que diabo viera fazer ali?! Para que se apresentara? por que não se guardou para o ano seguinte ou, quando menos para março? Antes não tivesse pago a Segunda matrícula! Oh! se o arrependimento salvasse!...

E, proporção que se avizinhava o momento supremo, mais e mais imprudente lhe parecia a sua temeridade.

— Naquela ocasião, pensava ele, — bem podia estar na província, à testa dos seus negócios, ao lado de sua querida mãe, passeando, rindo, gozando, como nos outros tempos!...Era rico, era já tão estimado antes da academia, para que então sofrer semelhantes torturas, passar por aqueles maus quartos de hora, que ali estava curtindo?...

E vinham-lhe venetas de fugir, abandonar tudo aquilo, sem dar satisfações a ninguém, correr à casa do Campos, encher-se de dinheiro e arribar para a Europa, para o inferno! Contanto que se livrasse da obrigação de expor uma ciência que não tinha, escrever idéias de que não dispunha!

Mas o bedel havia surgido e principiava a “chamada”, e, a cada nome, recitado pausadamente, o seu olhar mórbido, de funcionário público no cumprimento de um velho dever enfadonho, consultava a multidão de estudantes, que em sussurros se apinhava pelo esvazamento das portas, empurrando-se uns aos outros, impacientes, curiosos, o pescoço espichado, a boca aberta, o calcanhar suspenso.

— Amâncio da Silva Bastos e Vasconcelos, disse aquele arrastando a voz.

Amâncio sentiu uma pontada no coração e tartamudeou:

— Presente.

Os companheiros, que lhe ficavam por diante, arredaram-se logo, dando-lhe passagem, e ele foi ocupar uma das banquinhas que havia na sala.

A chamada ainda durou algum tempo, porque Amâncio era dos primeiros; afinal, o bedel mastigou o último nome; fecho-se a porta da sala; e um silêncio formalista espalhou-se entre a turma dos estudantes e o grupo dos examinadores. O presidente da mesa tomou a lista dos examinandos, arranjou os óculos, tossicou e, com um bocejo, chamou pelo que estava em primeiro lugar.

Um rapazote louro, de buço, ergueu-se e foi ter com ele. O presidente, com um segundo bocejo e um gesto de cabeça, ordenou-lhe que tomasse um dos pontos da urna.

Amâncio ofegava. — Ia decretar-se o ponto!

— Qual seria?... E se, por caiporismo, fosse justamente um dos mais crus?

E o sangue trepava-lhe à cabeças, pondo-lhe latejos nas fontes.

O rapazote louro meteu enfim a mão na urna e tirou com a ponta dos dedos trêmulos uma pequena torcida de papel, que passou ao presidente Este desenrolou-a e leu: “Hidrogênio”.

Amâncio respirou: o ponto não podia ser melhor para ele do que era! Talvez fosse até entre todos o menos mal sabido; ainda essa manhã lhe passara uma vista de olhos. Contudo, uma vez imposto o Hidrogênio, quis lhe parecer vagamente que havia outros pontos preferíveis..

Estava mais tranqüilo, que era o principal; já quase nada lhe tremia a mão ao receber das do bedel uma folhas de papel almaço, rubricada pelos lentes, das que ia aquele distribuindo por todas banquinhas dos examinandos.

— Ali, naqueles miseráveis dois vinténs der papel, tinha ele de determinar o seu futuro, a sua posição na sociedade, talvez a própria vida de sua mãe, dizendo o que sabia a respeito do tal Hidrogênio!...

Experimentou a pena, endireitou-se na cadeira, e escreveu, caprichando na letra e procurando obter estilo.

A areia da ampulheta esgotava-se defronte da calva e dos bocejos do senhor presidente. Correu meia hora; Amâncio ergueu-se afinal, entregou a sua prova e saiu das sala, a esfregar, muito preocupado, os dedos das mão direita contra a palma da esquerda.

À porta, mal acendera sofregamente o cigarro, contava já aos seus amigos o que havia exposto pouco mais ou menos. — Ah! com certeza pilhava uma — nota boa! — Não era por querer falar, mas a sua prova saíra limpa. “Assim não fosse o ponto tão ingrato!...”

E ficaria a prosar sobre o caso, se o Coqueiro, aguilhoado pela ausência do almoço, não o arrancasse dali.

* * *

A nota foi boa, efetivamente.

Soube-o Amâncio no dia seguinte, logo que correu à secretaria. Não contava, porém ficar tranqüilo, senão depois do resultado de sua provas oral.

(continua...)

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